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RED FLAG

DEFESA@NET 18 Agosto 2008

DEFESA @ NET

RED FLAG

1 - FAB - O Caminho até Nellis


Nelson During
Editor-Chefe DEFESA@NET

A participação da Força Aérea Brasileira (FAB) na Red Flag 08-3 é um divisor de águas em sua história recente. DEFESA@NET tratará em três artigos o atual momento da aviação de caça do Brasil, o caminho que a levou até Nellis, a atuação na Red Flag e o roteiro pós Nellis e as implicações no Programa F-X2.

1 - O Caminho até Nellis

As forças aéreas ao redor do mundo caracterizam-se por serem naturalmente a vitrine da tecnologia, o estado da arte na engenharia, materiais, eletrônica e nos mais diversos campos da tecnologia, e também da estratégia e doutrinas operacionais.

Ao longo da sua história a FAB alcançou seus avanços por saltos. Na década de 70 a introdução do caça francês Dassault Aviation Mirage III, mais a criação do Sistema de Controle de Defesa Aérea, com o Sistema DACTA. Foi um enorme avanço pois o conceito de controle unificado do tráfego aéreo militar e civil mostrou sua validade em especial após o evento de 11 de Setembro de 2001. Neste período muito do pensamento, a defesa aérea brasileira esteve centrada no que popularmente era chamado de “Dijon Boys”; grupo de pilotos que foram à França treinar e receber os Mirage III.

A incorporação dos Northrop F-5 E/F Tiger II, como caças táticos, em dois lotes, anos 70 e 80, serviram para complementar a estratégia básica, porém não alterando o centro de gravidade da defesa aérea brasileira focada no 1º Grupo de Defesa Aérea (GDA), localizado na Base Aérea de Anápolis. Este conceito ruiu em maio de 2002, quando a FAB confrontou-se com um conceito muito comentado mas desconhecido na prática pela Força.

Na década de 1990, a FAB realizou vários intercâmbios com outras Forças Aéreas, como as Operações Mistral (França) e Tiger (USAF), e uma participação com o A-1 (AMX) na Red Flag de 1998. Em cada exercício lições foram aprendidas, porém em alguns o foco era mais comercial na prospecção de venda para o que veio a ser o Programa F-X.

O choque

A participação da FAB com o A-1 na Red Flag de 1998 pavimentou o convite do Armée de l´Air em montar um exercício de operação aérea muito similar na experiência da OTAN com Operation Allied Force nos Bálcãs, em 1999. Foi lançada a Operação CRUZEX (Cruzeiro do Sul) cujo objetivo oficial era “Testar a estrutura de Comando e Controle praticada pela Força Aérea Francesa”.

Participaram equipes das Forças Aéreas do: Brasil, França, Argentina e Chile. Essa foi Primeira vez que a estrutura do JFAC (Joint Forces Air Control) saiu da França. A operação atendia ao interesse da FAB que estava recebendo naquele ano os primeiros aviões de alerta antecipado R-99A e também os aviões de vigilância terrestre R-99B, aviões que formariam o 2º/6º GAV Esquadrão Guardião. Um salto notável para a FAB em complexidade tanto na tecnologia embarcada como nas possibilidades de emprego da força.

Assim pousaram na Base Aérea de Canoas, em Maio de 2002, um Avião AWACS E-3F e caças Mirage 2000-5 RDY equipados com míssil com capacidade “Além do Alcance Visual” (Beyond Visual Range – BVR) MICA. Ao fim do primeiro dia da CRUZEX 2002 o choque tecnológico – operacional – doutrinário foi aplastante. TODOS os aviões da Força Oponente, geralmente caças F-5 da FAB, operando desde a Base Aérea de Florianópolis tinham sido abatidos.

O trio francês foi implacável: Alerta Antecipado com o AWACS, o Mirage 2000-5 com o radar RDY e o emprego do míssil BVR MBDA MICA foram mortíferos. Em especial empregados dentro do conceito operacional de “controle e comando” empregado pelos franceses reproduzindo a experiência da OTAN. Resultado: o exercício começou do zero na manhã seguinte.

O Diretor do Exercício pelos franceses, o General-de-Brigada Aérea Jean Bachelard, em entrevista ao editor de DEFESA@NET elogiou a performance dos pilotos brasileiros porém alertou que o gap tecnológico e doutrinário iria aumentar. Quatro anos depois o Armée de l´Air recebeu o Dassault Rafale C, um avião mais avançado que o Mirage 2000-5 RDY.

O Impacto

O choque que a FAB sofreu foi devastador. O impacto pôde ser medido nas palavras do então Comandante da Aeronáutica, Brigadeiro Baptista, durante a coletiva de imprensa: “os franceses abateram meus aviões a uma distância de mais de 50 milhas.

Conferência de imprensa ao fim da CRUZEX 2002 Na mesa os comandantes das Forças Aéreas: Brasil, França, Argentina e Chile e o Comandante do COMGAR

Eram novos conceitos como ambiente operacional BVR, Operações Centradas em Redes (Network Warfare), Data links, operações stealth, Comando e Controle (C2), Operações em Pacotes, Forças de Coalizão, etc...

