Defesa@Net

Importante matéria sobre o desenvolvimento de tecnologias alternativas.

 

 

Estudo sobre fontes de Petróleo 2 MB pdf

Energia - Energy

Defesanet 30 Setembro 2005
ABr 21 Setembro 2005

Cearense registrou primeira patente de produção de biodiesel em todo o mundo


A primeira patente mundialmente registrada de um proc esso de produção industrial de biodiesel foi registrada por Expedito Parente, 65, engenheiro químico cearense.

A transesterificação, então patenteada por Parente, é, ainda hoje, o principal processo industrial utilizado no país para a fabricação do biodiesel. A primeira usina a operar em escala comercial na região do semi-árido nordestino, em Floriano (PI), por exemplo, tem Parente como consultor.

A idéia para a descoberta, lembra ele, não se deu no ambiente de um laboratório de alta tecnologia, ou no escritório de uma megaempresa multinacional. Veio da observação de uma vagem do ingazeiro, segundo ele, semelhante à molécula do biodiesel.

Nestes tempos em que o barril de petróleo beira US$ 70 e os países ricos devem cumprir compromissos políticos de diminuir suas emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global, o país redescobre-se vanguarda no campo dos biocombustíveis. Nesta entrevista, concedida no modesto escritório da Tecbio, a empresa que Parente criou dentro do Núcleo de Tecnologia da Universidade Federal do Ceará, o professor conta a história de uma invenção que esperou 30 anos para revolucionar o país.

Agência Brasil - Como surgiu a idéia de um diesel desenvolvido a partir do óleo vegetal?
Expedito Parente - Em 1977, eu trabalhava na Universidade Federal do Ceará com tecnologia, com processos de produção de álcool a partir de matérias-primas não convencionais, basicamente de celulose e de materiais como mandioca, batata. Isso me causava certa estranheza, porque eu via que, com o Proálcool, nós estávamos resolvendo o problema errado. Por quê? Porque a matriz energética dos combustíveis brasileiros deve contemplar o transporte, que é feito com óleo diesel. O álcool é para veículo de passeio.

O Proálcool surgiu por uma necessidade de mercado. Na época, o açúcar estava muito barato, e os usineiros precisavam de alternativas. Então, o programa do álcool não nasceu pela necessidade energética. E contemplava veículos leves, quando o Brasil precisava de um combustível para veículos pesados e máquinas agrícolas.

ABr - Como o senhor chegou à formula do biodiesel?
Parente - Um certo dia, em 1977, eu estava no meu sitio, em Pacoti, aqui na serra, sozinho tomando uma cachaça na beira de uma cachoeira e debaixo de um ingazeiro. De repente, olhando para uma vagem de ingá, eu vi a molécula do biodiesel. Era assim, comprida, lá dentro tinha uns grãos ligados... Aquilo tem óleo... Tudo aquilo, aquele arquétipo da natureza fomentou a molécula do biodiesel, com os ésteres de ácidos graxos. Isso foi num sábado. E aí, pronto, a coisa ficou na minha cabeça remoendo...

Na segunda feira, quando cheguei no laboratório, eu fiz a síntese a partir do óleo de algodão, que era o óleo que tinha, porque se usava naquela época para cozinhar. E examinando a substância, eu verifiquei que a viscosidade e as características aparentes se assemelhavam às do óleo diesel. Então eu fiz um ensaio de combustão num algodão. Aí eu vi que queimava muito bem, e a chama era muito bonita, muito viva. Então, durante a semana, eu produzi dois litros desse combustível.

ABr - Como o sr. testou o funcionamento do biodiesel num motor?
Parente - Havia um cidadão aqui no Ceará que já tinha mais de 80 anos na época, Bernardo Gondim. Ele era um prático, um mecânico com um conhecimento muito grande de motores e gostava muito de coisas não convencionais. Então eu pedi a ele que me arranjasse um motorzinho pequeno para experimentar o combustível. Ele me mostrou um que ele tinha lá, que era muito velho, não funcionava direito nem com óleo diesel. Ele me ofereceu, mas avisou: "Não vai funcionar".

ABr - Funcionou?
Parente - Funcionou perfeitamente com o biodiesel. E o Bernardo disse pra mim: "Professor, se esse motor conseguiu funcionar com o seu combustível, então é porque esse seu combustível é muito bom, é melhor que óleo diesel". Isso me incentivou a prosseguir com os testes. Nos dois primeiros anos, eu trabalhei muito nesses testes, usando outros óleos vegetais, como babaçu, soja... A mamona, não, porque eu achava que o óleo da mamona deveria ser reservado para biolubrificantes.

