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País opta por energia com mais CO2
e efeito estufa
Quase
70% dos MW leiloados no País serão gerados
por
termoelétricas, que queimam combustíveis fósseis
Cristina
Amorim
O leilão
de energia nova, realizado em 16 de dezembro, acabou por
privilegiar a geração de energia suja em detrimento
de uma mais limpa. Quase 70% dos 3.286 megawatts (MW) leiloados
serão gerados por termoelétricas, que queimam
combustíveis fósseis e lançam mais
carbono na atmosfera do que as hidrelétricas.
Se todas
funcionarem ao mesmo tempo, elas lançarão
mais 11,35 milhões de toneladas de gás carbônico
(CO2) na atmosfera. O valor representa um aumento de 2,8%
de toda a emissão do gás no País, que
hoje é de cerca de 400 milhões de toneladas
de CO2. Levando em conta apenas a quantidade emitida pelo
setor energético, o crescimento é de 11%.
"Supersimplificadamente,
estamos criando um Protocolo de Kyoto ao contrário
para o Brasil", diz Roberto Schaeffer, professor da
Coordenação de Pós-graduação
de Engenharia da UFRJ (Coppe). Isso porque os países
ricos que participam do acordo precisam reduzir em média
5,2% de suas emissões de gases que provocam o efeito
estufa, basicamente mudando a base energética suja
que utilizam. "Como o Brasil sempre teve uma base limpa,
então qualquer mudança tem grandes conseqüências",
afirma.
Segundo
o secretário-executivo do Fórum Brasileiro
de Mudanças Climáticas, Luiz Pinguelli Rosa,
o resultado do leilão "nos coloca numa posição
difícil", uma vez que a política ambiental
propagandeada pelo Brasil no exterior é que privilegia
hidrelétricas e biomassa.
Ficará
mais difícil para o País se manter distante
dos debates internacionais sobre tecnologias ambientalmente
sustentáveis no setor. "O Brasil caiu numa armadilha,
porque a tendência é que as termoelétricas
continuem a ganhar espaço para suprir a necessidade
energética do País. Ambientalmente falando,
foi muito negativo", diz Pinguelli.
O secretário
de Meio Ambiente de São Paulo, José Goldemberg,
especialista em energia e um dos primeiros articuladores
brasileiros na Convenção-Quadro das Nações
Unidas sobre Mudança Climática, diz que o
resultado do leilão foi um "desserviço":
"O País não pode abandonar as hidrelétricas.
É andar na contramão. O Brasil apresentado
no exterior tem foco na biomassa, introduziu o etanol, e
usa hidrelétrica. Vamos acabar perdendo esse perfil."
As termoelétricas
que ganharam o contrato queimam gás natural, carvão
ou óleo diesel para gerar energia. Somente 97 MW,
ou menos de 3% da energia leiloada, virá da biomassa,
de uso sustentável. Elas são ativadas quando
há estiagem e o reservatório de água
é baixo.
Mesmo
o gás natural, fonte menos poluente do que o carvão
mineral, emite dióxido de carbono. "Globalmente,
essa poluição não será sentida
imediatamente. Mas esse é um gás que permanece
na atmosfera por mais de cem anos", explica Schaeffer.
As hidrelétricas
perderam espaço no leilão pela demora na obtenção
do licenciamento ambiental, emitido por órgãos
estaduais e o Ibama.
Em oposição,
obter o licenciamento de uma termoelétrica é
mais rápido, pois ela atinge uma área menor
e existem menos passivos sociais a serem analisados. "Alguns
dos projetos que participaram do leilão obtiveram
a licença em dois, três meses", conta
o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE),
Maurício Tolmasquim. "Existe um preconceito
quanto a hidrelétricas, como grandes degradadoras
do ambiente. Mas uma usina movida a diesel é altamente
poluidora."
Segundo
o secretário de Qualidade Ambiental do Ministério
do Meio Ambiente, Victor Zveibil, "não existe
restrição a hidrelétricas, nem favorecimento
a termoelétricas". Para Goldemberg, o problema
é a lentidão dos empreendedores em cumprir
as exigências. "A EPE não sabe o que é
licenciamento ambiental. O processo é complicado."
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