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19 de Fevereiro, 2007 - 12:00 ( Brasília )

A tecnologia, a guerra e o terror - Entrevista com Max Boot

Historiador americano afirma que os EUA podem perder a liderança na corrida armamentista


Ângela Pimenta



Criada pelos chinese por volta do ano 1000, a pólvora foi usada pela primeira vez como arma por um rei francês. Os americanos inventaram a bomba atômica, a internet e o GPS, mas hoje tudo isso está à disposição dos inimigos dos Estados Unidos. No livro War Made New - Technology, Warfare, and the Course of History -1500 to Today (Guerra Renovada - Tecnologia, Combate e o Curso da História - De 1500 até Hoje), o historiador Max Boot examina como a guerra e a tecnologia andam juntas. E faz um alerta: os EUA podem perder a liderança bélica.

ÉPOCA - Por que o senhor afirma que os EUA têm dificuldades para manter a liderança na corrida armamentista?
Max Boot -
Se vamos ser a potência dominante no mundo, precisamos ser dominantes em cada uma das esferas da atividade militar. Os americanos querem que o país seja poderoso. E não apenas a América, mas o resto do mundo também se beneficia dos serviços prestados por nosso poderio militar. Ele dá aval ao desenvolvimento econômico global pacificamente. Poucos prestam atenção ao fato de que a Marinha americana policia os mares, para garantir o fluxo de mercadorias em todo o globo. No momento, nossa força é imbatível em operações de longo alcance e de precisão, como em batalhas aéreas, marítimas e terrestres, ou mesmo no espaço. Mas nossa vantagem diminui quando chegamos perto do inimigo, quando nossos aviões voam a baixa altitude, nossos navios se aproximam da costa ou nossos soldados tornam-se visíveis a olho nu pelo inimigo. Aí nos tornamos vulneráveis mesmo para armas de baixa tecnologia, como as bombas caseiras no Iraque.

ÉPOCA - Em termos tecnológicos, onde a liderança militar americana é mais ameaçada?
Boot
- A liderança americana em alta tecnologia segue inabalável. Mas existem países tentando desenvolver maneiras de neutralizar nossas armas e nossos sistemas. A China, por exemplo, tem desenvolvido submarinos antimísseis que poderiam infligir grande estrago à Marinha americana. E o Irã e a Coréia do Norte trabalham com armas atômicas para tentar dissuadir os americanos. O caminho seguido por nossos oponentes não vai tanto na direção de construir armas de última geração, mas em dificultar a operação de nossos sistemas militares devido à tecnologia fornecida pela Rússia e pela China. Hoje, a Rússia é o maior exportador de armas do mundo. E eles têm exportado para grupos terroristas como o Hezbollah.

ÉPOCA - Quem os EUA devem temer: a China, a Coréia do Norte ou a AI Qaeda?
Boot
- Possivelmente uma combinação de países como o Irã com a A1 Qaeda. Não precisamos temer um país como 0 Irã quando ele atua de maneira convencional. Foi o que Saddam Hussein fez, em 1991, ao invadir o Kuwait. O perigo real é um país como o Irã apoiar terroristas como o Hezbollah. Em linguagem militar, isso se chama ameaça assimétrica, porque uma nação como os Estados Unidos encontra grandes dificuldades para infligir retaliações a guerrilheiros que se escondem na multidão.

ÉPOCA - E a China, ela pode se tornar uma superpotência sem guerra?
Boot -
Espero que sim. Mas historicamente não conheço nenhum país que tenha alcançado o status; de superpotência sem ter vencido uma grande guerra. Normalmente, as potências já estabelecidas não dão espaço para que a nova potência surja. Os EUA devem deixar claro para os chineses que, se eles quiserem se desenvolver pacificamente como uma potência econômica, serão bem-vindos. É preciso convencê-los de que os EUA não são inimigos da China. Mas é preciso haver limites para a ação militar chinesa. Não vamos tolerar que eles ataquem Taiwan.

ÉPOCA - A estratégia de Bush de aumentar a presença militar no Iraque vai dar certo?
Boot -
É possível, caso o aumento das tropas seja mantido a longo prazo. Finalmente, Bush reconheceu que a situação no Iraque é dificílima e requer mais tropas. De acordo com um manual do Pentágono, seria necessário um soldado para cada 40 ou 50 habitantes iraquianos. Nesse caso, precisaríamos dobrar nossa presença militar no país. Essa não é uma hipótese realista. Mas não creio que o plano de Bush seja ineficaz de saída. A estratégia é restabelecer a segurança nas ruas de Bagdá, coisa que nunca foi tentada. Se a população de Bagdá perceber que o clima nas ruas mudou, o rumo da guerra pode ser revertido.

ÉPOCA - Quais são os riscos de a proliferação nuclear chegar à América Latina?
Boot
- Não vejo nenhum ímpeto iminente para a nuclearização na região. O Brasil e a Argentina renunciaram ao direito de desenvolver armas nucleares. É possível que a conjuntura mude se, por exemplo, Hugo Chávez decidir adquirir armas nucleares. Nas últimas décadas, o padrão da corrida nuclear é a competição entre vizinhos. Depois que a Índia obteve a bomba, o Paquistão foi no mesmo caminho. Algo similar poderia ocorrer na Ásia, com a Coréia do Norte provocando a nuclearização da Coréia do Sul e do Japão. E o mesmo poderia ocorrer no Oriente Médio: se o Irã tiver a bomba, poderíamos ver o Egito, a Arábia Saudita e talvez a Turquia caminhando na mesma direção.

ÉPOCA - 0 Brasil tem conduzido sua política externa de forma a impor-se como a potência regional latino-americana. Para ser respeitado na região, o Brasil precisa exibir mais musculatura militar?
Boot -
Se o Brasil quer ser um país influente na cena internacional, vai precisar de poderio militar para respaldar sua ação diplomática. Do contrário, ninguém vai levar o país a sério. Tenho visto o Brasil dar uns pequenos passos adiante, como liderar a missão de paz da ONU no Haiti. O Brasil tem capacidade para ser uma potência regional dominante, na mesma medida que a Austrália o é para o Pacífico Sul e a África do Sul para o sul da África. Seria construtivo se o Brasil fizesse mais, assumindo a responsabilidade de manter a paz e a ordem na região.

ÉPOCA - Dos guerreiros descritos em seu livro, quem é seu favorito?
Boot
- Tenho uma queda pelo Duque de Wellington. No livro, conto uma de suas primeiras batalhas, na Índia, em 1803. Acho especialmente inspirada e corajosa a maneira como ele, então o jovem general Arthur Wellesley, enfrentou a Confederação Maratha. Wellesley tinha 4.500 homens bem treinados, enquanto os indianos eram mais de 40 mil. Aquilo foi um prelúdio para sua vitória mais célebre, contra Napoleão Bonaparte, em Waterloo


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