COBERTURA ESPECIAL - Ecos - Guerras, Conflitos, Ações - Geopolítica

06 de Abril, 2012 - 11:21 ( Brasília )

Bósnia lembra os 20 anos da guerra e do assédio a Sarajevo


A Bósnia lembra nesta sexta-feira o 20º aniversário do início da guerra (1992-1995) com uma série de manifestações culturais e exposições para recordar as vítimas, as devastações e o assédio a Sarajevo. O ato principal, denominado "A linha vermelha de Sarajevo", lembrará as 11.541 vítimas mortas por parte das tropas servo-bósnias, que durou três anos e meio.

No cenário do evento, ao longo de 800 metros da rua principal de Sarajevo estarão 11.541 assentos vermelhos - um para cada vida perdida - em 825 fileiras. O evento, promovido pelo diretor de teatro Haris Pasovic, foi organizado pelas autoridades locais e um grupo de artistas.

Segundo dados do Centro de Pesquisas e Documentação bósnio, entre os mortos no cerco a Sarajevo 643 eram crianças. Para relembrar a guerra, será inaugurada nesta sexta-feira uma exposição do repórter fotográfico Fehim Demir. As fotografias, inquietantes e comoventes, mostram a crianças na guerra, pessoas feridas, destruições, prantos e funerais, e algumas também retratam soldados da força multinacional de paz UNPROFOR com coletes à prova de balas.

Já foi aberta no Museu histórico da Bósnia a exposição "Um longo caminho. Bósnia, a vergonha da Europa", do espanhol Miguel Ruiz, que fotografou a guerra. A mostra, dedicada às vítimas e aos refugiados de todos os conflitos do mundo, foi organizada pelo Museu histórico bósnio com a ajuda da Catalunha (Espanha).

Por causa do aniversário, se reunirão nesta sexta-feira centenas de jornalistas de todo o mundo que cobriram a guerra da Bósnia, entre 1992 a 1995. A reunião é uma iniciativa do repórter francês Remy Ourdan e do Festival MESS (Festival internacional de teatro de Sarajevo), apoiada por outros jornalistas.

O assédio a Sarajevo é considerado o mais longo da história do século XX. As tropas servo-bósnias dispararam milhares de projéteis contra a cidade desde as colinas próximas, enquanto francoatiradores aterrorizaram a população civil. Na guerra bósnia morreram mais de 98 mil pessoas, e pela primeira vez foi realizada a limpeza étnica e o genocídio na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Cerca de um milhão de habitantes dos mais de quatro que a Bósnia tinha antes da guerra abandonaram seus lares.

Bósnia segue dividida e pobre 20 anos após a guerra

"As feridas da guerra seguem profundamente ancoradas nas relações entre as três comunidades, muçulmana, sérvia e croata, que participaram na guerra", explica Raif Dizdarevic, um dos últimos presidentes da Federação Iugoslava, antes da violenta divisão nos anos 90. "A Bósnia é prisioneira das forças nacionalistas, as divisões se aprofundam e o país retrocede", lamenta.

Sérvios e croatas não informaram até o momento se pensam em organizar algum ato pelo aniversário, que será lembrado em Sarajevo com um concerto na principal avenida do centro da cidade, com milhares de cadeiras vazias em memória dos mais 10.000 habitantes da cidade mortos durante o cerco da cidade pelas forças sérvias, que durou três anos.

Mais de 100 jornalistas e fotógrafos que cobriram o conflito retornaram a Sarajevo. A premissa da guerra na Bósnia remonta a 1° de março de 1992, quando os muçulmanos e os croatas - majoritários - disseram 'Sim' à independência em um referendo boicotado pelos sérvios.

"Penso que esta tentativa de impor aos sérvios a decisão foi um erro", afirma o analista bósnio Esad Hecimovic, antes de destacar que os sérvios já se beneficiavam do apoio militar do regime no poder em Belgrado. Hecimovic ressalta ainda que o líder muçulmano da época, Alija Izetbegovic, que seria o primeiro presidente da Bósnia independente, apostou em demasia em um apoio da comunidade internacional para impedir uma guerra cuja ferocidade era previsível.

O fim do conflito foi marcado pelo massacre executado pelas forças sérvias em Srebrenica (leste) em julho de 1995, no qual morreram 8.000 muçulmanos, que a justiça internacional classificou de genocídio. Quatro meses depois, os acordos de paz de Dayton (Estados Unidos), negociados sob pressão internacional, terminaram com o conflito, mas consagraram a divisão da Bósnia em duas entidades, uma sérvia e outra croato-muçulmana, cada uma com um alto grau de autonomia e unidas por instituições centrais frágeis.

"O diálogo entre as entidades não existe, estão divididas por um muro", afirma Dizdarevic. Esta divisão e suas crises políticas incessantes afetam o futuro do país e sua ambição de entrar para a União Europeia (UE). A Bósnia é, de fato, um dos países mais pobres da Europa, onde o desemprego afeta mais de 40% de seus 3,8 milhões de habitantes, com 25% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, segundo a ONU.

Os protagonistas da guerra estão detidos, estão sendo julgados por crimes de guerra pela justiça internacional ou faleceram. Os líderes políticos e militares sérvios da Bósnia durante o conflito, Radovan Karadzic e Ratko Mladic, que durante anos fugiram da justiça internacional, foram detidos e estão sendo julgados por genocídio no Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia.