COBERTURA ESPECIAL - Ecos - Guerras, Conflitos, Ações - Geopolítica

28 de Dezembro, 2011 - 10:37 ( Brasília )

Um pai no meio da disputa pelas Malvinas

Primeiro nativo da ilha controlada pelos britânicos a ter cidadania argentina é visto como traidor por alguns moradores

Com a barba por fazer, braços tatuados e um maço de cigarros no bolso da camisa, James Peck, um pintor de paisagens inspirado pelo mestre inglês J. M. W. Turner, parece se encaixar muito bem entreos expatriados boêmios que rotineiramente aparecem nos bares e cafés de Buenos Aires, na Argentina.

Mas Peck é visto como um herói por alguns em Buenos Aires, onde fez sua nova casa, e como traidor por outros nas ilhas Malvinas, onde nasceu e foi criado. E ele é muito mais que apenas um estrangeiro qualquer morando na Argentina.

Ao pisar em um dos locais da América do Sul que tem uma das piores disputas territoriais, Peck é a primeira pessoa das Ilhas Malvinas a obter a cidadania argentina desde a guerra de 1982 entre a Argentina e o Reino Unido pela posse do arquipélago. O conflito de 11 semanas deixou mais de 900 mortos e deu a ilha aos britânicos.

Peck, que compareceu a uma cerimônia em Buenos Aires ao lado da presidente Cristina Kirchner para receber sua carteira de identidade, se viu em meio a uma disputa diplomática pelas Malvinas, que recentemente atraiu grandes investimentos no setor de petróleo, pesca e turismo, trazendo de volta a sensação de um conflito que estava adormecido.

Neste mês, o Reino Unido se irritou ao ler relatórios de navios de patrulha argentinos interceptando barcos de pesca espanhóis em águas disputadas pelos dois países. Enquanto isso, os planos britânicos para uma zona de proteção do meio marinho perto das Malvinas provocou uma resposta desdenhosa dos oficiais militares argentinos na região.

A disputa chegou ao mais alto nível do governo este ano. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, reafirmou o controle das ilhas em junho, pouco depois de Kirchner ter dado a Peck sua cidadania. E recebeu Ban Ki-Moon, o secretário-geral da ONU, para discutir a reivindicação das Ilhas Falkland, que são chamadas de Malvinas pelos argentinos.

"Enquanto as Ilhas Falkland continuar querendo ser um território britânico soberano, eles devem permanecer território britânico soberano", disse Cameron."Ponto final. Fim da história."

Muito irritada com a declaração, Cristina respondeu dizendo que o Reino Unido é um "poder colonialista em declínio" e acusou Cameron de estar sendo "medíocre e estúpido”.

Em novembro, almirantes aposentados britânicos decidiram retirar o único navio de carga militar da região, alegando que esta decisão "praticamente convidou" a Argentina a invadir as "valiosas" Ilhas Falkland e seus campos de petróleo."

O Reino Unido mantém cerca de mil militares nas ilhas, e no próximo ano, o 30 º aniversário da derrota da Argentina na guerra, o Príncipe William deve ser designado para as atuar nas Malvinas como piloto de resgate de helicóptero, um movimento considerado "ato de provocação" pelas autoridades argentinas.

Mas voltando a Peck, 43 anos, que à primeira vista parece uma figura improvável de estar no meio de todo esse tumulto. Como muitos dos outros três mil kelpers, maneira na qual naturais das ilhas são frequentemente chamados por causa da alga local, ele é um descendente de imigrantes ingleses do século 19.

Seu pai, Terry, era policial e herói da resistência contra a invasão da Argentina, participou de espionagens para as forças britânicas e lutou ao lado de um regimento de paraquedas na batalha de Monte Longdon.

Peck tinha apenas 13 anos na época da guerra, mas depois de completar 18, disse em uma entrevista que havia servido nas Forças de Defesa das Ilhas Falkland, uma unidade de voluntários, onde "você aprende a usar uma arma e coisas do gênero”.

