| RED
FLAG
1
- FAB - O Caminho até Nellis
Nelson During
Editor-Chefe DEFESA@NET
A participação
da Força Aérea Brasileira (FAB) na
Red Flag 08-3 é um divisor de águas
em sua história recente. DEFESA@NET tratará
em três artigos o atual momento da aviação
de caça do Brasil, o caminho que a levou
até Nellis, a atuação na Red
Flag e o roteiro pós Nellis e as implicações
no Programa F-X2.
1 - O Caminho
até Nellis
As forças
aéreas ao redor do mundo caracterizam-se
por serem naturalmente a vitrine da tecnologia,
o estado da arte na engenharia, materiais, eletrônica
e nos mais diversos campos da tecnologia, e também
da estratégia e doutrinas operacionais.
Ao longo da sua
história a FAB alcançou seus avanços
por saltos. Na década de 70 a introdução
do caça francês Dassault Aviation Mirage
III, mais a criação do Sistema de
Controle de Defesa Aérea, com o Sistema DACTA.
Foi um enorme avanço pois o conceito de controle
unificado do tráfego aéreo militar
e civil mostrou sua validade em especial após
o evento de 11 de Setembro de 2001. Neste período
muito do pensamento, a defesa aérea brasileira
esteve centrada no que popularmente era chamado
de “Dijon Boys”; grupo de pilotos que
foram à França treinar e receber os
Mirage III.
A incorporação
dos Northrop F-5 E/F Tiger II, como caças
táticos, em dois lotes, anos 70 e 80, serviram
para complementar a estratégia básica,
porém não alterando o centro de gravidade
da defesa aérea brasileira focada no 1º
Grupo de Defesa Aérea (GDA), localizado na
Base Aérea de Anápolis. Este conceito
ruiu em maio de 2002, quando a FAB confrontou-se
com um conceito muito comentado mas desconhecido
na prática pela Força.
Na década
de 1990, a FAB realizou vários intercâmbios
com outras Forças Aéreas, como as
Operações Mistral (França)
e Tiger (USAF), e uma participação
com o A-1 (AMX) na Red Flag de 1998. Em cada exercício
lições foram aprendidas, porém
em alguns o foco era mais comercial na prospecção
de venda para o que veio a ser o Programa F-X.
O choque
A participação
da FAB com o A-1 na Red Flag de 1998 pavimentou
o convite do Armée de l´Air em montar
um exercício de operação aérea
muito similar na experiência da OTAN com Operation
Allied Force nos Bálcãs, em 1999.
Foi lançada a Operação CRUZEX
(Cruzeiro do Sul) cujo objetivo oficial era “Testar
a estrutura de Comando e Controle praticada pela
Força Aérea Francesa”.
Participaram equipes
das Forças Aéreas do: Brasil, França,
Argentina e Chile. Essa foi Primeira vez que a estrutura
do JFAC (Joint Forces Air Control) saiu da França.
A operação atendia ao interesse da
FAB que estava recebendo naquele ano os primeiros
aviões de alerta antecipado R-99A e também
os aviões de vigilância terrestre R-99B,
aviões que formariam o 2º/6º GAV
Esquadrão Guardião. Um salto notável
para a FAB em complexidade tanto na tecnologia embarcada
como nas possibilidades de emprego da força.
Assim pousaram na
Base Aérea de Canoas, em Maio de 2002, um
Avião AWACS E-3F e caças Mirage 2000-5
RDY equipados com míssil com capacidade “Além
do Alcance Visual” (Beyond Visual Range –
BVR) MICA. Ao fim do primeiro dia da CRUZEX 2002
o choque tecnológico – operacional
– doutrinário foi aplastante. TODOS
os aviões da Força Oponente, geralmente
caças F-5 da FAB, operando desde a Base Aérea
de Florianópolis tinham sido abatidos.
O trio francês
foi implacável: Alerta Antecipado com o AWACS,
o Mirage 2000-5 com o radar RDY e o emprego do míssil
BVR MBDA MICA foram mortíferos. Em especial
empregados dentro do conceito operacional de “controle
e comando” empregado pelos franceses reproduzindo
a experiência da OTAN. Resultado: o exercício
começou do zero na manhã seguinte.
O Diretor do Exercício
pelos franceses, o General-de-Brigada Aérea
Jean Bachelard, em entrevista ao editor
de DEFESA@NET elogiou a performance dos pilotos
brasileiros porém alertou que o gap tecnológico
e doutrinário iria aumentar. Quatro anos
depois o Armée de l´Air recebeu o Dassault
Rafale C, um avião mais avançado que
o Mirage 2000-5 RDY.
