COBERTURA ESPECIAL - Ecos - Guerras, Conflitos, Ações - Aviação

14 de Maio, 2012 - 10:02 ( Brasília )

IIª Guerra Mundial - Um brasileiro no front

Diário e cartas inéditas do piloto Fernando Corrêa Rocha durante a Segunda Guerra Mundial revelam detalhes da participação do Brasil no conflito

Ivan Claudio


Antes de embarcarem para a Itália, para se somar às tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial, os pilotos brasileiros do 1º Grupo de Aviação de Caça ouviram de um treinador americano, à frente de seus potentes aviões P-47 Thunderbolt, a seguinte recomendação: “O P-47 sempre trará vocês de volta para casa, a não ser que façam ataques rasantes ou bombardeios de mergulho. Se o fizerem, terão a mais emocionante e a mais curta das vidas.” Entre esses jovens militares estava o paulista Fernando Corrêa Rocha, um ex-estudante de direito de 23 anos, afilhado do escritor Mário de Andrade, e apaixonado por aviação.

Escalado para 75 missões de combate, Rocha deu rasantes, afugentou soldados nazistas e voltou ao Brasil com vida e condecorações militares. Seus gestos heroicos estão sendo lembrados agora com o lançamento do livro “Cartas de um Piloto de Caça” (editora Ouro Sobre Azul), que reúne a correspondência mantida com a família e os amigos, além de um diário dos dias no front.
Com prefácio de Antonio Candido, que foi colega do rapaz na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, o livro é documento precioso: reúne uma iconografia inédita e depoimentos nunca antes publicados de um aviador brasileiro na Campanha da Itália.

 

Esse material foi descoberto há quatro anos por Heloisa Rocha Pires, filha do piloto, ao organizar os pertences do seu pai recém-falecido. São, ao todo, 63 cartas escritas entre maio de 1943, ano em que o jovem ingressou em um treinamento nos EUA, e junho de 1945, quando terminou a participação da FAB na guerra. O “senso de humor” do futuro tenente, ressaltado por Candido em sua apresentação, é uma constante na correspondência, que – supõe-se – visava tranquilizar os familiares diante dos riscos vividos a todo instante. Escreve Rocha: “Os nossos ataques têm desmoralizado tanto a famosa Luftwaffe que os pobres-diabos dos pilotos alemães nos evitam a todo custo. Eles só aparecem de vez em quando, e sempre se arrependem. A missão de nosso esquadrão é a coisa mais perigosa dessa guerra, mas, em compensação, é a mais gozada e emocionante.”

O tom muda radicalmente no diário. Ao descrever o bombardeio da ponte de Treviso, operação fundamental para neutralizar a mobilidade das tropas nazistas, Rocha dá a exata medida do que se passou. Após receber as ordens de “senta a pua”, famoso grito de guerra dos nossos pilotos, ele mergulhou de uma altura de oito mil pés. “Olhei o altímetro: 3.500 pés! As granadas de 20 mm já explodiam brancas lá atrás mais acima. Era hora de recuperar. Cuidado com as .50, pensei num relance. Comecei a levantar o nariz do avião, soltei as bombas e cabrei violento recuperando pela esquerda, enquanto de esguelha eu vi minhas bombas rebentarem uma sobre a ponte e a outra dentro do brejo.” Não resta dúvida: Fernando Corrêa Rocha é um herói brasileiro.


Clipping via Agência Força Aérea