COBERTURA ESPECIAL - ESGE - Geopolítica

11 de Maio, 2004 - 12:00 ( Brasília )

Nota 2: O Cenário da Guerra


Terror Global . A 4ª Guerra Mundial - ( II )

Prof. Fernando G. Sampaio (x)
esge@defesanet.com.br

Nota 2: O Cenário da Guerra

Classificamos o que está começando como uma Quarta Guerra Mundial e enfatizamos, agora, que se trata de um novo tipo de guerra, o que é lógico, se considerarmos:

a) a 3ª Guerra Mundial (ou Guerra Fria) foi completamente diferente da 2ª Guerra Mundial.

O conflito entre potências, de forma direta, não ocorreu. Se deu por guerras periféricas ou de procuração (Coréia, Indochina-Vietnã) e nunca levou quer:

1) ao derrubar dos dominós;
2) a escalada (Herman Khan)

o que significa que o temido conflito nuclear, a chamada Guerra Atômica é um cenário que não aconteceu, simplesmente. A história seguiu um curso muito diferente daquele que se previa e, mesmo, nas agonias da dissolução, o Império Soviético não pensou em tal Barbarismo, já que a Rússia é, queiram ou não, uma Civilização e, no fundo, parte da Europa e, como eles dizem: "até onde estiver fincada a bandeira da Rússia, ali será a fronteira da Europa na ÁSIA...".

b) é muito natural que a 4ª Guerra Mundial seja totalmente diversa daquela que a precedeu. Em primeiro lugar, não existe mais o choque entre Impérios ou entre o Império e o Imperialismo (URSS contra EUA), para estabelecer que tipo de sistema político-ideológico vai reger os Estados Industriais, se o capitalismo ou o chamado comunismo. Este tipo de guerra ideológica está terminada. Mesmo se surgem, como no Brasil, pseudo-marxistas muito tardios, o simples fato de terem como braço armado milícias camponesas, já nos mostra o retardamento histórico e a ausência total de verdadeiros princípios marxistas (observem a ausência de apelo a um proletariado industrial e o ressurgimento da mentalidade do campo invadindo as cidades; típico de uma econômica pré-industrial, quando o mundo já marcha para o pós-industrial... assim. O que vemos é um movimento regressista, primitivo e, no fundo bárbaro, pois os bárbaros são aqueles que não apreendem as lições da História e estão fadados a repetir seus erros, talvez em escala muito pior, como o provou, p. ex.,Pol Pot no Camboja).

E repito, é muito natural, portanto, que a Quarta Guerra Mundial seja completamente diferente das anteriores experiências bélicas, pois a História desenhou, para o nosso tempo, um Quadro Estratégico profundamente diverso de tudo aquilo que vimos antes.

Com efeito, eis como se apresenta, agora, o mundo, em suas grandes divisões políticas e econômicas:
a) existem Quatro Economias em funcionamento no mundo, sendo todas elas interdependentes;
b) são elas, a saber:

1. Estados - Nações (economias nacionais)
2. Regiões (Regiões ou Blocos Econômicos)
3. Empresas Transnacionais (que comerciam entre si, também)
4. Economia Financeira Internacional (autônoma, com seus Eurodólares e outros Paraísos Fiscais, Bolsas, etc.)

O quadro é completamente diferente quer da 2ª Guerra quer da 3ª Guerra. E, muito provavelmente, reflete um mudo do tipo multipolar, como ocorria nos tempos da Idade Média ou do século XVIII. Isto é, os atores são muitos, inter-laçados, uns dependendo do movimento dos outros e todos sendo afetados pelos erros do sistema, pela especulação, pelo conflito permanente entre múltiplos interesses/objetivos sendo perseguidos ao mesmo tempo, em direções contrárias.

E, como se isto não bastasse, existem, ainda, os seguintes fatores, também econômicos, também estratégicos, que completam e complicam o Quadro Estratégico: estão funcionando, hoje, redes clandestinas mundiais, amparadas na alta tecnologia de transportes e comunicações, mas também ancorados na autonomia do sistema financeiro internacional, que fogem completamente ao controle dos Quatro Principais Atores antes elencados, falamos de:

1. Tráfico de Drogas
2. Tráfico de Armas
3. Lavagem de Dinheiro
4. Crime Organizado Transnacional
5. Tráfico de Imigrantes Clandestinos

E, finalmente, numa categoria que une todos os sistemas, sejam os Legítimos sejam os Ilegítimos: o descontrole, gigantismo, complexidade e, talvez - em certos casos - uma vasta autonomia sombria dos Serviços Secretos, que podemos dividir em dois grandes tipos:

1. Serviços Secretos Oficiais
2. Serviços Secretos Particulares (ou totalmente ilegítimos).

Tais serviços secretos operam pequenos exércitos, estão vinculados a um sistema internacional de recrutamento de Mercenários e trabalham para os governos na chamada Guerra Clandestina, onde interagem com o tráfico de drogas, rotas de drogas, transferências clandestina de armas e dinheiro e, mesmo, com a imigração clandestina, a começar pelas redes internacionais de prostituição, sabidamente um dos elementos mais antigos, na história humana, para corromper e comprometer pessoas, governos e entidades, para forçar ações, por mecanismos de chantagem.

Dado tal quadro, complexíssimo, como esperar que as hostilidades resultantes do Ato de Guerra contra os Estados Unidos, por um complicador todo especial (o fundamentalismo islâmico e quem mais?), nos conduza a uma guerra igual às do passado?

Portanto, estamos em Guerra, em plena 4º Guerra Mundial. Ela já se organizou de um lado (o agressor, que não se identifica claramente) e está se organizando do outro lado (a colisão mundial contra o Terror Global).

Esta organização vai levar anos até estar totalmente operantes, de ambos os lados, e vai levar a enfrentamentos principalmente nas grandes cidades, onde o terror urbano se instalará para minar o parque industrial-financeiro por toda parte, já que o Choque das Civilizações é, na verdade, uma recusa ao Mundo Ocidental e o mundo recusado é o mundo industrial e pós-industrial, com suas mazelas, é certo, seu materialismo, é certo, mas também com suas liberdades fundamentais.

É em torno dos ideais do Humanismo e do Iluminismo que se lutará, contra as Trevas de um Obscurantismo Fundamentalista.

(X)Conferencista e Professor de Pensamento Geopolítico e Estratégico, Escola Superior de Geopolítica e Estratégia, Porto Alegre, RS, Brasil.



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