COBERTURA ESPECIAL - Ecos - Guerras, Conflitos, Ações - Geopolítica

09 de Março, 2012 - 11:31 ( Brasília )

Doutrina de Eisenhower: passados 55 anos


A 9 de março de 1957, o Parlamento americano aprovou uma doutrina de política externa voltada para reforçar posições de Washington no Oriente Próximo e Medio. O documento foi elaborado pelo presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, e o secretário de Estado, John Foster Dulles. Segundo a doutrina, qualquer país podia solicitar ajuda econômica ou militar aos Estados Unidos, se for agredido por um outro Estado. No fundo, o presidente obtinha o direito a utilizar, a critério próprio, força militar naquela região. Mas as autoridades americanas colocaram-se também um outro objetivo: enfraquecer a influência da URSS naqueles países.

A aprovação da nova doutrina pelos Estados Unidos foi uma reação ao fracasso da agressão britânico-franco-israelita contra o Egito em 1956, ligada ao destino do canal de Suez, uma das principais vias aquáticas no mundo. A União Soviética desempenhou um papel importante no conflito, denominado como a crise de Suez. O líder soviético, Nikita Khruschev, ameaçava com medidas duras a Inglaterra, França e Israel, até prometendo assestar contra elas golpes de mísseis. O semelhante cenário poderia levar a uma guerra nuclear entre a União Soviética e os Estados Unidos que inevitavelmente iriam proteger os seus aliados. Em resultado, Washington exigiu que os agressores renunciassem a ações militares.

No fundo, a doutrina visava não apenas reforçar a influência dos Estados Unidos no Oriente Médio e Próximo, mas também criar na região uma cabeça-de-ponte contra o campo socialista, em primeiro lugar contra a União Soviética. Eisehower expressou abertamente a disposição das tropas americanas a proteger a integridade territorial e a independência dos países que precisavam de ajuda contra a agressão de qualquer nação controlada pelo “comunismo internacional”.

Foi desta “ameaça” que os Estados Unidos pretendiam proteger os países árabes, instalando na região a sua própria hegemonia através da ingerência nos assuntos internos e do controlo da política externa. Em 1957, a doutrina de Eisenhower foi aplicada sob pretexto da defesa da Jordânia contra a “agressão” da Síria. Em 1958, os Estados Unidos empreenderam uma intervenção militar aberta contra o Líbano e, passados nove anos, apoiaram uma agressão armada de Israel contra países árabes.

Após a desintegração da URSS, que foi um contrapeso dos Estados Unidos na região, Washington intensificou os esforços dos quais se fala na doutrina. Contudo, as realidades de hoje obrigarão os Estados Unidos a corrigir a sua posição em relação à política no mundo árabe, considera o dirigente do Centro de Estados Orientais da Academia Diplomática do MRE da Rússia, Andrei Volodin.

"Como parecia na altura, os Estados Unidos não tinham obstáculos para construir um mundo unipolar e para obter o papel decisivo no Oriente Próximo. Mas muitas coisas mudaram, em primeiro lugar o mundo em que os Estados Unidos continuam a ser o país mais forte. Mas este mundo já não se pode desenvolver-se segundo as leis determinadas pelos Estados Unidos. Neste mundo já é necessário comensurar os seus interesses e ações com interesses de outros países. Esta mudança principal irá definir a política dos Estados Unidos no Oriente no próximo decénio. Este será um processo de adaptação doentia da política americana às realidades que se formam na região independentemente da vontade dos Estados Unidos."

Hoje, os lemas dos Estados Unidos e de outros países do Ocidente sobre a democracia tornam-se frequentemente um pretexto para o derrubamento de regimes indesejável, como acontece na África do Norte. Eis a opinião de Andrei Volodin:

"A interferência nos assuntos internos de outros países contraria não apenas a Carta da ONU, contraria o bom senso. Os Estados Unidos e os seus aliados mãos próximos – França e Inglaterra, tentam impor um regime político cômodo para eles em alguns países do Oriente Médio e Próximo. Mas esta prática é condenada com evidência ao fracasso, porque, manifestando-se pela democracia à americana na Síria e na Líbia, todos nós vemos que tipo de democracia se formou na Líbia. Espero que isso não aconteça na Síria."

É evidente que os interesses geopolíticos e econômicos das maiores potências mundiais continuarão a ser entrelaçados no Oriente Médio e Próximo. A Rússia formulou nitidamente os princípios que devem ser observados pelos membros responsáveis da comunidade internacional nesta região muito complexa: a não ingerência nos assuntos internos dos países, a sua unidade e a integridade territorial. Contudo, as ações dos Estados Unidos e dos seus aliados no Iraque e na Líbia levaram de fato ao caos e à ruina daqueles países.