O Impacto
O choque que a FAB
sofreu foi devastador. O impacto pôde ser
medido nas palavras do então Comandante da
Aeronáutica, Brigadeiro Baptista,
durante a coletiva de imprensa: “os
franceses abateram meus aviões a uma distância
de mais de 50 milhas”.
|
Conferência
de imprensa ao fim da CRUZEX 2002 Na mesa
os comandantes das Forças Aéreas:
Brasil, França, Argentina e Chile e
o Comandante do COMGAR |
Eram novos conceitos
como ambiente operacional BVR, Operações
Centradas em Redes (Network Warfare), Data links,
operações stealth, Comando e Controle
(C2), Operações em Pacotes, Forças
de Coalizão, etc...
Em meio ao Programa
F-X a FAB não conseguiu desatar o nó
político-industrial com implicações
geopolíticas que se tornou a competição.
O resultado foi seu fim em 2005, postergando sine
die a aquisição de um moderno caça
e sistemas de armas BVR.
Porém a FAB
estava determinada na busca do domínio da
arte de operar em ambiente BVR. O Programa F-5BR
propiciava a plataforma para a FAB desenvolver a
sua doutrina operacional e táticas compatíveis.
Com uma avançada aviônica e a facilidade
de integrar armas modernas, porém programa
F-5BR avançava de forma claudicante. A modernização
do F-5 era um dos itens do Programa de Fortalecimento
do Controle do Espaço Aéreo Brasileiro
(PFCEAB), lançado em Julho de 2000. O programa
iniciou em Março de 2001.
Mesmo com o atraso
de vários meses, senão anos no programa,
foi entregue em setembro de 2005 o primeiro avião
F-5EM ao 1º/14° GAV, Esquadrão Pampa.
EmAgosto de 2006 foi inaugurado o centro de simuladores.
Intenso treinamento em simuladores, planejamentos
de missões e as análises das mesmas
(debriefing) dariam resultados naquele mesmo ano.
Mas faltava o míssil.
Em 2006, após negociações secretas,
foi adquirido o míssil BVR Derby fabricado
pela israelense Rafael. Em tempo recorde o míssil
foi integrado aos aviões (neste momento só
as cabeças de combate) a tempo de participarem
da CRUZEX 2006. Os programas tanto do avião
como dos simuladores foram atualizados para integrar
a nova arma. Posteriormente o comandante da FAB,
Brigadeiro Bueno, anunciava publicamente a aquisição.
|
|
F-5EM
em patrulha durante a CRUZEX 2006 com míssil
Derby e Python 3
(Foto cortesia Spotter.com.br) |
Simulador
do F-5EM Na foto o então comandante
do Esquadrão Pampa TC Bianchi |
Durante a operação
o 1º/14º GAV atuando como OPFOR, baseado
em Campo Grande (MS), enfrentou a Força Azul
equipada com caças franceses Mirage 2000C
e D, entre outros. O resultado foi que o jogo endureceu
e o Esquadrão conseguiu “abater”
caças franceses em ambiente BVR. Não
só isso, mas também propor diferentes
táticas que desconcertaram em muitos momentos
os seus oponentes. Ao operar em conjunto com os
R-99A os F-5EM, a FAB conseguiu negar o domínio
do espaço aéreo à Força
Azul.
Após a CRUZEX a FAB e o Armée de l´Air
realizaram combates simulados onde novamente foram
testados os conceitos e doutrina operacional de
combate BVR.
O retorno
A urgência
e determinação com que a FAB procurou
alcançar um novo estágio é
exposto nas palavras do então Comandante
do COMGAR, Brigadeiro José Carlos Pereira,
quando foi categórico ao afirmar: “Temos
de sair dessa fossa e alcançar um novo patamar
tecnológico”, ao falar sobre o impacto
que a CRUZEX 2002 teve na FAB. (Entrevista concedida
em Março de 2005) O Brigadeiro J. Carlos
foi o Diretor Geral da CRUZEX.
Operar em ambiente
BVR não significa abater os aviões
inimigos somente. Nas palavras de um experiente
comandante de Esquadrão da FAB: “é
importante que crie-se oportunidades e armadilhas
que o inimigo dispare seus mísseis a uma
distância que possamos ter manobras evasivas
enquanto conservamos os nossos.”
O desempenho da FAB na CRUZEX, e a
confirmação que a FAB
possuia míssil BVR teve repercussão
no continente com a Fuerza Aérea de Chile
(FACh) realizando um insólito sobrevôo
com todos os seus caças F-16 disponíveis,
novos e modernizados sobre a capital Santiago do
Chile. E o presidente venezuelano propôs uma
CRUZEX no Caribe.
Assim, após 4 anos de um choque tecnológico
(CRUZEX 2002) e a frustração de ver
o Programa F-X cancelado a FAB mostrava músculos,
estratégia, doutrina e domínio operacional
de operações aéreas modernas.
Os resultados da Operação CRUZEX 2006
valeram à FAB o convite da USAF, em 2007,
para participar da Red Flag.
A participação
da FAB no Red Flag 08-3 será analisada no
segundo artigo desta série:EM Nellis
- Voar, Sobreviver e Vencer.
|