COBERTURA ESPECIAL - Ecos - Guerras, Conflitos, Ações - Geopolítica

27 de Setembro, 2011 - 11:18 ( Brasília )

Hugo Boss lamenta uso de trabalhadores forçados durante o nazismo

Livro sobre história da grife revela que trabalhadores foram obrigados a fabricar uniformes para o regime de Hitler. Empresa diz que financiou pesquisa para ter mais clareza sobre seu passado.

Sinônimo de moda e elegância, a grife mundialmente famosa Hugo Boss desculpou-se por ter maltratado pessoas que trabalhavam forçadamente na fábrica de uniformes nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

O pedido de desculpas foi divulgado na última quinta-feira (22/09) após revelações feitas no livro Hugo Boss, 1924-1945 – Eine Kleiderfabrik zwischen Weimarer Republik und "Drittem Reich" (Uma Fábrica de Roupas entre a República de Weimar e o Terceiro Reich), financiado pela companhia, que conta a história da empresa e sua relação com o regime nacional-socialista.

De acordo com o pesquisador Roman Köster, autor do livro, a confecção de Hugo Ferdinand Boss, que funcionava na cidade de Metzingen, sul da Alemanha, empregava mão de obra forçada durante a guerra.

A firma Hugo Boss, que já foi chamada de "alfaiate de Hitler", afirma que financiou a pesquisa de Köster com o intuito de acrescentar "clareza e objetividade" às discussões sobre sua história.

"A empresa também lamenta profundamente por aqueles que sofreram ofensas e passaram por dificuldades na fábrica dirigida por Hugo Ferdinand Boss sob o jugo do nazismo", afirma a marca em sua página na internet.

Boss nazista

Boss entrou para o Partido Nacional Socialista em 1931, quando a empresa começou a sentir o impacto da crise econômica no país. A Hugo Boss escapou da falência graças à produção de uniformes para soldados alemães das forças paramilitares SA e SS, além da Juventude Hitlerista.

Como era difícil encontrar mão de obra durante a guerra, a fábrica se beneficiou de 140 trabalhadores forçados – a maioria deles, mulheres. Outros 40 prisioneiros de guerra franceses trabalharam para a Hugo Boss entre 1940 e 1941.

"O fato de se tornar membro do partido em 1931 certamente não o incomodou, mas se você olhar para o resto da carreira de Boss, aí fica claro que ele não entrou para o partido apenas por causa de cálculos financeiros. É possível ver claramente que ele era um nazista convicto", afirma Köster, que realizou pesquisas sobre a vida de Hugo Boss na Universidade das Forças Armadas Alemãs em Munique.

Hugo Boss começou sua carreira como um simples alfaiate. Após a Primeira Grande Guerra, aos 33 anos de idade, ele fundou sua própria confecção em Metzingen. Nesta época, a produção contava apenas com 30 funcionários e tinha um relativo êxito – longe do atual sucesso internacional da grife, que veio a ser alcançado anos mais tarde.

De início, paralelamente à fabricação de uniformes, que era compartilhada com outras alfaiatarias, a Hugo Boss também produzia roupas normais para trabalhadores e camisas. Em 1938, conta Köster, a situação mudou com o reinício do recrutamento militar na Alemanha. O foco passou a ser exclusivamente a confecção de uniformes para as forças nazistas. A empresa chegou a contar com 300 funcionários nesta época.
 

Outros passados

A Hugo Boss não é a única empresa a encomendar estudos independentes para resgatar os laços com o nazismo no passado. Este ano, a Quandts, família de industriais e acionista majoritária da BMW, quebrou seu silêncio. Ela admitiu ter feito uso de milhares de trabalhadores forçados e de terem fechado vários negócios com o governo nazista.

Em 1999, o Deutsche Bank encomendou uma investigação interna sobre as práticas de empréstimo da companhia durante o período nazista. Foi revelado que créditos do banco foram usados para erguer o campo de concentração de Auschwitz.

O Ministério alemão de Assuntos Estrangeiros também fez uma busca sobre seu passado e descobriu que muitos de seus diplomatas dos anos 1950 e 1960 tiveram passado nazista.

Segundo estudos, cerca de 90% das empresas alemãs se beneficiaram do trabalho escravo ou semiescravo durante a Segunda Guerra Mundial. Calcula-se que no final de 1944 havia, em toda a Alemanha, 7,7 milhões de trabalhadores forçados em todo o país.

Para compensar as vítimas, o governo alemão estabeleceu um fundo de reparação no final dos anos 1990. Empresas com passado nazista disponibilizaram recursos para o fundo, entre elas a Hugo Boss.

Fabricação de ternos

Durante o período de desnazificação, com o fim do regime, em 1945, Boss foi considerado como "reponsável". Apesar disso, ele foi autorizado a continuar tocando sua fábrica, afirma o estudo de Köster.

Boss não viveu tempo suficiente para ver sua empresa virar uma grife mundialmente famosa. Ele morreu em 1948 em Metzingen, sua cidade natal. Gerenciada pelos filhos, a Hugo Boss, passou a se dedicar à produção de ternos bem cortados, pelos quais atualmente é conhecida. Há alguns anos a empresa foi vendida e seus atuais donos não têm mais relação com a família Boss.

Autores: Friedel Taube / Mariana Santos
Revisão: Carlos Albuquerque