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19 de Março, 2018 - 11:00 ( Brasília )

O soldado que transformou em música uma batalha histórica para o Brasil na 2ª Guerra


André Bernardo

Aos primeiros acordes das canções - compostas e cantadas pelo pai deles, o então cabo da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Natalino Cândido da Silva, e gravadas em um acampamento na Itália em 1945 pelo correspondente de guerra da BBC, Francis Hallawell -, os cinco não conseguem segurar a emoção.

"Bate uma saudade!", suspira Claudecir, com os olhos marejados. "Não éramos pai e filhos, entende? Éramos amigos!", derrete-se a caçula.

Claudete, a mais falante do grupo, concorda: "Apesar da pouca escolaridade, o pai se expressava muito bem", orgulha-se, tamborilando com os dedos na mesa. "É emocionante saber que uma pessoa tão simples conseguiu escrever seu nome na história do Brasil", reconhece, enquanto cantarola um trecho do samba.

Claudete, Claudecir e Cleusa (da esq., sentadas), Claumir e Cláudio (da esq, em pé): 'Bate uma saudade!'
Foto: Renata Bernardo

As duas músicas se destacam entre as 16 canções gravadas na Itália por Hallawell, o "Chico da BBC", nos oito meses em que acompanhou a FEB munido de um aparelho que registrava os sons captados por seu microfone em discos especiais de alumínio cobertos por um laque de acetato.


Sambas nascidos na campanha

As canções foram compostas por Natalino durante a Segunda Guerra em diferentes ocasiões. "Não tenho uma preferida. Pela importância histórica, gosto das duas por igual", despista Claudete. A primeira delas, Pro Brasileiro, Alemão é Sopa, quase uma marchinha de Carnaval, ganhou vida pouco depois da conquista de La Serra, no dia 23 de fevereiro de 1945.

Na letra, Natalino incorpora palavras de origem italiana (como "paúra", que significa "medo") e faz alusão contante a "Lurdinha". "Até hoje, muita gente pensa que Lurdinha era o nome da nossa mãe", confessa Claudete, antes de desvendar o mistério: "Era o apelido dado à metralhadora dos alemães", e cai na risada.

A origem do "Lurdinha", esclarece Cesar Campiani Maximiano, doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), nunca foi totalmente esclarecida. Segundo alguns historiadores, a metralhadora alemã MG-42 passou a ser conhecida assim graças ao barulho característico da máquina de costura de Maria de Lourdes, a noiva de um recruta.

Outra versão, porém, sustenta que sua rajada de tiros (1,8 mil por minuto) lembrava o tagarelar da namorada de outro expedicionário. "Cada unidade tinha suas próprias gírias e expressões, mas 'Lurdinha' foi um dos poucos termos que se espalhou por toda a FEB", afirma o historiador.

Metalúrgico de Niterói, Natalino compôs duas das canções mais emblemáticas feitas na Itália pelos pracinhas.
Foto: Acervo de família

Crônica musical

A segunda música de Natalino é uma embolada, ritmo típico do Nordeste, chamada Onde Vi Tanto Tedesco. Dessa vez, homenageia o Major Syzeno Ramos Sarmento (1907-1983), que comandou o 2º Batalhão do 1º Regimento de Infantaria (RI), conhecido como Regimento Sampaio, e cita algumas peças de artilharia, como o canhão 88 mm e o morteiro 60 mm. Quanto ao "tedesco" do título, era a forma abrasileirada de os pracinhas se referirem aos alemães ("tedeschi", em italiano).

"Se alguém quiser saber como foi a tomada de Monte Castello, aconselho a ouvir essa canção", recomenda Vinícius Mariano de Carvalho, professor e pesquisador do Brazil Institute do King's College, em Londres. "É fantástica!".

 

Na ocasião, Natalino teve a oportunidade de conhecer outros "pracinhas-cantores", como José Pereira dos Santos, autor de Tedeschi Portare Via ("Alemão Levou Tudo!", em tradução livre), frase que os italianos usavam para pedir ajuda aos pracinhas brasileiros; Malagueta, de Caminha Barco Caminha e O Morto Vivo, e Pieri Júnior, de Sorrindo e Cantando.

"Essas canções serviram aos mais diferentes propósitos: exaltar o espírito de bravura de uma unidade, extravasar a tensão do combate e, até mesmo, homenagear companheiros mortos", explica Maximiano.

Inferno gelado

Muita gente acha que Lurdinha é nome de nossa mãe', contam os filhos; a 'Lurdinha' citada em músicas de Natalino
(acima à esq.) é o nome que os pracinhas deram a metralhadora alemã; a mãe se chama Guiomar (acima à dir.)
Foto: Renata Bernardo

O caminho que Natalino percorreu até desembarcar na Itália foi longo. Nascido em 1919, na cidade de Niterói, a 15 km do Rio, ele não chegou a conhecer o pai, um caixeiro-viajante. Já a mãe, analfabeta, ganhava a vida como lavadeira.

