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08 de Junho, 2015 - 10:40 ( Brasília )

Militares brasileiros e pesquisadores americanos refazem expedição histórica


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Wilson Aquinio


Em 1914, o Coronel do Exército Brasileiro Cândido Mariano da Silva Rondon e o ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt lideraram uma aventura extraordinária. Juntos, eles comandaram a Expedição Científica Roosevelt-Rondon, cujo objetivo era traçar o curso de um rio inexplorado da Amazônia brasileira: o Rio da Dúvida. Apesar das adversidades, a missão foi cumprida, e o Rio da Dúvida ganhou um novo nome: Rio Roosevelt.

Um século depois da Expedição Científica Roosevelt-Rondon, dois militares brasileiros e dois pesquisadores americanos refizeram a jornada para comemorar a histórica expedição e documentar as mudanças ambientais ocorridas nesse período.

“Usamos os mesmos meios que a expedição original. Não houve motores, e descemos [o Rio Roosevelt] a remo [a bordo de caiaques e canoas], acampando e cozinhando”, diz Marc Meyers, professor de Ciência dos Materiais na Universidade da Califórnia, em San Diego.

Nascido no Brasil, o professor Meyers foi o idealizador da “Expedição Roosevelt- Rondon: 100 anos depois”. O projeto também contou com a participação do Coronel da Reserva Hiram Reis e Silva, pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx); do Coronel da Reserva do Exército Ivan Carlos Gindri Angonese; e do documentarista norte-americano Jeffrey Lehman, produtor do programa Weekend Explorer .

Figura lendária recria viagem

A partir da esquerda: o Coronel (r) Hiram Reis e Silva, o professor Marc Meyers, o Coronel do Exército (r) Ivan Carlos Gindri Angonese e o documentarista Jeffrey Lehmann repetiram a Expedição Científica Roosevelt-Rondon 100 anos depois. [Foto: Cortesia do Coronel Hiram Reis e Silva]

A partir da esquerda: o Coronel (r) Hiram Reis e Silva, o professor Marc Meyers, o Coronel do Exército (r) Ivan Carlos Gindri Angonese e o documentarista Jeffrey Lehmann repetiram a Expedição Científica Roosevelt-Rondon 100 anos depois. [Foto: Cortesia do Coronel Hiram Reis e Silva]

O Cel. Hiram é uma lenda viva no Brasil. A bordo de um caiaque, ele já navegou 11.300 quilômetros dos 23.000 km de rios amazônicos.

“Faço a historiografia dos rios. Verifico tudo o que se escreveu e aconteceu em cada um deles”, diz o Cel. Hiram, que também é professor do Colégio Militar, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Os quatro pesquisadores percorreram 581 km pelo Rio Roosevelt em 22 dias, entre 22 de outubro e 13 de novembro de 2014.

“Perdemos dois dias porque os índios Cinta-Larga não autorizaram a navegação em área circunvizinha à sua reserva”, diz o Cel Hiram.

Devido à restrição imposta pelos indígenas, os pesquisadores deixaram de percorrer 184 km, “que foram considerados os mais difíceis pela expedição original”, segundo o Cel Hiram. Mas, com exceção do pequeno incidente com a tribo indígena, a nova viagem pelo Rio Roosevelt foi tranquila – bem diferente da realizada no século passado.

Brasil convidou Roosevelt a comandar a expedição

Em 1913, Roosevelt realizava conferências pela América do Sul quando foi convidado pelo governo brasileiro a comandar a expedição. O ministro das Relações Exteriores na época, Lauro Müller, disse que o estadista americano poderia ajudar a difundir a imagem do Brasil no exterior. A expedição foi registrada em fotografias e diários escritos por Roosevelt, Rondon e outros integrantes da equipe, como o Capitão brasileiro Amílcar Armando Botelho de Magalhães. Não há consenso entre os historiadores sobre as datas da expedição; alguns dizem que durou dois meses, enquanto para outros durou oito. Mas todos concordam que a viagem foi uma dura provação que quase custou a vida de Roosevelt.

Sem saber o que enfrentaria, o grupo de 22 homens optou por canoas pesadas de madeira, que se mostraram inadequadas para atravessar as corredeiras e as 11 cachoeiras que surgiram. A alternativa foi abrir 10 km de caminho pela selva, carregando sete canoas feitas com troncos de madeira e cerca de uma tonelada de suprimentos. O grupo se expôs a todo tipo de insetos, como mosquitos transmissores de doenças tropicais, além de ser espreitado por índios que nunca haviam tido contato com o homem branco. Um dos cães da expedição foi encontrado morto, atingido por uma flecha.

Depois de menos de um mês, uma tragédia se abateu sobre a equipe: o membro da expedição Antônio Simplício da Silva foi arrastado por um redemoinho e desapareceu para sempre quando um dos barcos foi puxado pela correnteza em direção a uma queda d’água e afundou. O filho de Roosevelt, Kermit, que estava na mesma canoa, conseguiu sobreviver com grande dificuldade.

Exploradores lutaram contra insetos, fome e cansaço

A cada dia, a jornada ficava mais hostil. Sobraram apenas duas das sete canoas. Mantimentos foram perdidos. O grupo era constantemente importunado por formigas venenosas, pernilongos, marimbondos e abelhas, cobras, centopeias e escorpiões, além de índios hostis. Os exploradores estavam doentes, famintos e exaustos. Um dos momentos mais dramáticos foi quando Roosevelt machucou uma perna e a ferida infeccionou. O ex-presidente teve uma febre altíssima, obrigando a expedição a interromper a viagem. Roosevelt chamou o Cel. Rondon e disse que não poderia mais prosseguir, pedindo que fosse deixado para trás. Obviamente, não foi atendido.

Enquanto isso, outra ameaça surgida de dentro do grupo agravou o perigo: à medida que os suprimentos chegavam ao fim, um soldado forte conhecido como Júlio começou a roubar comida. Ele foi flagrado pelo Sargento Manoel Vicente da Paixão, do Batalhão de Engenharia, e repreendido; como resposta, Júlio pegou uma carabina e atirou no Sargento Paixão, matando-o, e fugiu pela mata. Roosevelt e Rondon enterraram o Sargento na floresta; Júlio desapareceu.

Coronel Rondon é promovido; Roosevelt escreve um livro

Depois de 59 dias sem ver ser humanos que não fossem da equipe, a expedição finalmente chegou a uma área habitada. Ao avistar as duas canoas, os ribeirinhos fugiram pensando se tratar de um ataque de índios, já que até então ninguém se atrevera a explorar aquele caminho.

Nesse ponto, a expedição chegou ao fim. Roosevelt, Rondon e equipe percorreram 750 km de cursos de água e conseguiram definir o traçado do rio, até então desconhecido. Roosevelt retornou para os Estados Unidos e escreveu a história da expedição no livro “Through the Brazilian Wilderness”, publicado em 1914; mas ele nunca recuperou totalmente a saúde desde a jornada e morreu em 6 de janeiro de 1919.

O Cel. Rondon foi promovido a General. Em 1955, quando completou 90 anos, o Congresso Nacional lhe concedeu o título de Marechal, o mais alto posto do Exército Brasileiro. Por conta de seu pioneirismo em defesa dos povos indígenas, passou a ser conhecido como “Marechal da Paz”.

Em 1956, uma região da Amazônia brasileira foi rebatizada em sua homenagem, passando a se chamar Território Federal de Rondônia. Em 1982, Rondônia passou à condição de estado do Brasil.