Em meio ao Programa F-X a FAB não conseguiu desatar o nó político-industrial com implicações geopolíticas que se tornou a competição. O resultado foi seu fim em 2005, postergando sine die a aquisição de um moderno caça e sistemas de armas BVR.

Porém a FAB estava determinada na busca do domínio da arte de operar em ambiente BVR. O Programa F-5BR propiciava a plataforma para a FAB desenvolver a sua doutrina operacional e táticas compatíveis. Com uma avançada aviônica e a facilidade de integrar armas modernas, porém programa F-5BR avançava de forma claudicante. A modernização do F-5 era um dos itens do Programa de Fortalecimento do Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (PFCEAB), lançado em Julho de 2000. O programa iniciou em Março de 2001.

Mesmo com o atraso de vários meses, senão anos no programa, foi entregue em setembro de 2005 o primeiro avião F-5EM ao 1º/14° GAV, Esquadrão Pampa. EmAgosto de 2006 foi inaugurado o centro de simuladores. Intenso treinamento em simuladores, planejamentos de missões e as análises das mesmas (debriefing) dariam resultados naquele mesmo ano.

Mas faltava o míssil. Em 2006, após negociações secretas, foi adquirido o míssil BVR Derby fabricado pela israelense Rafael. Em tempo recorde o míssil foi integrado aos aviões (neste momento só as cabeças de combate) a tempo de participarem da CRUZEX 2006. Os programas tanto do avião como dos simuladores foram atualizados para integrar a nova arma. Posteriormente o comandante da FAB, Brigadeiro Bueno, anunciava publicamente a aquisição.

F-5EM em patrulha durante a CRUZEX 2006 com míssil Derby e Python 3
(Foto cortesia Spotter.com.br)
Simulador do F-5EM Na foto o então comandante do Esquadrão Pampa TC Bianchi

Durante a operação o 1º/14º GAV atuando como OPFOR, baseado em Campo Grande (MS), enfrentou a Força Azul equipada com caças franceses Mirage 2000C e D, entre outros. O resultado foi que o jogo endureceu e o Esquadrão conseguiu “abater” caças franceses em ambiente BVR. Não só isso, mas também propor diferentes táticas que desconcertaram em muitos momentos os seus oponentes. Ao operar em conjunto com os R-99A os F-5EM, a FAB conseguiu negar o domínio do espaço aéreo à Força Azul.

Após a CRUZEX a FAB e o Armée de l´Air realizaram combates simulados onde novamente foram testados os conceitos e doutrina operacional de combate BVR.

O retorno

A urgência e determinação com que a FAB procurou alcançar um novo estágio é exposto nas palavras do então Comandante do COMGAR, Brigadeiro José Carlos Pereira, quando foi categórico ao afirmar: “Temos de sair dessa fossa e alcançar um novo patamar tecnológico”, ao falar sobre o impacto que a CRUZEX 2002 teve na FAB. (Entrevista concedida em Março de 2005) O Brigadeiro J. Carlos foi o Diretor Geral da CRUZEX.

Operar em ambiente BVR não significa abater os aviões inimigos somente. Nas palavras de um experiente comandante de Esquadrão da FAB: “é importante que crie-se oportunidades e armadilhas que o inimigo dispare seus mísseis a uma distância que possamos ter manobras evasivas enquanto conservamos os nossos.”

O desempenho da FAB na CRUZEX, e a confirmação que a FAB possuia míssil BVR teve repercussão no continente com a Fuerza Aérea de Chile (FACh) realizando um insólito sobrevôo com todos os seus caças F-16 disponíveis, novos e modernizados sobre a capital Santiago do Chile. E o presidente venezuelano propôs uma CRUZEX no Caribe.

Assim, após 4 anos de um choque tecnológico (CRUZEX 2002) e a frustração de ver o Programa F-X cancelado a FAB mostrava músculos, estratégia, doutrina e domínio operacional de operações aéreas modernas. Os resultados da Operação CRUZEX 2006 valeram à FAB o convite da USAF, em 2007, para participar da Red Flag.

A participação da FAB no Red Flag 08-3 será analisada no segundo artigo desta série:EM Nellis - Voar, Sobreviver e Vencer.

DEFESA@NET

O F-5 M ( Modernizado ) - 21 Setembro 2005
http://www.defesanet.com.br/rv/f5m/baco.htm

Entrevista com Tenente-Brigadeiro-do-Ar José Carlos Pereira, Comandante do Comando-Geral de Operações Aéreas ( COMGAR), da Força Aérea Brasileira – Março 2005
http://www.defesanet.com.br/fx/jcarlos.htm

Inaugurado Simulador de Vôo do F-5M - Agosto 2006
http://www.defesanet.com.br/fab/f5m_baco_sim.htm

Nuevo avión de combate de la FACh: Cuatro segundos duró debut del F-16 en la Parada Militar - Setembro 2006
http://www.defesanet.com.br/notas/chile_19aet06.htm

   
   
 

 

 

 

 

   
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