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Esquadrão
Corsário
Transportando na paz e reabastecendo
na guerra
Operação Red Flag
Kaiser
Konrad
Enviado especial ao Rio de Janeiro
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Há
exatamente um ano a Força Aérea
Brasileira retornava da sua mais exitosa
participação em exercícios
aéreos internacionais. Em 2008,
durante a edição 08.3 do
Red Flag, realizada na Base Aérea
de Nellis, nos Estados Unidos, os esquadrões
Pampa (1º/14º GAv) e Corsário
(2º/2º GT) elevaram o nome da
FAB ao nível das mais treinadas
e poderosas forças aéreas
do continente americano.
Os feitos do Esquadrão Pampa já
foram revelados numa exclusiva série
de reportagens publicadas no ano passado.
Seus pilotos atingiram com o F-5M o mesmo
índice de vitórias em combate
aéreo alcançado pelos pilotos
da USAF no mesmo exercício e utilizando
caças F-15 e F-16, muito superiores
tecnologicamente. Esse fato deixou os
americanos de “cabelo em pé”
e surpreendeu, inclusive, membros do alto-comando
da FAB que, receosos, não permitiram
a presença da imprensa brasileira
por acreditarem que todos os seus pilotos
seriam facilmente abatidos já na
primeira fase do exercício.
Ainda pouco conhecida é a participação
do 2º Esquadrão do 2º
Grupo de Transporte, o Corsário.
A unidade sediada na Base Aérea
do Galeão está equipada
com o KC-137, a versão militar
do Boeing 707, e teve importância
fundamental no deslocamento de Canoas
até Nellis, transportando pilotos,
mecânicos e fazendo o reabastecimento
em voo. No contexto tático, a presença
do Corsário foi essencial ao sucesso
dos “ases brasileiros”, ao
cumprir a função tanker
e realizar os REVOs(reabastecimento em
voo) aumentando o tempo de permanência
em zona de combate das aeronaves de caça
brasileiras.
Deslocamento
O
planejamento da missão começou
vários meses antes. Os pontos de
REVO, quantidade de combustível
a ser transferido; procedimentos de emergência
em caso de mau tempo, afastamento ou perda
de contato visual entre as aeronaves,
pistas de pouso auxiliares, tudo isso
foi previsto nessa fase. A primeira etapa
do deslocamento aéreo foi de Canoas
a Anápolis. Embarcados no KC-137
estavam todos militares da FAB envolvidos
na manobra. No outro dia seguiram para
Boa Vista, onde houve um briefing geral.
Posteriormente seguiram para Barranquilla,
na Colômbia. Nessa etapa tiveram
de enfrentar o mau tempo.
O Corsário decolou primeiro seguido
pelos caças com separação
radar, reunindo visual após passarem
a camada de nuvens. Durante a decolagem
um dos F-5M sofreu uma pane no motor e
pela doutrina da caça quando um
retorna outro o acompanha. Neste caso,
devido às condições
atmosféricas um pousou em Boa Vista
e outro em Manaus, enquanto as demais
aeronaves seguiam para a Colômbia.
A próxima etapa seria até
Mérida, no México. A última
e mais longa foi até os Estados
Unidos. Em cada uma delas eram realizados
dois REVOs. Em Nellis, os caças
pousaram primeiro. No outro dia, mesmo
com o cansaço da tripulação,
o Corsário retornou mais uma etapa
para se reunir com os dois F-5M retardatários,
pois eles não poderiam fazer a
travessia sem REVO.
Operação
Red Flag
As
aeronaves Tanker da operação
eram formadas por dois KC-135 da Força
Aérea Americana, dois KC-135 da
Força Aérea da Turquia e
um KC-137 da Força Aérea
Brasileira. Os REVOs aconteciam numa área
imensa chamada Nellis Test Trainning Range.
Para cumprir a missão, primeiro
decolavam as aeronaves consideradas de
alto valor (HVAA), que são o E-3
AWACS, que ficava fazendo a cobertura
radar dos aviões amigos e inimigos
numa área próxima a dos
REVOs, e os Tankers, as aeronaves reabastecedoras.
