| Asfixia
Energética
|
O
encrenqueiro mora
ao lado
O candidato favorito
nas eleições paraguaias quer
forçar o Brasil a pagar mais por Itaipu
Duda Teixeira,
de Assunção
|
O barão do
Rio Branco, criador da moderna diplomacia brasileira,
enviou em 1905 uma carta ao seu representante no
Paraguai com a seguinte mensagem: "Um vizinho
turbulento é sempre um vizinho incômodo
e perigoso". Nas próximas eleições
presidenciais paraguaias, em 20 de abril, um recado
similar poderia partir de Brasília. O "vizinho
turbulento", no caso, é Fernando Lugo,
candidato que lidera as pesquisas de intenção
de voto. Ele adotou como bandeira uma curiosa e
paroquial versão da desacreditada teo-ria
da dependência. A originalidade dessa reformulação
reside na substituição dos Estados
Unidos pelo Brasil no papel de inimigo externo,
com ambições imperialistas. Há
duas providências que Lugo promete tomar,
caso venha a se sentar na cadeira de presidente.
A primeira é multiplicar por sete o valor
que o Brasil paga atualmente pela energia fornecida
pela usina de Itaipu, passando de 250 milhões
para 1,8 bilhão de dólares por ano.
A segunda é uma "reforma agrária
integral". Para os fazendeiros brasileiros
com terras no país vizinho, o adjetivo significa
que suas propriedades estão em risco.
Ele pretende realmente
declarar guerra aos brasiguaios? Em muitos aspectos
práticos, os planos de Lugo são um
enigma. Pode-se, por analogia, dimensionar seu potencial
de vizinho encrenqueiro. A versão paraguaia
do MST, da qual o candidato é um dos patronos,
invade de preferência a propriedade de brasileiros.
Há também o Movimento Tekojoja, que
faz parte da coalizão por trás da
candidatura e só tem como razão de
existência a luta contra "o imperialismo
brasileiro". A defesa que Lugo faz de uma "soberania
energética" lembra a retórica
do boliviano Evo Morales. Este pegou o Brasil desprevenido
e expropriou duas refinarias da Petrobras, em 2006.
"Como disse Evo a Lula, não queremos
um preço solidário, queremos um preço
justo", afirma Lugo. Um avanço paraguaio
sobre a usina binacional da forma feita por Morales,
com uma truculenta ocupação militar,
não apenas é improvável, mas
totalmente inviável. A relação
de forças entre os dois países e os
interesses envolvidos são totalmente diferentes.
"Como a energia de Itaipu é muito mais
importante que o gás natural da Bolívia,
Lugo tem tudo para dar mais dores de cabeça
ao Brasil do que Morales", diz o historiador
Francisco Doratioto, autor de Maldita Guerra, o
mais abrangente livro sobre a Guerra do Paraguai.
Itaipu, que pertence
em partes iguais aos dois países, é
responsável por 20% da energia elétrica
consumida no Brasil. Ela é a grande geradora
de eletricidade para a indústria das regiões
Sudeste e Sul. Pelo acordo entre Paraguai e Brasil
que permitiu a construção da hidrelétrica,
cada um tem o direito de usar metade da energia
produzida. Caso não a utilize, sua obrigação
é vendê-la ao parceiro. O Paraguai
vende ao Brasil 87% da energia a que tem direito.
Para um país que não desembolsou nem
1 centavo pela obra (totalmente paga pelo Brasil),
trata-se de um excelente negócio. O cálculo
do preço da energia de Itaipu é feito
com base nas regras definidas pelo tratado bilateral
de 1973. O Brasil paga 74 reais pelo megawatt/hora
de Itaipu, o que está longe de ser uma pechincha.
O valor pago a outras usinas varia de 50 a 95 reais
por megawatt/hora.
Lugo, de 56 anos,
tornou-se conhecido como bispo da Província
de San Pedro, onde se concentram os maiores conflitos
por terra no Paraguai. Partidário da Teologia
da Libertação, ele aderiu ao MST e
passou a ser chamado de "bispo dos pobres".
Em dezembro de 2006, pendurou a batina para concorrer
à Presidência. A Constituição
paraguaia proíbe religiosos de se candidatar
a cargos políticos, mas seus adversários
perderam o prazo para pedir sua impugnação.
Em entrevistas a jornais paraguaios, ele diz que
o "socialismo do século XXI" do
venezuelano Hugo Chávez é "muito
estimulante". Quando fala à imprensa
brasileira, cuida das palavras. Em entrevista a
VEJA, na sala de sua casa em Assunção
(onde vive em companhia de uma freira e dois sobrinhos),
Lugo fez questão de demonstrar a distância
existente entre seu projeto político e o
de populistas no poder em outros países.
"Há muitas diferenças entre mim
e Chávez ou Morales. Não quero ficar
mais do que dois mandatos, não sou um militar
nem pretendo impor um partido único ao país",
disse.
O Paraguai é
um país pequeno, de economia diminuta. Seu
produto interno bruto (PIB) é de 11 bilhões
de dólares, menos do que o orçamento
municipal de São Paulo. A falta de relevância
do país torna as coisas piores: ninguém
está preocupado com as eleições
paraguaias – só o Brasil. O que vai
acontecer depende, evidentemente, das urnas. A diferença
entre Lugo e os outros dois concorrentes –
Lino Oviedo e Blanca Ovelar – está
em torno de 8%. Lino, o general que tentou um golpe
em 1996 e passou anos exilado no Brasil, e Blanca,
a candidata do governo, estão tecnicamente
empatados. Não será surpresa se ela
ganhar, visto o poder de mobilização
do Partido Colorado, que governa o país desde
os anos 40. Um em cada quatro paraguaios é
colorado de carteirinha. Há risco de ambos
os candidatos se deixarem contaminar pelo discurso
"Itaipu es nuestra". Blanca é a
mais vulnerável. Em entrevista a VEJA, ela
disse que pretende criar uma comissão para
estudar o tratado antes de pedir uma renegociação
com o Brasil.
Como sempre, quem
mais tem a temer de um presidente populista são
os próprios paraguaios. Os populistas acreditam
que a riqueza de um país está em seus
recursos naturais e no nacionalismo econômico.
Os exemplos da China e da Coréia do Sul mostram
que a educação universal, o investimento
em tecnologia e a abertura econômica são
o único caminho de eficiência comprovado.
Meio milhão de brasileiros e seus descendentes
vivem no Paraguai (8% da população).
Eles são responsáveis por 98% da produção
de soja, o principal produto de exportação
do país (54% do total). Muitos paraguaios
se ressentem de ser vistos no Brasil como falsificadores
– uma fama decorrente do contrabando que vem
de Ciudad del Este. O fato real é que, mesmo
sem incluir a muamba, o Brasil é o maior
parceiro comercial do Paraguai. Lugo quer esfriar
essa amizade.
|