| RED
FLAG
|
3
- FAB: O Caminho
Pós-Nellis
Nelson During
Editor-Chefe DEFESA@NET
|
A participação
da Força Aérea Brasileira (FAB) na
Red Flag 08-3 é um divisor de águas
em sua história recente. DEFESA@NET tratará
em três artigos o atual momento da aviação
de caça do Brasil, o caminho que a levou
até Nellis, a atuação na Red
Flag e o roteiro pós Nellis e as implicações
no Programa F-X2.
FAB: O Caminho
Pós-Nellis
Nelson During
Com a boa participação
na Red Flag 08-3 a Força Aérea Brasileira
apresenta pontos não só para análise
como indica rumos para o futuro, inclusive com implicações
no Programa F-X2.
Algumas discussões
e conceitos que podem ser simples ou ter o mesmo
significado apresentam caminhos que chegam a resultados
muito diferentes.
Para o leitor o
Programa F-X2 significa a compra de um novo caça
para a FAB. No senso comum este caça deverá
incorporar novas capacidades e tecnologias que dêem
mais músculos e braços mais longos
para a Força Aérea.
Falamos em aviões
multi-missão (multirole), as diversas gerações
do desenvolvimento de aviões, sistema centrado
em redes (network warfare), guerra eletrônica,
etc. Mas o que significa isto dentro de um conceito
operacional?
Em tempos de jogos
olímpicos podemos comparar as ações
de uma Força Aérea com duas competições:
as provas de 100 m rasos e o 4x100. Na prova de
100 metros é o atleta em uma corrida solo
com o máximo de velocidade. A prova de revezamento
4 x 100 é mais complexa, requerendo coordenação
de equipe. Pela primeira vez desde 1948 os EUA não
estiveram na final feminina do revezamento 4x100
m.
 |
F-5EM
com míssil Python 3 e BVR Derby ambos
da empresa Rafael |
País com
a maioria dos melhores velocistas do mundo, os EUA
costumam confiar na velocidade individual dos seus
melhores atletas, que se encontram apenas no Mundial
e na Olimpíada para treinar a passagem do
bastão. Envolvidos com várias eliminatórias,
semifinais e finais individuais, velocistas e técnicos
dos EUA admitem que não dão muita
atenção ao fato, porque o desempenho
de cada um costuma compensar eventuais falhas. A
vitória é o resultado de um enorme
conjunto de fatores do qual a sorte tem sua parte.
Mas quem for para a batalha confiando e dependendo
muito dela já está a meio caminho
de sua derrota.
A Doutrina
As estratégias
e os conceitos doutrinários de operações
de uma Força Aérea são similares
à comparação entre as equipes
de 100 metros rasos e de revezamento. Se quero ter
o trabalho solitário de um piloto, sei que
ele pode ser otimizado, porém tem distância
curta. Se desejo multiplicar a nossa força
é preciso azeitar as engrenagens e ter uma
coordenação não somente com
os esquadrões de caças, mas estes
com os demais componentes que formam uma Força
Aérea (FAE):operações REVO,
transporte, guerra eletrônica, C3I, etc. Assim
ter o Controle do Espaço Aéreo sobre
o território nacional ou em Teatro de Operações
e conseguir impor sua presença neste cenário
não é fruto de um componente em especial,
mas de um conjunto deles operando de forma integrada.
Como nas palavras
do Comandante do COMGAR (Comando-Geral de Operações
Aéreas), Tenente-Brigadeiro-do-ar João
Manoel Sandim de Rezende à DEFESA@NET: “Nenhuma
aviação é independente. Basta
ver os resultados das CRUZEX. Há uma interação
entre as aviações. Nenhuma delas age
sozinha, elas são interdependentes. A aviação
de caça precisa da aviação
de transporte para se locomover. As unidades de
caça precisam da presença de unidades
C-SAR, caso um piloto venha a ser abatido. As Forças
Aéreas (FAE) estão muito coesas na
FAB e os comandantes estão aprendendo uns
com os outros. O que é fundamental para a
sobrevivência de nossa força aérea.”