Ele trocou as armas por pincéis quando viajou para estudar arte em Londres. Seu tempo fora deu-lhe novas perspectivas sobre sua casa, focando mais em detalhes linguísticos que, segundo ele, falam mais da história do arquipélago do que os relatos de guerra de ambos os lados.

Ele percebeu que "che", um termo de afeto que os kelpers utilizam e que Peck utilizava para chamar sua mãe, devia ter vindo da Argentina. E ele supôs que um outro termo, "o acampamento", utilizado para descrever extensões áridas do arquipélago, é derivado da palavra em espanhol "campo".

Na verdade, os laços entre as Malvinas e a Argentina, que diz ter a soberania sobre as ilhas desde 1833, quando o Reino Unido restabeleceu seu domínio do arquipélago, nem sempre foram tão tensos.

Criadores de ovelhas costumavam trafegar entre o sul da Patagônia e as ilhas. E até o século 20, algumas famílias das Malvinas enviavam seus filhos para escolas em Buenos Aires, como a Saint Andrew Scots School, que atendem à comunidade de língua inglesa.

Peck disse que suas primeiras viagens a Buenos Aires na década de 1990 faziam com que ele se sentisse como se estivesse experimentando um fruto proibido. Ele foi à cidade para mostrar suas pinturas, algumas das quais tinham a guerra e suas cicatrizes psicológicas como tema. Ele conheceu uma mulher argentina. Eles se casaram e tiveram dois meninos, que agora tem 9 e 5 anos.

Vivendo com sua esposa em Stanley, capital das Malvinas, revelou-se difícil, disse Peck, em parte por causa da hostilidade contra ela. E porque a Argentina ainda limita vôos para as ilha, era preciso voar para casa via Chile.

Quando sua esposa voltou para a Argentina com seus filhos, Peck foi junto, embora já divorciados. Ele disse que sua decisão de obter a nacionalidade argentina foi em grande parte para ser capaz de viver mais perto de seus filhos.

Considerado um traidor por alguns nas Ilhas Falkland, incluindo as pessoas que cresceram com ele, Peck descreveu ameaças de morte que recebeu por e-mail. As ameaças fizeram com que o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Hector Timerman, entrasse em uma luta nas Nações Unidas alegando que o Reino Unido seria culpado caso Peck sofresse danos de "fanáticos" nas ilhas. "Em um mundo com uma maneira uniforme de se pensar, isso pode ser considerado uma traição", disse ele. "Mas na minha mente não é."

"Ele é um jovem confuso", disse Mike Summers, 59, membro da Assembleia Legislativa das Malvinas, em entrevista por telefone. "Realmente é uma situação triste. Se seu pai ainda estivesse vivo, todo esse episódio poderia ter lhe dado um ataque cardíaco.”

Ainda assim, Peck continua confiante em sua decisão. Lentamente, ele está construindo uma vida em Buenos Aires. O Arquivo Nacional deu-lhe um trabalho no setor de restauração de documentos. Ele também canta em uma banda de rock chamada El Documento. Ele disse que ainda sente como se estivesse no lado certo da história, e declarou-se um forte partidário de Cristina.

"A América do Sul tem um monte de recursos", disse ele, referindo-se às perspectivas do continente em meio da crise da economia do outro lado do Atlântico. “O que a Europa tem?"

Ainda assim, as Ilhas Falkland ou Malvinas, que se encontram no meio disso tudo, são uma outra questão.

Para Peck, as ilhas têm algo de que às vezes sente falta: a inspiração. Ele ainda tem saudades das paisagens desertas que influenciam seus quadros surpreendentes.

"A verdade é que prefiro pintar nas ilhas", disse ele. "Quero dizer, saio do meu estúdio, às vezes por volta das 2h da manhã e é como se não houvesse mais nenhuma alma viva no local. Não há nada."

Por Simon Romero