Ministro
se irrita com jornalista e diz
que não pode "invadir" Bolívia
PATRÍCIA
ZIMMERMANN
da Folha Online, em Brasília
O
ministro das Relações Exteriores, Celso
Amorim, deixou de lado a diplomacia para defender a
atual política internacional do governo diante
da recente crise com a Bolívia.
Ao
ser questionado durante entrevista coletiva se a postura
conciliadora do governo diante da decisão da
Bolívia de nacionalizar as reservas de petróleo
e gás não estaria privilegiando as relações
políticas em detrimento de interesses econômicos
da maior estatal brasileira, a Petrobras, Amorim irritou-se
e disse que não poderia invadir a Bolívia
e definir um preço ideal.
'O
que você quer que eu faça, que eu invada
a Bolívia e obrigue a eles a botarem no poço
o preço que eu desejo. Eu acho que esse não
é o nosso método', disse o ministro.
Ele
destacou que o diálogo é a melhor forma
de se chegar a um acordo com a Bolívia sobre
o abastecimento e os preços do gás natural.
'O mundo é cheio de negociações,
de barganhas, você ganha de um lado e perde do
outro', avaliou.
Críticas
Ao
rebater as críticas de ex-diplomatas e de parlamentares
à política externa do governo diante da
crise entre o Brasil e a Bolívia, o ministro
destacou que não contribui para o bom desfecho
do problema uma reação 'estridente', como
desejaria parte da opinião pública diante
de determinadas situações.
'Acho
sim que a nossa atitude correta é a de continuar
tendo uma política de diálogo, de buscar
encontrar soluções. Acho que também
tem que ter diálogo da parte deles, tem que ser
correspondido', disse.
Segundo
Amorim, não é o caso também de
reagir com estridência. 'Acho que é muito
fácil reagir com estridência. É
muito mais difícil você reagir com sobriedade,
procurando solucionar os problemas, procurando encontrar
verdadeiros caminhos', disse.
Amorim
reafirmou que a Bolívia é um país
soberano e, portanto, pode tomar decisões soberanas.
Entretanto, segundo ele, como a Bolívia vive
inserida num contexto político e econômico,
também seria do seu interesse manter boas relações
com o Brasil.
Certo
de que a situação será resolvida
pelo diálogo, o ministro avaliou que as negociações
sobre o gás natural boliviano deverão
se dar de tal maneira que a Bolívia 'não
se sinta espoliada, esbulhada como sempre foi no passado,
em que todos os seus recursos naturais eram tirados
de lá sem nenhum valor agregado, sem deixar nada
no país'.
Ao
mesmo tempo, o ministro afirmou que 'é absolutamente
vital' o interesse do consumidor brasileiro e das empresas
brasileiras, o que seria 'perfeitamente conciliável'
nas negociações com a Bolívia.
Entretanto,
segundo ele, isso 'exige tempo, exige paciência,
exige não querer ficar jogando para a platéia,
que é sempre uma tentação muito
fácil tanto para aqueles que estão na
ativa quanto para aqueles que estão aposentados'.
Preços
Amorim
disse ainda que os preços que serão negociados
para o gás boliviano deverão estar dentro
do 'limite da viabilidade dos negócios'. Segundo
ele, os limites, que serão negociados entre a
Petrobras e a estatal boliviana YPFB deverão
levar em conta o fato de que o combustível pode
ser substituído por outro.
'Se
você aumentar o preço do gás a partir
de um certo nível, passa a ser mais interessante
usar óleo combustível ou, dependendo da
atividade, usar gás liqüefeito de petróleo
[GLP]. Então é uma questão natural',
avaliou.
O
ministro destacou que as atividades que utilizam o gás
deverão medir o preço que estão
dispostas a pagar dependendo das alternativas de combustíveis
que elas dispõem.
O
chanceler brasileiro também tentou minimizar
o impacto da declaração do presidente
da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, de
que não irá mais investir na Bolívia.
Segundo
Amorim, o executivo falava num contexto da 'surpresa',
antes da reunião dos presidentes realizada ontem
em Puerto Iguazú, na qual ficou acertado um trato
de cooperação para o desenvolvimento da
Bolívia e para o abastecimento de gás,
inclusive com a participação dos bolivianos
no gasoduto do Sul, que vai possibilitar a integração
energética entre Argentina, Venezuela e Brasil.
'Nós
vamos defender sim os interesses da Petrobras, nós
vamos defender sim o interesse do consumidor brasileiro,
e nós vamos defender sim os interesses do abastecimento
no Brasil. Agora, temos que fazer isso sem necessariamente
usar de estridência que só contribui para
agravar a relação do Brasil com a Bolívia,
para dificultar uma solução para o problema
e para quem sabe até contribuir para uma radicalização
da própria Bolívia. Não é
esse o nosso interesse', afirmou