ABr - O sr. procurou alguma parceria, alguém que financiasse a produção?
Parente - Em 1980, quando eu já tinha concluído essa fase de pesquisas, eu arranjei uma grande parceria, com um grande banqueiro de São Paulo chamado Amedeu Augusto Papa, que era dono do Banco Lavra. Juntos, nós criamos uma empresa que se denominou Proerg – Produtora de Sistemas Energéticos Ltda. O objetivo era dar agilidade ao desenvolvimento do biocombustivel.

Aí, nós partimos para requerer a patente e construímos um protótipo de produção que poderia obter 100 litros por dia, ou melhor, em 8 horas. E aí começamos a testar em veículos mesmo. Testamos vários, mas o que usamos mais foram aqueles jipes Bandeirante da Toyota. O lançamento oficial do nosso Prodiesel foi com os veículos da Coelce, a Companhia de Eletricidade do Ceará.

ABr - Era a sua versão do Proalcool?
Parente - Só que nós íamos mais longe. Já naquela época, a gente tinha concebido toda a cadeia produtiva integrando as atividades agrícolas, com a geração de emprego, as transversalidades com o setor de alimentos. Tudo isso de que se fala hoje, naquela época já estava previsto no nosso projeto.

Inventor brasileiro do biodiesel também criou vaca mecânica
e bioquerosene para aviões

ABr - Na época da invenção do biodiesel, vocês fizeram contato com o governo?
Parente
- Bem, o Amedeu Papa (banqueiro que era sócio de Parente) era muito do amigo do então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Mattos, que conheceu o projeto e colocou o CTA (Centro Tecnológico da Aeronáutica), em São José dos Campos, à nossa disposição.
Ali foram realizados testes aprofundados nesse combustível. Isso nos dava o carimbo de uma das instituições de pesquisas mais importantes do hemisfério sul. Só que aí eu cometi uma das maiores irresponsabilidades da minha vida.

ABr - Como assim ?
Parente
- O ministro Délio disse que não queria se envolver muito com o biodiesel, porque o combustível da Aeronáutica não era o diesel, mas a querosene de aviação. E que ele se interessaria se fosse um bioquerosene. Eu então virei pra ele e disse: "Pois ministro, o seu bioquerosene de aviação vai sair".

Eu me comprometi a assinar um protocolo, garantindo que ia desenvolver o bioquerosene de aviação e que o biodiesel seria um subproduto. Eu cometi essa irresponsabilidade! Mas, como sou uma pessoa de muita sorte, logo em seguida eu concebi o querosene que passou a ser o nosso carro-chefe. Era o prosene.

ABr - Vocês chegaram a testar esse prosene?
Parente
- Primeiro, nós fizemos ensaios em turbinas estacionadas, em bancada. Depois de muitos testes, nós decidimos fazer o teste num vôo. Usamos um Bandeirante, da Embraer, que saiu de São José dos Campos no dia 23 de outubro de 1984. Era o Dia do Aviador. E voou até Brasília. Eu quis ir nesse avião, mas me foi negado o acesso, porque eu não era militar. Eles fizeram questão de voar só com o prosene, sem uma gota de combustível de petróleo. O tanque estava cheio de querosene vegetal. E isso foi fantástico, porque lá em cima não tem acostamento, não!

ABr - Quer dizer que o prosene deu certo, então?
Parente
- Sim, o vôo foi um sucesso. Eu ganhei uma das mais altas condecorações da Aeronáutica, que é a Medalha do Mérito. Como se tratava de um combustível estratégico – o avião inclusive voava mais alto –, eu cedi a patente para a Aeronáutica. Evidentemente, não era o momento para o desenvolvimento do projeto. Era final de governo. Aí terminou o nosso contrato. E tudo isso foi encerrado.

ABr - O sr. acha que houve alguma injunção política nisso?
Parente - Não. Não creio. O país não estava motivado. Além disso, a produção de petróleo do país começou a crescer, o preço do petróleo caiu. E a Petrobrás não deu a mínima bola para o combustível, apesar de eu ter procurado a empresa muitas vezes. Na verdade, eles nunca deram realmente valor, não enxergaram.

ABr - E o projeto morreu, então.
Parente - É, mas em 1991 a Alemanha e a Áustria ressuscitaram a idéia. E aí a Europa passou a produzir o biodesel.

ABr - Com a sua patente?
Parente - Era o mesmo processo. No entanto, a minha patente caducou em 1991, no ano em que eles começaram. Eu nem estava sabendo. Na verdade, eu já tinha mudado o foco, quando eu vi que a idéia do biodiesel tinha sido frustrada em 84.

Naquela época, o Nordeste enfrentava um período de seca que já durava cinco anos, com o povo morrendo de fome no interior. Então mudei o foco: por que, em vez de pensar em combustível para máquina, eu não vou pensar num combustível para gente, que é o alimento? Aí eu passei a me interessar pelo leite de soja.

