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Irã quer ajuda do Brasil na crise nuclear
Para
o presidente do Parlamento iraniano, a agência tem
que responder por que o Brasil pode enriquecer urânio
e o Irã não
Leonardo
Valente
Enviado
especial BRASÍLIA
Em
visita ao Brasil, Gholam Ali Haddad Ade, o terceiro homem
na hierarquia do poder no Irã, disse ao GLOBO que
gostaria de ter a ajuda diplomática de Brasília
na Agência Internacional de Energia Atômica
(AIEA) para a resolução da crise nuclear.
Para o presidente do Parlamento iraniano, a agência
tem que responder por que o Brasil pode enriquecer urânio
e o Irã não. Ele disse ainda que não
há meios de reaproximação entre Teerã
e Washington e que o projeto dos EUA de levar a democracia
à região é inútil. Gholam Ali
não acredita que o mundo viva um choque de civilizações,
mas aconselha todos os que querem a paz, islâmicos
ou não, a pressionar a Dinamarca por causa das charges
de Maomé, para que agressões ao Islã
não se repitam.
O Brasil também foi alvo da desconfiança
internacional por causa de seu programa nuclear. No entanto,
conseguiu a aprovação da AIEA para o enriquecimento
de urânio. O Irã se ressente da posição
da comunidade internacional de que o Brasil pode e o Irã
não?
GHOLAM
ALI:
Não temos nada contra o programa nuclear brasileiro.
Acreditamos que todos os Estados têm o direito, como
estabelece a AIEA, de desenvolver programas nucleares para
fins pacíficos. Todos os países, na nossa
opinião, devem aproveitar as oportunidades que a
tecnologia nuclear oferece para a produção
de energia e outros fins pacíficos. Trata-se de um
desenvolvimento necessário. Agora, a agência
tem que responder porque aceita o programa do Brasil e não
o do Irã.
A experiência que o Brasil obteve no relacionamento
com a AIEA poderia ser útil ao Irã?
GHOLAM
ALI:
Gostaríamos de ter a ajuda diplomática do
Brasil para a resolução do impasse com a agência
internacional. Não temos interesse em intercâmbio
com os brasileiros na área nuclear, mas a ajuda nas
negociações é bem-vinda. Isso porque
hoje o problema é com o Irã, mas amanhã
pode ser com qualquer outro país, inclusive o Brasil.
Portanto, a ajuda de países que já têm
programas nucleares ativos seria muito útil. Juntos,
com os meios jurídicos internacionais disponíveis,
os Estados que já desenvolvem a energia nuclear podem
dar um fim positivo a esse impasse, contribuindo para a
paz mundial.
Os países que insistem que novos programas nucleares
sejam exclusivamente para fins pacíficos são
exatamente os que possuem quase a totalidade das bombas
atômicas hoje existentes. Na sua opinião, todos
os países têm direito de desenvolver armas
atômicas ou essa é uma prerrogativa exclusiva
das grandes potências?
GHOLAM
ALI:
Independentemente do que é de direito ou não
neste caso, o que temos a dizer é que o Irã
não tem e nunca teve o projeto de desenvolver armas
nucleares. Mesmo que esse seja um direito nosso, não
há vontade de se produzir esse tipo de armamento.
E isso já foi manifestado diversas vezes, em diferentes
ocasiões. Está claro.
A secretária de Estado americana, Condoleezza
Rice, declarou esta semana que pediu ao Congresso dos EUA
US$ 75 milhões para promover a democracia no Irã.
O que o senhor tem a dizer sobre isso?
GHOLAM
ALI:
Isto não é necessário, é inútil.
Vivemos neste momento numa democracia. O objetivo dos EUA
quando falam em democracia não é promover
valores democráticos e sim seus interesses e os de
seus aliados. Eles só aceitam democracias que estejam
de acordo com seus interesses. Se é esse o tipo de
democracia que os EUA querem para o Irã, não
vão conseguir. O povo iraniano já sofreu com
muitas opressões dos EUA.
O Irã reagiu com rigor às publicações
das charges do profeta Maomé. Esse incidente mostra
que o Ocidente e os países islâmicos estão
em colisão?
GHOLAM
ALI:
Não concordamos com as idéias de Samuel Huntington,
autor de O choque de civilizações.
Ao contrário do que ele prega, acreditamos num caminho
de diálogo entre as civilizações. Mas
todas as pessoas que querem paz no mundo, islâmicas
ou não, têm que pressionar o governo dinamarquês
e os de outros países que publicaram as charges.
Se queremos evitar que o contato entre as civilizações
seja um choque terrível, o mundo cristão deve
apresentar sua solidariedade ao mundo islâmico nesta
questão.
Depois de Israel informar que não vai transferir
o dinheiro de impostos para o Hamas, o Irã anunciou
que vai ajudar os palestinos. Essa parceria vai se estreitar
ainda mais?
GHOLAM
ALI:
O Irã vai ajudar o Hamas no que for preciso, o povo
muçulmano e as nações islâmicas
também vão ajudar.
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