Editorial
O Leão
que Guincha*
Enquanto a situação
geopolítica da América do Sul continua
em profunda transformação e os tambores
da guerra tocando em allegro a posição
do governo brasileiro continua inerte .
Aliás,
corrigimos, não está inerte, mas
sim em movimento, o movimento de ladeira abaixo.
Ladeira abaixo
impulsionada por uma nova classe de análises:
as cantânias. São
um mixto de análises e notícias
produzidas, com um claro viés político,
por jornalistas gravitando na Esplanada dos Ministérios.
Algumas não mais que um velho e mofado
agit-prop ao criar notícias inexistentes.
O insólito
ministro da Defesa que é pródigo
em dar entrevistas a jornalistas da área
política tem produzido uma miscelânea
de confusos e ilegíveis sinais. Missão
digna de um Champollion ao decifrar os hieróglifos
egípcios ou modernamente um Turing ao quebrar
o segredo das máquinas de cifrar alemãs
ULTRA, da Segunda Guerra Mundial.
Contratos assinados,
amores e declarações definitivas
que são, digamos, esquecidas, momentos
após proferidas.
Neste cenário
está a mais nova cantânia
que é o artigo “Em
vez de comprar, FAB vai construir caça”,
uma pérola de desinformação
e confusão.
A sorte das autoridades
brasileiras na área de defesa é
que Chávez é uma usina de produção
de factóides, o suficiente para distrair
a imprensa e o leitor brasileiro desatento.
Porém,
no mesmo dia o analista político venezuelano
Edgar Otálvora, enviava a sua análise:
“Las
adquisiciones bélicas que realiza el gobierno
venezolano poco a poco dejan de ser estrictamente
defensivas.”
Contrapondo a
esta temos a citação: “Além
da decisão de implantar uma política
industrial de defesa, o governo evoluiu para o
projeto de construir um caça sob encomenda
e adaptado às necessidades da FAB”.
Após lermos
a pérola acima resta-nos, embasbacados,
a segunda: “Os caças mortíferos
de quarta e quinta gerações disponíveis
no mercado têm uma combinação
indigesta: barreiras para a transferência
de tecnologia, preços estratosféricos
e performance marcadamente de ataque - o que passaria
uma mensagem de ameaça aos vizinhos sul-americanos
se o Brasil tivesse dinheiro para comprar, por
exemplo, o F-22/Raptor, um caça “made
in USA” com preço unitário
que, dependendo da tecnologia agregada, pode variar
entre US$ 130 milhões e US$ 240 milhões".
“Na avaliação
da Defesa e do comando da Aeronáutica,
os caças à venda de múltiplas
funções - interceptação,
defesa e ataque - têm preço aceitável
e permitem uma aliança estratégica
em matéria de transferência de tecnologia.
“Nesse caso,em vez de comprarmos lá
fora, decidimos gastar os US$ 2 bilhões
do projeto FX-2 para revitalizarmos o que já
temos e investirmos no projeto de construção
de um caça brasileiro”, disse ao
Estado o ministro da Defesa, Nelson Jobim".
Sejam claros Srs.
Ministro da Defesa e Comandante da Aeronáutica,
explicitem limpidamente a posição
do Governo pois o que foi apresentado está
mais para samba do crioulo doido do que para uma
real política de desenvolvimento.
*O título
desse artigo é uma menção
ao filme de Peter Sellers, “O Rato que Ruge”.