COBERTURA ESPECIAL - ESGE

20 de Abril, 2003 - 12:00 ( Brasília )

Guerra, Poder e Petróleo



Guerra, Poder e Petróleo


Prof . Fernando G. Sampaio(*)
Escola Superior de Geopolítica e Estartégia


A atual Guerra no Golfo Pérsico (2003) configura o início de um dos pesadelos do final do século e do que virá: as chamadas guerras de redistribuição, em que as países subdesenvolvidos atacariam os países ricos para apropriação de suas riquezas. Já tive a oportunidade de desenvolver este tema, teoricamente, em artigos para o antigo jornal Correio do Povo e Rádio Guaíba, em 1983. Agora vemos esta previsão dos analistas se tornar realidade; com ataque do Iraque ao Kuwait.

Toda a motivação desta guerra é econômica. Trata-se de obter pela via mais fácil e rápida, as riquezas que o Iraque falido com sua guerra anterior com o Irã necessita desesperadamente, até para sua estabilidade interna. Como o vizinho Kwait é rico e fraquíssimo, militarmente, a solução pareceu óbvia aos iraquianos, ainda mais que existe, há longo tempo, uma divergência no tratamento da questão do petróleo dentro do mundo árabe.

Os que possuem mais petróleo são os menos povoados e os que possuem menores problemas populacionais. Assim o petróleo trouxe uma diferenciação criando os produtores ricos e os pobres. Cada um tem naturalmente, a sua maneira de encarar a administração destas riquezas. O Kuwait e a Arábia Saudita, junto com os Emirados, são adeptos da política de grande produção de óleo a um preço relativamente baixo e estável e aplicam seus lucros em grande fundos de desenvolvimento principalmente externos. Sua visão é, aí, muito a longo prazo. Como é muito difícil criar estados industriais modernizados no mundo muçulmano, pelo atraso cultural, crescimento demográfico, etc. uma grande parte dos lucros é aplicada ao desenvolvimento do mundo ocidental. O Kuwait, com esta política já estava conseguindo obter lucros destes investimentos que se aproximavam, dos rendimentos com a venda do petróleo. Cria-se, assim, uma nova fonte de rendas, que resistirá ao declínio do petróleo.

Já os países mais densamente povoados, como o Iraque, optaram, neste momento, por outra linha, racionar a produção para aumentar o preço internacional e obter, imediatamente, maiores receitas.

Aqui instalou-se um choque de filosofias políticas, que o Iraque tratou de resolver a seu favor, pela ameaça que, não resultando, levou a ação direta, com o fim de ditar, pelo medo, uma política sobre 40% da produção mundial do petróleo, que fica na região afetada pela guerra.

A necessidade de receitas maiores, para consumo imediato pelo Iraque é uma necessidade premente: comuns 18 milhões , 72 dos quais vivendo em cidades, os iraquianos dependem em 75% da importação de alimentos e sua pauta exportadora, fora o petróleo é ridícula ( tãmaras, algodão lã ) e bem expressa o grau primário de sua economia, quase todo estatizada e que investe ao longo da década, de 50 % a 25% ( atual) do PNB em armamentos.

O Iraque necessita de divisas para alimentar a população e importar todos os bens de consumo que não produz ( rádios, automóveis, máquinas de uso doméstico, peças de reposição, etc, etc.) e necessita, para dar ao povo, pelo menos, um certo padrão de vida e satisfação, para compensar a ditadura muito violenta e muito corrupta, em que a família dos governantes controla a maioria dos negócios mais lucrativos e exerce feroz tráfico de influências.

Mas, aqui chegamos a um ponto misterioso. Por que o Iraque atacou, tendo em vista a violenta reação americana? Ela não teria sido prevista ou foi ignorada?

É muito possível que a estratégia do Iraque para solucionar a curto prazo seus problemas e, a médio e longo prazo, dominar o Golfo, tenha se tornado realidade, por um jogo de falsa indução, que os americanos teriam, aplicado, levando a liderança iraquiana a dar io passo em falso, que o Iraque desejava e os EUA também, só que ambos por razões muito diferentes...

Os EUA deram a entender que não se oporiam e não interviriam, por não possuirem bases nem acordos militares de proteção, para o desembarque de tropas na região, o que tranquilizou o Iraque, ainda mais que , no passado, gozaram de todo o apoio, em seu ataque contra o Irã dos aiatolás.

Mas, aí - justamente - estaria a manobra maquiavélica dos americanos, para forçar os sauditas e kuwaitianos a cederem bases e uma posição forte aos americanos na região, o que eles sempre negaram, por razões ideológicas-religiosas e de auto-preservação, diante do gigante capitalista.

A estratégia de redistribuição de riquezas e poder regional do Iraque, que poderia se desdobrar, a longo prazo, numa frente do islã de caráter ideológico contra o Ocidente materialista e a URSS ( minorias islâmicas, disputas territoriais, choques ideológicos, etc.), teria se casado com a estratégia americana de domínio do Golfo Pérsico e suas riquezas, o que só poderia se tornar realidade diante de um ataque real, que obrigase os conservadores árabes sunitas dominantes em Riad e nos Emirados Árabes a admitir, no "solo sagrado" e a pouco passos de Meca e Medina, os exércitos de "infiéis", lutando contra os perigosos e enlouquecidos iraquianos ( cuja maioria é de xiitas, como no Irã) que estariam tentando no fundo, apossar-se de sua herança perdida pelo califado, desde a morte do Profeta.

O istã, como se sabe, dividiu-se entre os xiitas ( a seita ) e os sunitas ( seguidores de suna, isto é da tradição, logo depois da morte de Maomé, por divergências na sucessão que os xiitas queriam que fosse por eleição ( República Islâmica) e os sunitas pela descendência do profeta( Monarquias chamadas califados, palavra árabe que significa sucessor, mais precisamente " khalifa rasul Alleh", isto é sucessor do enviado de Alá). Os xiitas perderam esta disputa ao longo do tempo, só tendo criada a república sonhada com a queda do Xá e a ascenção dos aiatolás, não se levando em conta as ditaduras militaristas, leigas.

Em toda esta confusão é bom não esquecer que os países subdesenvolvidos, como o Brasil vão acabar pagando a conta, pois os ricos manipularão os preços das exportações para mais e baixarão o preço das importações, além de manipularem as taxas d juros, para se cobrirem dos prejuízos da guerra, que dará aos EUA ao que parece o domínio quase absoluto sobre as reservas mundiais de petróleo, um jogo complexo de domínio mundial para o século XXI e a transição do óleo para outras fontes de energia, o que joga o Brasil e os demais subdesenvolvidos mais ainda para a periferia.

(*) Prof. Ferando G. Sampaio, Reitor da Escola Superior de Geoplítica e Estratégia - ESGE



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