Nesse pacote a única força
aérea que não tinha dois
aviões-tanque em operação
era a brasileira, embora só se
pudesse utilizar um deles durante cada
surtida. Entre os caças, os F-5M
eram as primeiras aeronaves a decolar,
seguindo direto para a reunião
com o Corsário e o reabastecimento
de quatro aeronaves. Enquanto eram abastecidos,
os demais caças decolavam e prosseguiam
para um ponto chamado Hold Point, onde
ficavam em órbita aguardando o
posicionamento de todas as esquadrilhas
e o horário planejado para iniciar
a ação. Este horário
é chamado de Push Time, e cada
esquadrilha possui um Push Point e um
Push Time diferente. Os F-5M, nas missões
ofensivas, realizavam o Push Time junto
com os F-15, a fim de seguir a frente
dos Strikers e tentar eliminar o máximo
de inimigos possíveis ou tirá-los
do caminho dos Strikers, garantindo seu
ingresso e regresso em segurança.
Se o Corsário não pudesse
efetuar o reabastecimento pré-combate,
o tempo de engajamento dos F-5M do Pampa
não seria suficiente para cobrir
toda a janela de ação do
pacote, e os Strikers poderiam ter ficado
vulneráveis na evasão do
território inimigo. O planejamento
inicial era sempre para apenas um REVO
pré-combate, mesmo assim o Corsário
permanecia em órbita até
o pouso do último caça brasileiro,
para o caso de algum necessitar de reabastecimento
extra, o que poderia acontecer se houvesse
um excesso de consumo de combustível
devido ao combate aéreo.
Num voo em que são mantidos os
mesmos parâmetros de velocidade
e altitude que foram planejados no chão,
dificilmente se necessita de um REVO extra.
Mas numa missão que envolve combate
contra outras aeronaves, pode ocorrer
de se utilizar mais pós-combustão
do que o planejado para permitir realizar
mais manobras defensivas e ofensivas.
Nesses casos pode surgir a necessidade
de um REVO fora do planejamento inicial.
Estas modificações de planejamento
ocorriam com mais frequência nas
missões defensivas, onde, após
realizar o REVO pré-combate, os
F-5M permaneciam numa Patrulha Aérea
de Combate, e os engajamentos eram intensos.
Durante a ação o E-3 AWACS
informava permanentemente os Tankers sobre
a ameaça e a posição
dos Agressores, o que os obrigava a efetuar
um circuito enquanto os caças efetuavam
a defesa da área, se engajando
no combate ou dissuadindo a aproximação
inimiga. Nesta edição do
Red Flag nenhum dos aviões-tanque
foi perdido mas o B-52 foi derrubado.
No Red Flag, cada país é
responsável por reabastecer em
voo suas aeronaves. Num determinado momento
os americanos tiveram uma pane em seu
avião-tanque e solicitaram que
a FAB fizesse o REVO no EA-6B Prowler,
de guerra eletrônica, mas como isso
não estava no contrato o reabastecimento
não pôde ser efetuado. Um
dos Tankers turco e outro americano chegaram
a ficar dois dias parados devido a panes.
Mesmo assim, essa edição
do Red Flag ficou marcada como a que teve
melhor participação das
aeronaves reabastecedoras, que conseguiram
cumprir 90% de suas missões.
Enfrentando duas missões diárias
e com número insuficiente de pilotos,
que tinham que se revezar entre briefings
e voos, o Corsário perdeu uma única
surtida em toda a operação.
Apelidado de “sucatão”,
defasado tecnológicamente e próximo
do final de sua vida útil, o KC-137
do Esquadrão Corsário alcançou
95% de sucesso em suas missões,
superando a marca de todos os aviões-tanque
participantes do exercício, fato
que foi reconhecido pela Força
Aérea Americana na reunião
de fechamento.
No Red Flag 08.3, Corsário e Pampa
mostraram a qualidade e o profissionalismo
do piloto de combate brasileiro e, principalmente,
sua capacidade de fazer o melhor com o
equipamento que tem disponível.