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Pressão sobre o preço do gás
Entrevista: José Sergio
Gabrielli
Presidente da Petrobras
Ver Também : Plataforma
Deconhecida
Auto-suficiência "ouro de tolos"
Ricardo Rego Monteiro e
Sabrina Lorenzi
J
Se
do outro lado da fronteira com a Bolívia a Petrobras
encontra dificuldades para manter barato o preço
do gás natural que importa daquele país, do
lado de cá a realidade não é muito
diferente. Pelo menos é o que se conclui da entrevista
concedida ao JB pelo presidente da companhia petrolífera,
José Sérgio Gabrielli. O executivo admite
que, se depender do projeto de livre acesso aos gasodutos,
idealizado pela Agência Nacional do Petróleo
(ANP), o período para amortização dos
investimentos será muito curto. Isso, segundo ele,
encarecerá não só o transporte do gás,
mas, no fim das contas, o preço do produto para o
consumidor.
Peça-chave da campanha do PT este ano e membro do
comitê que recepcionará o presidente eleito
da Bolívia, Evo Morales, em sua visita ao Brasil
no próximo dia 13 , Gabrielli apresentará
um pacote de propostas para expandir o gasoduto Bolívia-Brasil
e solucionar de vez o impasse envolvendo as duas refinarias
da Petrobras em território boliviano. O rol de possíveis
soluções inclui não só a entrada
do governo daquele país no capital das duas refinarias,
como admitiu Gabrielli, mas também outras possibilidades.
Às
vésperas de se tornar o presidente que levará
a Petrobras a alcançar a tão sonhada auto-suficiência
na produção de petróleo, Gabrielli
nega que a empresa congelará os reajustes da gasolina
em 2006, embora deixe a possibilidade em aberto.
Se forem mantidas as atuais condições do mercado,
não há porque reajustar os preços dos
derivados de petróleo afirma.
Na
entrevista, o executivo também admite que o programa
exploratório da Petrobras, de US$ 34,1 bilhões
até 2010, corre riscos de sofrer alterações
em função da escassez no mercado internacional
de equipamentos, como sondas de perfuração.
Com isso, as descobertas de novas reservas nas chamadas
áreas de fronteira tecnológica deverão
ficar para depois, em favor de uma política que privilegie
campos com viabilidade comprovada, como os das Bacias de
Santos, Espírito Santo e Campos.
Dessa
forma, diz Gabrielli, a empresa terá que definir
prioridades no portfólio exploratório para
alocar os investimentos nos próximos cinco anos.
Campos gigantes como o Papa-Terra, descoberto recentemente
na Bacia de Campos, também ficarão para depois
de 2011.
Temos hoje uma limitação no mundo que é
a escassez de sondas de perfuração e exploração.
Evidentemente que esse contexto mundial cria algumas limitações
para o nosso programa exploratório afirma
o executivo, ao admitir que a receita para contornar tais
limitações inclui eficiência:
Vamos ser mais seletivos e eficientes.
A
seguir os principais trechos da entrevista.
JB
Não é muito perigoso para uma petroleira
concentrar investimentos tão altos em um produto
como o gás, que dá menos rentabilidade que
derivados de petróleo?
Gabrielli
O gás realmente desloca a gasolina e o diesel
de mercados, mas estes derivados têm outros nichos.
Então, isso não implica necessariamente perda
de mercado para a empresa. Evidentemente, há problemas
de retorno no curto prazo, porque o gás demanda investimentos
em infra-estrutura, que dão baixo retorno em um prazo
muito longo. Daí nossa crítica aos projetos
de lei existentes e à posição da ANP
(Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural
e Biocombustíveis) em relação a prazos
de concessão para utilização de gasodutos.
JB
O prazo para exclusividade da infra-estrutura de
gás deveria ser maior?
Gabrielli
Sim, para viabilizar investimentos. Ninguém
vai investir se não há capacidade de retorno,
porque, do contrário, a tarifa terá que ser
tão alta que torna o negócio inviável.
Teremos de fazer esses investimentos para viabilizar mercado,
não só porque a legislação brasileira
hoje restringe a queima de gás nos campos, como também
haverá aumento da produção de gás
associado com a descoberta de reservas de petróleo
leve, que têm maior proporção de gás
associado.