Um fato que me inspirou foi que nessa época eu adotei uma menina. Eu só tinha filho homem, então adotei uma menina, a Livia, que tinha um ano e meio. Ela tinha sido abandonada pelos pais na época da seca e estava morrendo de fome. E foi por causa dela que eu me voltei para o problema. E eu comecei a pensar na solução.

ABr - E encontrou?
Parente
- Eu desenvolvi uma máquina para fazer leite de soja que eu chamei de vaca mecânica. Já existia uma na Universidade de Campinas (SP). Nós apresentamos um modelo aperfeiçoado, que fazia não só leite de soja, mas sopas e sucos de qualquer matéria-prima alimentícia. Eu fiz essa máquina e nós viajamos pelo interior. Eu tirei férias e fomos até os Inhamuns, que era a capital da fome. A gente saiu levando a máquina a reboque no carro. Não era muito grande, media 2,2m por 0,8m. E se chamava Amélia, "a mulher de verdade", que alimentava gente.

Usávamos um quilo de soja para fazer oito litros de leite. Dava pra fazer leite para 1.500 pessoas num dia. Nós fomos até Picos, no Piauí. O problema é que, quando nós chegamos lá, estava todo mundo esperando, o prefeito tinha anunciado. Tinha 30 mil pessoas para ver a máquina. E só tinha leite pra 3 mil pessoas. Aí invadiram o recinto, quebraram a máquina e a gente acabou virando assunto de uma reportagem do Gervásio de Paulo, com o titulo "Amélia no Pais da Fome".

ABr - Foi o fim da Amélia?
Parente
- Não. Franco Montoro, que era governador de São Paulo, na época, me convidou para implantar o projeto, para a merenda escolar. Eu transferi a tecnologia para uma metalúrgica, a Ceil, do Ceará, que passou a produzir esse equipamento. Eles faziam 30 equipamentos por mês. Aí o projeto se espalhou pelo Brasil. Nós produzimos cerca de 700 máquinas. E exportamos umas 50. Só em São Paulo, segundo nosso controle, chegaram a tomar leite de soja cotidianamente 3 milhões de crianças. Eu posso dizer que nós introduzimos o leite de soja no hábito alimentar brasileiro.

ABr - E o que aconteceu depois?
Parente - Depois eu fui para o Piauí, a convite do governador Alberto Silva. Lá, nós montamos uma fábrica de alimentos que fazia cerca de 700 mil merendas escolares por dia. A gente fazia oito tipos de produtos que compunham a merenda: macarrão, sopas desidratadas. Foi uma grande experiência, que infelizmente acabou quando terminou o governo do Alberto Silva.

ABr - A velha questão da descontinuidade das políticas públicas...
Parente - Esse foi o grande problema da vaca mecânica. E é o que sempre acontece. Os governos que se sucedem abortam os projetos do governo anterior. É um grave erro da administração brasileira, e você pode denunciar isso. Mas felizmente está servindo de exemplo para um projeto que nós estamos introduzindo no Brasil, que é o Biodiesel Municipal.

ABrl - Depois do período em que a idéia ficou esquecida no país, como foi o retorno do projeto do biodiesel?
Parente - Há cinco anos, quando acabou a experiência de produção de merenda escolar no Piauí, eu voltei para Fortaleza para "ressuscitar" o biodiesel a partir do sucesso que ele estava tendo na Europa. Nós passamos a ver o biodiesel dentro de uma feição diferente, considerando suas externalidades e suas transversalidades. Nós fizemos aprofundadas reflexões sobre o conceito de biodiesel.

A primeira coisa que mudou foi o nome, que era Prodiesel, por causa do Proálcool. Passou a ser biodiesel, como já estava sendo chamado na Europa. Mas a grande mudança foi no foco. Nós começamos por colocar no conceito o homem e a natureza. Então, o biodiesel deixou de ser simplesmente um sucedâneo do óleo diesel mineral e passou a ser algo muito maior.

Passamos a ver o biodiesel como instrumento de inclusão social e de limpeza da natureza. Foi aí eu optei pela mamona. É uma espécie vegetal que dá em qualquer lugar, ela se presta para o semi-árido e para a agricultura familiar. Tem o poder de acabar com a miséria do Nordeste. Essa é a proposta da Tecbio. Mas a idéia não é só minha. Eu tive um grande parceiro para isso, que foi o senador Alberto Silva (PMDB-PI). Ele é um visionário.

ABr - Qual foi o papel dele?
Parente - Ele me provocou: é possível fazer biodiesel de mamona? Aí nós começamos a discutir. E dessa discussão acabou nascendo a idéia da fábrica que nós montamos lá em Floriano (PI), que o presidente Lula inaugurou agora em agosto. É uma usina que processa o óleo da mamona e transforma em biodiesel. Claro que ainda não começou a distribuição do biodiesel, mas, a partir de 2008, será obrigatória a adição de 2% de biodiesel ao óleo diesel. Parece pouco percentualmente, mas, em quantidade, é muita coisa. São pelo menos 800 milhões de litros por ano. Esse já é um desafio inicial.

ABr - Nós não corremos o risco de repetir o problema do álcool, com a proliferação de plantações imensas, latifúndios, monocultura?
Parente - Em primeiro lugar, o Programa Brasileiro de Biodiesel deve ser alguma coisa dez vezes maior do que o Proalcool. E eu vou lhe dar as razões, que eu já mencionei: as externalidades e as transversalidades. O biodiesel tem condições de empregar, de gerar renda, de promover a limpeza ambiental, porque não polui. Essas são as externalidades. E as transversalidades são as seguintes: em primeiro lugar, envolve o setor de alimentos, porque toda oleaginosa, sem exceção, é composta de duas porções: a porção lipídica, que é o óleo, e a porção protéica, que resulta em alimentos. Produzir biodiesel implica necessariamente em produzir alimentos.

Serve pra fazer ração, que serve para criar frango, produzir ovos. Serve para criar animais e produzir carne, leite. E também se pode usar a torta (porção separada do óleo, após o esmagamento) como biofertilizante. Isso significa agricultura, frutas, verduras. Ora, as duas maiores necessidades do mundo são diesel e alimentos.

ABr - Por que o diesel?
Parente - Porque o diesel é o combustível produtivo. Os motores movidos a diesel produzem eletricidade, movem tratores na agricultura, caminhões no transporte de cargas, ônibus, trens, navios. Não é como o álcool, que só serve para veiculo de passeio. Esse é um lado. Mas tem um outro, que é o lado internacional. Das relações internacionais. De equilíbrio internacional.

ABr - Como o biodiesel se relaciona a esse equilíbrio internacional?
Parente - A Amazônia tem cerca de 100 milhões de hectares de terras em degradação, por causa do desmatamento. São terrenos de solo raso, que se prestam a culturas permanentes. Nós temos que fazer ali um reflorestamento enérgico, com cultura de palmáceas, evidentemente tendo o cuidado de manter a floresta equilibrada ecologicamente. Isso é feito mesclando as espécies que são de lá mesmo. Nós já testamos mais de cem oleaginosas da Amazônia que podem produzir biodiesel.

ABr - É suficiente para produzir muito mais do que o que o Brasil necessita, não?
Parente - Esse reflorestamento tem fôlego para abastecer toda a Europa em combustível. Eu já disse a eles, este ano, lá no parlamento alemão. Eles estão muito interessados! O preço do barril de petróleo vai continuar subindo. E deve passar dos US$ 100 em 2006. Ora, isso danifica a economia européia mais do que a americana. Será que os europeus não sabem disso? E não estão buscando alternativas? O Brasil será o grande parceiro da União Européia.

ABr - Eles então consumiriam esse biodiesel produzido na Amazônia?
Parente - Sim. Recursos para isso? Os fundos bilionários do Tratado de Quioto! Uma vez produzido, o biodiesel pode ser transportado pela calha do rio Amazonas até a Europa. Isso é possível. É viável.

ABr - Mas, esse seria um megaprojeto, para grandes empresas. Como ficariam os pequenos produtores?
Parente - O programa tem que ter espaço para o grande e para o pequeno. Se a gente não cuidar do pequeno, o programa pode virar um programa de exclusão social, como aconteceu com o Proalcool. Daí a idéia do Biodiesel Municipal, que eu mencionei antes. É um artifício político e um arranjo produtivo para preservar as pequenas unidades de produção de biodiesel. É o conceito de um poço de petróleo em cada município. É o petróleo verde!

ABr - Algum município já aderiu a esse programa?
Parente - Três municípios em Goiás: Catalão, Paraúna e Guaraíta vão começar agora. Em Varginha (MG), já está funcionando há dois anos. E aqui no Ceará já existe um consórcio de municípios que está se formando a partir de Maranguape.

ABr - O biocombustível pode chegar a substituir o petróleo?
Parente - Plenamente. Mas só até o dia em que a gente puder colocar numa caixinha do tamanho desse gravador toda a energia necessária para fazer funcionar um carro ou uma casa. Mas isso ainda vai demorar um pouco...

 

:::ÍNDICE
Notícias
Arquivo Notícias
Boletíns
Editoriais
Revista Virtual
SOF História
Artigos
Documentos
Links
Fotos
Vídeos
Equipe
Busca Arquivo
 



 
©2005 DEFESA@NET - Brasil