Uma operação
aérea hoje sem a presença de aviões
tanque para o reabastecimento em vôo (REVO)
é uma operação muito limitada,
em especial pelo uso sempre polêmico dos tanques
externos para aumentar o raio de ação.
Estrutura
das Forças Aéreas (FAE) da FAB
| |
Sede |
Especialização |
| I FAE |
Natal |
especializa os pilotos
da Força Aérea nas aviações
de Caça, Asas Rotativas, Transporte,
Reconhecimento e Patrulha. |
| II FAE |
Rio
de Janeiro |
emprega aeronaves em
operações aerotáticas independentes
ou com as Forças Navais |
| III FAE |
Brasília |
emprega caças
estratégicos e táticos, aeronaves
de reconhecimento e de defesa aérea |
| V FAE |
Rio
de Janeiro |
emprega aviões
de transporte |
A participação
do F-5EM, uma plataforma limitada, porém
com uma aviônica moderna que permite ao piloto
um maior domínio da área de combate
conseguiu reduzir o “gap” tecnológico
e operacional da FAB. A introdução
do Visor Montado no Capacete (HMD – Helmet
Mounted Display) e o Data Link garantirão
uma atualização tecnológica
que permitirá ao F-5EM operar na FAB até
a chegada dos novos caças (2015-2020). A
modernização dos A-1 (AMX) ao mesmo
nível tecnológico permitira o lançamento
de armas guiadas de precisão e o emprego
mais amplo assim como operar em ambientes de Guerra
Eletrônica .
Leituras preliminares
do que os ministros Mangabeira Unger e Nelson Jobim
falam sobre a FAB no que chamam de “reorganização
e reorientação” permanecem confusas.
Algumas vezes focam a questão soberania dando
ênfase à questão da Defesa Aérea.
Caso seja esse caminho, o que a FAB tem trabalhado,
proposto, exercitado e adquirido até o momento
poderá ser alterado para um resultado bem
diferente.
|
Uma
atualização "mid-life"
dos
R-99A está nos planos da FAB |
O risco é
muito grande pois no presente momento algumas aviações
mostram uma fadiga proveniente da extensão
das suas operações. Particularmente
notada na Aviação de Transporte onde
as missões REVO e de transporte em apoio
às mais diferentes operações,
incluindo as humanitárias e militares, estão
impondo uma carga de trabalho adicional além
da prevista. A espera pelo projeto EMBRAER C-390,
que pode incorporar a função REVO.
não pode ser muito longa. Mesmo que seja
tomada agora a decisão de avançar
com o programa, as primeiras unidades só
chegarão à FAB em 2013/2015.
Na área de
C3I uma modernização dos sistemas
dos aviões R-99A deve ser planejada, não
só incorporando a redução de
peso e consumo de energia com a miniaturização
de componentes eletrônicos. A própria
modernização do radar SAAB Erieye,
dando maior capacidade pode ser incorporada
O Cenário
Latino-Americano.
A FAB conseguiu
adquirir o domínio operacional em ambiente
BVR (mais detalhes no primeiro artigo). E as ações
na Red Flag foram totalmente em ambiente BVR. Quando
não acontecia assim algo tinha saído
errado na palavras de piloto do Esquadrão
Pampa. Não é só "lock"
(fixar no alvo) e disparar o míssil, mas
ter o total controle do espaço aéreo.
Mais do que isso, o domínio em operações
integradas com as diferentes aviações.
No continente latino-americano
tanto a Fuerza Aérea de Chile (FACh), F-16C/D
Block 50, e a Fuerza Aérea de Venezuela (FAV),
com o Su-30MK2 possuem plataformas mais capazes
que a FAB com os F-5EM e o Mirage 2000C/B.
