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A
ameaça boliviana
Durante
a campanha eleitoral, o candidato Evo Morales prometeu implementar
a nova Lei de Hidrocarbonetos, nacionalizando os recursos
naturais da Bolívia. Mas fazia uma ressalva: nenhuma
medida seria adotada contra a Petrobrás e outras
companhias brasileiras sem que se esgotassem todas as possibilidades
de negociação. Essa concessão refletia
o respeito reverencial que o líder dos cocaleros
demonstrava pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
seu "irmão mais velho", de quem recebia
conselhos que dizia acatar.
Uma
vez no Palácio Quemado, Evo Morales mudou de idéia.
Seu governo tem pressionado de todas as formas a Petrobrás
- que investiu cerca de US$ 1,5 bilhão na Bolívia
e tinha planos imediatos para colocar pelo menos mais US$
300 milhões no país - e, nos últimos
dias, anunciou que expulsará a EBX, que está
construindo um pólo de ferro-gusa na fronteira com
o Brasil. E, para não deixar margem a dúvidas,
o presidente Lula foi rebaixado na galeria de ídolos
do estadista Evo Morales. À frente vem Fidel Castro,
seu principal conselheiro em questões ligadas ao
antiimperialismo e exemplo de democrata e administrador.
A admiração vai tão longe que Morales
afirmou, no programa Roda Viva, que Cuba - uma ditadura
há 47 anos - é "um exemplo de democracia
consensual" e se irritou com o jornalista que perguntou
o que isso significa. No mesmo programa, Morales revelou
ao mundo que a economia de Cuba cresceu mais que a da China
- só não explicou por que, com tanta riqueza,
os cubanos vivem com uma dieta de subsistência.
Depois
de Fidel vem o coronel Hugo Chávez, outro militante
do antiamericanismo, que, de quebra, tem fornecido à
Bolívia conselhos sobre a indústria do petróleo
e do gás - o que explicaria a hostilidade contra
a Petrobrás. A terceira preferência de Morales
é o populista Néstor Kirchner, da Argentina,
e só depois vem o "irmão mais velho"
Lula.
Não
é preciso dizer que Evo Morales acredita que a união
política da Bolívia, Cuba, Venezuela, Argentina
e Brasil mudará os destinos do mundo.
Como
se vê, não é verdade que cada país
tem o governante que merece. Os habitantes do Departamento
de Germán Busch estão descobrindo isso da
maneira mais dura. Se, efetivamente, a EBX for expulsa ou
decidir se retirar da Bolívia, aquela região,
carente de empregos e investimentos, ficará sem um
empreendimento que criaria 6 mil empregos, uma aciaria de
US$ 180 milhões e uma siderúrgica de US$ 148
milhões e de exportações que renderiam
US$ 400 milhões anuais em divisas.
Daí,
há dias, prefeitos e organizações comunitárias
terem feito um "paro cívico", fechando
estradas e as ligações com o Brasil e mantendo
em cárcere privado, por algumas horas, três
ministros que Evo Morales mandou à região,
na tentativa de desarmar a confusão. Dependendo das
decisões que forem tomadas entre hoje e amanhã,
em La Paz, não apenas as estradas serão novamente
fechadas, como haverá uma greve geral na região
mais desenvolvida do país, onde há décadas
viceja um movimento separatista.
No
caso da Petrobrás, o governo boliviano insiste em
transformar a estatal brasileira em mera prestadora de serviço,
passando a controlar as refinarias e as jazidas que a empresa
comprou ou recebeu por concessão. E isso a diretoria
da Petrobrás já anunciou que não aceita.
O
governo brasileiro enviou a La Paz, para tratar do contencioso,
o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. A escolha
não poderia ser mais imprópria. O secretário-geral
do Itamaraty foi o ideólogo da diplomacia terceiro-mundista
que levou o governo brasileiro a apoiar as aventuras, primeiro,
de Hugo Chávez e, depois, de Evo Morales.
Os
interesses do Brasil - principalmente a garantia de um suprimento
constante, e crescente, de gás - precisam ser defendidos
com doses de realismo, e não com declarações
de solidariedade que, dadas as condições internas
da Bolívia, não encontram reciprocidade.
O
presidente Evo Morales está desrespeitando contratos
que foram assinados com empresas brasileiras - e com isso
ameaça os interesses nacionais. Precisa saber que,
a continuar nesse curso, haverá um custo a pagar,
e este será o rompimento de toda e qualquer ajuda,
indo até o isolamento diplomático e comercial
da Bolívia.
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