JB
Qual a quantidade necessária de gás
para o país, no futuro?
Gabrielli
A capacidade de expansão da produção
de gás na Bolívia será determinante.
Sem investimentos, há uma capacidade limitada. Na
nossa visão, o gasoduto pode alcançar 34 milhões
de metros cúbicos/dia sem grandes investimentos.
JB
O governo boliviano se tornará sócio
da Petrobras nas refinarias de Cochabamba e Santa Cruz de
La Sierra?
Gabrielli
Evidente que estamos dispostos a conversar. Mantemos
boas relações com a Bolívia, mas não
existem definições precisas sobre como será
essa negociação, porque ainda não sentamos
para conversar. Há outras possibilidades também
em vista.
JB
Quais?
Gabrielli
Tudo é possível quando duas pessoas
se aproximam. Temos que sentar para conversar primeiro.
Temos investimentos na Bolívia, e gostaríamos
de aumentá-los. Respeitamos o processo democrático
e saudamos o resultado das eleições.
JB
Qual o benefício da auto-suficiência
em petróleo para os consumidores?
Gabrielli
Considerando-se os tamanhos da Petrobras, do mercado
nacional e a posição estratégica e
as condições institucionais do mercado brasileiro,
significa que as flutuações do mercado internacional
serão administradas de forma mais tranqüila.
Na medida em que você tem uma produção
maior, tem condições de proteger esse mercado
e viabilizar uma situação em que os impactos
das decisões vão ser mais amortecidas em relação
à sua demanda. Uma grande empresa que tenha um grande
market share, em qualquer setor, não pode desconsiderar
os impactos de suas decisões sobre sua demanda.
Se
ele aumenta preço, perde quantidade. Evidentemente
que isso vai depender do momento e de todo um conjunto de
questões a serem analisadas, mas, havendo produção
suficiente no país, fica mais fácil administrar
tudo isso. Isso não quer dizer que possamos descolar
o país do mundo, até porque os derivados vão
continuar a flutuar e afetar o mercado interno, mas o impacto
será menor.
JB
Mas não foi isso que disse o ministro Silas
Rondeau (Minas e Energia)...
Gabrielli
Na verdade, o que o ministro disse foi que, se as
condições dos preços internacionais
continuarem como estão hoje, é possível
que não haja necessidade de um reajuste no próximo
ano. O se, nesse caso, é absolutamente fundamental.
Com a auto-suficiência, você pode ter, ainda,
mais capacidade de administrar o amortecimento dos impactos
internacionais.
JB
Então, no caso de uma alta acentuada nos preços
internacionais, a Petrobras não precisará
reajustar imediatamente os preços internos?
Gabrielli
É isso.
JB
Sem prejuízo para o acionista?
Gabrielli
Sem prejuízo. Por que a Petrobras teve o quarto
maior lucro entre as petroleiras no terceiro trimestre de
2005? Porque tem uma relação entre o custo
e a venda. Se você tem uma empresa integrada, e não
exclusivamente refinadora, pode vender o petróleo
bruto para as suas refinarias a preços internacionais
e revender derivados com os devidos ajustes de custos. É
essa combinação de margens diferentes que
leva a Petrobras a surpreender os analistas de mercado.
JB
O senhor vê necessidade de refinarias privadas
no país?
Gabrielli
Necessidade? Eu vejo que o mercado é aberto
no país. Estamos expostos à concorrência
e queremos isso. Temos uma refinaria onde somos sócios
da Repsol (Alberto Pasqualini, RS), e vamos construir outra
com a PDVSA (estatal venezuelana) em Pernambuco. Só
não achamos que a Petrobras deva tornar viáveis
as refinarias privadas.
JB
A aquisição de refinarias pequenas
pode ser um caminho no Brasil?
Gabrielli
Você pergunta de Ipiranga e Manguinhos? Eu
não vou dizer o que eles vão fazer. Isso (fusões)
é um fenômeno internacional. No mundo inteiro
está acontecendo, principalmente nos Estados Unidos.
JB
A descoberta do novo campo gigante em Campos (Papa-Terra)
pode mudar a rota dos investimentos da empresa?
