COBERTURA ESPECIAL - Eleições - Pensamento

23 de Outubro, 2018 - 20:25 ( Brasília )

Mourão - Acusado de tortura em sabatina, general Mourão diz que vai processar Haddad

Candidato do PT à Presidência repetiu em entrevista aos jornalistas do GLOBO afirmação equivocada do músico Geraldo Azevedo, que pediu desculpas por 'transtornos causados'


 

Jussara Soares

 
RIO - Logo após a repercussão do equívoco cometido pelo candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, o general Hamilton Mourão, candidato a vice na chapa do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), afirmou que vai processá-lo pela acusação feita pelo petista em sabatina dos jornais "O Globo", "Extra", "Valor Econômico" e revista "Época" .

Haddad repetiu a afirmação equivocada feita no sábado pelo músico  Geraldo Azevedo , em show em Jacobina, na Bahia, que disse que foi preso duas vezes na ditadura e que foi torturado. Segundo o artista, Mourão  era um dos torturadores. O cantor reconheceu o erro e pediu desculpas pelo "transtorno causado". Em nota, o general afirma que também pretende processar o cantor.

-  O Haddad tem que aprender a checar o que é falso e o que é verdadeiro. O camarada que não consegue distinguir isso não pode presidir o Brasil, não pode nem ser síndico de prédio. Basta olhar a minha idade e ver que em 1969 eu tinha 16 anos.  Eu tenho filho e tenho neto, vou processá-lo. Ele  repercutiu (a declaração do Geraldo Azevedo) sem observar a realidade dos fatos - disse o militar, que ainda citou o pedido de desculpas divulgado pelo músico, a quem também criticou:

- Eu entrei na AMAN (Academia Militar das Agulas Negras) em 1972, era cadete. Em 1969 eu era interno do Colégio Militar em Porto Alegre, com 16 anos. O tal do Geraldo Azevedo soltou uma nota dizendo que foi um equívoco. Não foi um equívoco, foi má-fé.


 



Em nota divulgada pelo PRTB, partido de Mourão, o candidato a vice afirma que abrirá processo por declaração difamatória contra Geraldo Azevedo:

"O atual candidato a vice-presidente nem sequer havia entrado no Exército neste ano. E sim, era aluno do Colégio Militar, em Porto Alegre, com apenas 16 anos. Trata-se, portanto, de uma fake news, no desespero de se criar fatos novos pelos simpatizantes da chapa concorrente de Fernando Haddad e aliados", diz trecho da nota, que continua:
 
"A coligação PRTB/PSL, diante de tamanho descalabro e inverídica notícia, aguarda da população brasileira e da mídia em geral a devida maturidade para considerar tamanha descompostura por parte de seus difamadores, que tentam confundir o eleitorado brasileiro, hoje, mais do que nunca, convicto da opção por Jair Bolsonaro e General Mourão, seja no 1o ou no 2o turno. Quanto à questão da repercussão das frases do candidato Haddad, que reproduz tais fakes, também tomaremos as devidas providências judiciais"

 

Análise: Erro de Haddad abala tática petista de culpar 'fake news' por desvantagem


Candidado do PT à Presidência repetiu em sabatina acusação equivocada de Geraldo Azevedo, que acusou Mourão de tortura
 

Pedro Dias Leite


RIO - Ao repetir sem checar uma acusação grave, e que se provou falsa, Fernando Haddad cometeu um erro que abala sua principal estratégia na reta final do segundo turno. Nos últimos dias, o candidato do PT à Presidência vinha creditando a vantagem de Jair Bolsonaro a uma indústria maciça de "fake news". A distância de 20 milhões de votos do capitão reformado seria, única e exclusivamente, pelas mentiras espalhadas por seus partidários. Como insistir nisso depois de propagar, ele mesmo, uma notícia falsa?

Agora, toda vez que Haddad reclamar do massacre de notícias falsas contra sua campanha, partidários do adversário do PSL já têm pronta a resposta: quem espalha "fake news" é o petista, que acusou, injustamente, o general Hamilton Mourão de ser um torturador durante a ditadura militar .

O erro estratégico denota, também, o grau de pressão e de exaustão no quartel-general petista. A acusação a Mourão foi deliberada e repetida por Haddad na sabatina promovida pelos jornais O GLOBO, Extra, Valor Econômico e a Revista Época, com o objetivo de obter repercussão: "Deveria estar em todas as primeiras páginas amanhã", disse o candidato.

Mas bastou uma busca no Google, assim que a frase foi dita, para mostrar a inconsistência da afirmação. Mourão tinha 16 anos à época em que o cantor Geraldo Azevedo foi barbaramente torturado - e as sevícias a que foi submetido são verdades comprovadas, é bom destacar. Uma acusação dessa gravidade, feita por um político que luta contra as fake news, jamais poderia ter sido feita com leviandade.

Em pouco mais de uma hora, a máquina de checagem do jornalismo profissional entrou em ação, e o erro estava esclarecido: Mourão afirmou que ainda estava no colégio, e Geraldo Azevedo disse que se equivocou e pediu desculpas pelo seu erro.

O equívoco do cantor pode ter acontecido de boa fé, ao contrário das fake news clássicas, criadas para desinformar. Mas ao ter sua repercussão ampliada contribuiu ainda mais para quem aposta na confusão de informações.
A situação eleitoral de Haddad antes do episódio já era delicada. As pesquisas praticamente não se alteraram desde o começo do segundo turno, com larga vantagem para Bolsonaro. Sua principal e última aposta dos últimos dias, de creditar a desvantagem a uma tática suja de fake news do adversário, sofreu um enorme baque com o erro da manhã desta terça-feira.
 


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