Olhado de uma forma
integrada a comparação quanto às
demais capacidades fica:
País |
Alerta
Antecipado |
Domínio
BVR |
REVO |
C-SAR |
| BRASIL |
Sim ( R99A) |
Sim |
Sim |
Sim |
| Chile |
Não+ |
? |
Não* |
Não |
| Venezuela |
Não* |
Não
|
Não*
|
? |
Legendas
* Em negociação para aquisição
+ A aeronave Condor AEW apresenta limitações
de disponibilidade |
BVR
- A FACh tem liberado fotos de F-16 com mísseis
AIM-120 AMRAAM, porém é desconhecido
o emprego e a qualificação dos pilotos
chilenos no domínio de combates em ambiente
BVR. Quanto à Venezuela em recente demonstração
do Su-30Mk2 não foram lançados mísseis
ar-ar e só mencionado o emprego, porém
sem comprovação de armas ar-terra.
REVO - O nível
alcançado na área de REVO pela FAB
pode ser mensurado pela sua participação
na Red Flag, onde os Gripen da Força Aérea
Sueca operavam com três tanques de combustível
externos pois seus pilotos “não estavam
qualificados” para operações
REVO. A Suécia não tem aviões
reabastecedores em número suficiente o que
a obriga a ser dependente de operações
da OTAN. A qualificação do sistema
de reabastecimento do SAAB Gripen foi com um avião
tanque da Força Aérea da África
do Sul.
Operando em várias frentes
o Armée de l´Air solicitou à
FAB que propiciasse operações REVO
para o retorno de seus Mirage 2000N que operaram
na Red Flag Alaska, no primeiro semestre de 2007.
Assim o 2º/2º GT Esquadrão Corsário
levou do Alaska até a França esquadrão
de Mirages franceses.
|
|
F-16
do Chile com míssil
AIM-120 BVR AMRAAN |
Avião
AEW Condor |
Alerta Aéreo Antecipado
- Os R-99A e B são os únicos aviões
de inteligência efetivamente operacionais
na área da América do Sul. O avião
Condor da FACh não está mais com status
operacional e a Venezuela não tem mostrado
indícios de uma negociação
para aquisição de um avião
de alerta antecipado e controle como o russo A-50
(Ilyushin 76MD)
Estes dois fatos demonstram que
o domínio de uma Força Aérea
não está numa única arma mas
em uma operação integrada de diferentes
plataformas.
A comparação com
potências internacionais mostra resultados
interessantes mas não menos surpreendentes.
País |
Alerta
Antecipado |
Domínio BVR |
REVO |
Vigilância Terrestre |
| Brasil |
SIM |
SIM |
SIM |
SIM |
R-99B |
| USA |
SIM |
SIM |
SIM |
SIM |
E-8
JSTAR |
| Inglaterra |
SIM
|
?
|
SIM
|
Sendo
Introduzido |
Astor |
| França |
SIM
|
SIM |
SIM |
Não
|
- |
| Rússia |
SIM |
?
|
SIM |
Não |
- |
CRUZEX 4
A CRUZEX 4 que será realizada
nas cidades de Natal e Fortaleza, no mês de
novembro deste ano indicará muitas e importantes
respostas. Qual o caminho que será adotado
pela FAB? Como reagirão os países
vizinhos, em especial o Chile e a Venezuela? Já
foi anunciado que os dois países serão
representados respectivamente pelos F-5 Tigre III
e F-16.
Continuará a FAB no seu crescendo de conhecimento
e desafios? O que pensa o Estado-Maior da Aeronáutica
e seu comandante sobre as urgentes decisões
a serem tomadas?
Os desafios e encargos que serão
depositados na FAB são enormes e para eles
as respostas serão dadas. Pelo menos uma
podemos adiantar.
Ficam as palavras do Ten Brig Sandim:
“O Brig Saito determinou que buscássemos
a participação em outras edições
da RED FLAG e exercícios internacionais dentro
dos recursos disponíveis.”
|
Su-30MK2
da FAV. O grande raio de ação
e a capacidade de carga o torna um elemento
importante no cenário sul-americano |
|