Índios
ameaçam cortar fornecimento de gás
Guaranis
ocupam empresa operadora do gasoduto Bolívia-Brasil
e exigem indenização prometida para manter
o envio do combustível
Maísa
Moura
Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio
Colaborou Luís Osvaldo Grossmann
A
Petrobras tem um novo problema na Bolívia, além
de negociar o preço do gás. Índios
guaranis tomaram uma das estações do gasoduto
Yacuíba-Rio Grande por onde é transportado
o gás dos campos de San Alberto e Sábalo
para o gasoduto Bolívia-Brasil e ameaçam
interromper o abastecimento a partir de hoje. Eles exigem
o pagamento de US$ 250 mil, referentes a um acordo feito
no ano passado sobre compensações pelo
uso de sete áreas indígenas. O gás
boliviano é responsável pelo abastecimento
de 60% do país
O
gasoduto Yacuiba-Rio Grande, com 431Km de extensão,
é operado pela Transierra, empresa da qual a
Petrobras possui participação de 44,5%
e tem como sócias a argentina Andina (Repsol-YPF),
com 44,5%, e a companhia francesa TotalFinaElf, com
11%. No sábado, cerca de 250 indígenas
invadiram a estação Parapeti, em Charagua,
cidade a 280km de Santa Cruz de la Sierra. O gás
boliviano é responsável pelo abastecimento
de cerca de metade do mercado brasileiro. Atualmente,
a Petrobras importa da Bolívia, pelo Gasoduto
Bolívia-Brasil aproximadamente 27 milhões
de m3/dia de gás natural.
Estamos
nas instalações da petroleira e prontos
para agir, caso a empresa não cumpra o compromisso
acertado em 2005, afirmou ao Correio o presidente
da Assembléia do Povo Guarani (APG), Wilson Changaray.
Segundo ele, um convênio foi firmado em 2005 entre
os guaranis, o governo boliviano e a Transierra, mas
o compromisso não foi totalmente cumprido pela
empresa.
O
acordo prevê o pagamento de US$ 9 milhões
aos índios, num prazo de 20 anos, como compensação
pelo uso das capitanias indígenas (terras indígenas)
pelo gasoduto. No entanto, segundo Changaray, dos mais
de US$ 500 mil que deveriam ser depositados pela Transierra
no primeiro ano, apenas US$ 250 mil foram pagos. Só
queremos que a lei seja cumprida. O acordo é
lei e depositaram menos da metade do valor que foi acordado.
O prazo é muito grande e há muita burocracia.
Só queremos o que é nosso direito,
defendeu-se Changaray.
Uma
fonte da Petrobras na Bolívia reconheceu ontem
que há perigo de interrupção no
suprimento de gás. Há risco. A situação
se agravou ontem (sábado), quando alguns indígenas
entraram nas instalações de um dos gasodutos
que leva o gás desde os campos até o Gasbol.
Notificamos as autoridades para que tomem medidas e
não se ponha em risco a exportação
de gás ao Brasil, mas até agora não
tivemos nenhuma resposta, afirmou o funcionário
da Petrobras Bolívia.
Risco
Em
nota, a Transierra diz que sempre demonstrou predisposição
ao diálogo e ao firme compromisso de cumprir
a totalidade do convênio assinado com os povos
guaranis, mas encontrou uma posição
intransigente e unilateral dos representantes do povo
guarani que impossibilitou a resolução
do incidente, o que põe em risco o cumprimento
do contrato de exportação de gás
ao Brasil.
Ainda
assim, o representante da Transierra, Javier Merano,
procurou minimizar o problema. Até o momento
não há qualquer risco de desabastecimento
de gás no Brasil. A produção e
o envio do gás está normal, não
houve qualquer interrupção no gasoduto
até o momento. Entramos em contato com representantes
do governo boliviano para nos apoiar nas negociações
e esperamos por um comunicado, disse Merano.
De
acordo com o líder dos guaranis, Wilson Changaray,
uma reunião entre os índios, a Transierra
e o ministro de Desenvolvimento Rural, Agropecuária
e Meio Ambiente da Bolívia, Hugo Salvatierra,
foi marcada para a manhã desta segunda-feira,
na província do Chaco, a 30 km da estação
Parapeti. Os guaranis ameaçam fechar a válvula
do gasoduto e interromper o envio de gás natural
ao Brasil caso não se chegue a um acordo nesse
encontro eles querem que os US$ 250 mil sejam
depositados em uma conta da APG. Eles também
ameaçam bloquear a estrada Yacuíba-Santa
Cruz, que liga a Bolívia ao norte da Argentina.