"Para ajudar no sustento de casa, parou de estudar na quarta série. E começou a trabalhar, ainda garoto, numa plantação de abacaxi", conta Claumir, sem disfarçar o orgulho.

Adolescente, Natalino virou metalúrgico. Nas horas de folga, gostava de dedilhar seu violão e compor algumas modinhas. Quando completou 18 anos, ingressou no Exército. Em julho de 1944, com apenas 25 anos, foi mandado para a guerra. "Na época, o pai já namorava Dona Guiomar", relata Claudete. "Apesar da distância, os dois se comunicavam através de cartas."

Assim que pisou em solo italiano, Natalino descobriu que os alemães não seriam seus únicos adversários. Um deles era o frio. Nos Montes Apeninos, a temperatura chegava a 20 graus abaixo de zero. Para manter os pés aquecidos, colocava palha e jornal dentro das galochas.

"Meu pai contava que eles não tinham agasalhos. Os americanos é que emprestavam", entrega Claumir. Outro inimigo era a fome. Tomar banho quente, dormir em colchão ou comer algo menos indigesto que as rações de combate eram privilégios que os soldados não tinham no front.

"Ninguém estava preparado para o inferno que eles encontraram lá. Sobreviveram graças à comida que ganhavam dos americanos", reitera Claudete. Se o frio era intenso e a comida escassa, o armamento era precário. Tanto que os americanos tiveram que fornecer fuzis e metralhadoras para os brasileiros.

Entre patrulhas e missões, os expedicionários da FEB se acomodavam como podiam em casas, celeiros e estábulos abandonados. "Certa vez, o pelotão do pai encontrou abrigo numa igreja. Mas, o padre dedurou a presença deles e, quando menos esperavam, os alemães começaram a bombardeá-los", puxa pela memória Cláudio.

Durante o dia, o risco de morte era iminente. Houve expedicionário que voou pelos ares após pisar em mina terrestre ou, então, ser atingido por uma granada. À noite, dormir era praticamente impossível. Na melhor das hipóteses, cochilavam de pé ou se escondiam em foxholes ("buracos de raposa", em inglês), nome dado às trincheiras cavadas no chão.

"Tudo era desgastante, mas o pai dizia que nada se comparava à tristeza de perder um companheiro no campo de batalha", Claudete diz, enxugando as lágrimas dos olhos. "Quando tinha de matar um alemão, o pai se lembrava dos companheiros mortos. 'Era ele ou eu', limitava-se a dizer". E abria fogo.

Amargo regresso

'Quando tinha que matar um alemão, o pai se lembrava dos companheiros mortos. 'Era ele ou eu', dizia'
Foto: Renata Bernardo

O caminho de volta também não foi dos mais fáceis. "Com a extinção da FEB, em 1945, os pracinhas se sentiram totalmente abandonados pelo governo brasileiro", critica Claumir. "A maioria dos ex-combatentes foi dispensada. Diante disso, muitos piraram".

O jeito foi recomeçar do zero. Mas, Natalino não se abateu. Depois de voltar à metalurgia, pediu a namorada em casamento e prestou concurso para o Estado. Aprovado, passou a trabalhar como funcionário público.

"Esse cara era um herói!", enaltece Claumir. A carreira artística, porém, caiu no esquecimento. Desgostoso, não compôs mais nada. Até do violão, amigo de todas as horas, se desfez. Só abriu uma exceção em 1965, quando foi convidado a gravar um LP intitulado Expedicionários em Ritmos pela extinta gravadora Chantecler. "Fizeram sucesso, mas nenhum deles se preocupou com os números de vendagem", dá de ombros Claudete.

Voltar à rotina foi difícil. Tanto quanto manusear um fuzil, desarmar uma mina ou invadir uma casamata. Logo, Natalino começou a sofrer de "neurose de guerra". "Bastava ouvir um barulho para ficar nervoso. Às vezes, até um pouco agressivo", recorda Claudete.

Os médicos, então, o aconselharam a se mudar para um lugar mais tranquilo. Foi quando surgiu a ideia, ainda nos anos 1960, de trocar o Rio por Petrópolis, na região serrana. O merecido reconhecimento só veio mais tarde, já nos anos 1980, quando o governo aprovou uma pensão para os ex-combatentes. Nesta época, Natalino passou a ganhar como terceiro sargento e, depois, como segundo tenente.

"Graças à Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (Anvfeb), a velhice do pai foi feliz", reconhece Claudete. "Algo que sempre gostou de fazer foi dar palestra em escolas".

Natalino Cândido da Silva, compositor autodidata que transformou os horrores da guerra em música e poesia, morreu no dia 9 de julho de 2017, aos 97 anos.


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