Gabrielli
Nosso plano de investimentos vai até 2010,
mas estamos prevendo que Papa-Terra comece a produzir só
em 2011.
JB
Há uma preocupação da gestão
petista da empresa em desconcentrar os investimentos em
exploração e produção para outras
regiões do país, que não só
Campos?
Gabrielli
Não há uma intenção política
nisso. Houve, sim, uma ampliação do portfólio,
com investimentos em novas áreas. E tivemos que dar
prioridade às áreas concedidas pela ANP na
Rodada Zero, em 1998, pois tínhamos até agosto
de 2003 para devolvê-las à agência.
JB
Qual é a taxa de declínio da produção
dos campos da empresa hoje?
Gabrielli
É de 10%, se nós fizermos investimentos.
Na produção predominantemente de campos maduros
mantivemos a produção estável em torno
de 250 mil barris por dia nos últimos cinco ou seis
anos, quando ela deveria declinar de 7% a 10% por ano. Tudo
foi alcançado com a recuperação de
campos maduros. Existe uma diferença entre campos
maduros e campos marginais. Grande parte da bacia de Campos
se tornará campos maduros.
JB
Os investimentos nas chamadas novas fronteiras exploratórias
podem ficar para depois, com as grandes reservas descobertas
em Papa-Terra?
Gabrielli
Temos hoje uma limitação no mundo que
é a escassez de sondas de perfuração
e exploração. Por sorte, contratamos 23 sondas
agora, por meio de contratos de longo prazo. Tivemos a sorte
de negociar quando os preços estavam bem menores.
No mundo, as sondas têm sido contratadas, na média,
por US$ 400 mil. A nossa mais cara ficou em US$ 250 mil.
Evidentemente que o atual contexto mundial cria algumas
limitações para o nosso programa exploratório.
Tentamos contratar uma sonda para o Golfo do México,
em setembro, mas não conseguimos.
JB
Então a Petrobras terá que ser mais
seletiva na escolha de projetos de exploração?
Gabrielli
Mais seletivos e eficientes. Vamos diminuir o tempo
de parada das sondas, administrando melhor o tempo e os
recursos.
JB
E os testes de comercialidade em águas ultraprofundas
(6 mil metros), podem ser afetados por causa desse problema?
Gabrielli
Já começaram. Não há
como interrompê-los.
JB -
Qual o balanço que o senhor faz depois de três
anos de Petrobras? Quais as principais diferenças
entre a gestão petista e a tucana?
Gabrielli
Um grande desafio foi superado: conquistar a confiança
externa e a interna. Quanto a isso, foi um sucesso. Também
tivemos algumas mudanças importantes: a primeira
foi a ampliação do portfólio exploratório;
a segunda foi a redefinição dos campos maduros.
Também tivemos uma mudança importante com
o retorno à petroquímica. Na área do
Gás e Energia a diferença é grande
(em relação à gestão anterior)
porque limitamos a expansão da geração
termelétrica. Focamos na infra-estrutura do gás
e viabilizamos a expansão das energias alternativas.
Também modificamos a postura nas negociações.
Posso dizer que fomos muito mais pró-ativos na hora
de resolver problemas e renegociar contratos, como os das
plataformas P-43 e da P-48. Também aumentamos a presença
do conteúdo nacional em grandes projetos de infra-estrutura,
o que teve impacto importante e positivo para os fornecedores
de peças e equipamentos do país e modificou
profundamente a relação da empresa com seus
fornecedores.
JB
Essa maior inserção do conteúdo nacional
também não contribuiu para atrasar e encarecer
projetos como de plataformas?
Gabrielli
Ao contrário. Diferentemente do que diziam, os projetos
estão mais baratos do que empreendimentos similares
do exterior. A P-51 e a P-52 são mais baratas do
que as semelhantes. Outro elemento importante foi o relacionamento
interno, com a política de abertura nas negociações.
O diálogo com a força de trabalho também
modificou o clima com os petroleiros. Por fim, o relacionamento
da Petrobras com a sociedade também melhorou, graças
a trabalhos culturais, ambientais e à maior presença
na imprensa.
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