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08 de Novembro, 2014 - 11:25 ( Brasília )

"Tentamos reagir antes de Gorbachev", diz Bush pai sobre queda do Muro

Em entrevista à DW, ex-presidente americano afirma que recebeu notícia com cautela e conta a estratégia usada com a antiga URSS para acabar com a divisão entre Leste e Oeste e reunificar a Alemanha.

Quando, há 25 anos, em plena Guerra Fria, o Muro de Berlim caiu, George H.W. Bush era o presidente dos Estados Unidos. Em entrevista à DW, ele conta a estratégia usada ante o então líder soviético, Mikhail Gorbachev, para acabar com a divisão entre Leste e Oeste, relembra como vivenciou aquele 9 de novembro de 1989 e analisa o atual papel da Alemanha na política mundial.

DW: Quando o senhor, hoje com 90 anos, olha para aquele 1989, como lembra a queda do Muro de Berlim?

George H.W. Bush: Embora pessoalmente exultante com o que parecia ter acontecido, eu estava cauteloso em conceder comentários apressados para a mídia. Tivemos de ser cuidadosos quanto à maneira como elaboraríamos nossa resposta àquela boa notícia, e antecipar não só a reação do então presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, como também a da oposição a ele na União Soviética. Não foi um momento para se vangloriar.

Como o senhor e o então chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Kohl, conseguiram convencer Gorbachev de que a Alemanha deveria ser reunificada e tornar-se membro da Otan?

Nós trabalhamos muito para definir um tom construtivo e colaborativo quando a Reunificação estava sendo debatida. Sentimos fortemente que a Reunificação e uma nova Europa, unida e livre, não deveria vir à custa de outras nações. Tinha de vir com e através delas – o Leste e o Oeste juntos. Estávamos conscientes de que não podíamos colocar as mudanças que estavam ocorrendo à nossa volta em termos de vencedores e perdedores.

Kohl ressaltou que a relação de proximidade e confiança com o senhor era essencial para uma bem-sucedida Reunificação da Alemanha. O senhor se lembra das decisões mais cruciais que teve de fazer?

A única decisão crucial que tínhamos – se apoiaríamos ou não a Reunificação alemã – no fim não foi uma tarefa difícil, principalmente devido à relação próxima e de confiança à qual você se refere.

Em seu discurso ao povo alemão sobre a Reunificação da Alemanha [em 2 de outubro de 1989], o senhor disse que "um mundo sem o Muro significaria que a Alemanha contribuiria plenamente como uma força para a paz e a estabilidade mundial". O país atendeu a suas expectativas?

Sim, e mais um pouco! Ver uma Alemanha unida enfrentar os difíceis desafios associados à unificação e então passar a desempenhar um papel de liderança e construtivo sobre uma série de questões regionais e globais tem sido realmente maravilhoso testemunhar.

Desde a participação no que o senhor chamou de uma parceria com a Alemanha na liderança, o mundo mudou drasticamente de uma forma que afeta a relação com os Estados Unidos. O senhor acha que o compromisso de ambos os países na Otan ainda é forte o suficiente para enfrentar os novos desafios globais, como a crise na Ucrânia ou a turbulência no Oriente Médio?

Eu sou otimista quanto aos Estados Unidos e à Alemanha e quanto ao nosso futuro comum. Em grande parte porque acredito que há mais pessoas que o suficiente, em ambos os países, parar entenderem como nós podemos realizar muito mais como aliados e parceiros do que poderíamos fazer da outra forma.

A Alemanha quer ter mais responsabilidade nas relações exteriores. Na sua opinião, isso significa que a Alemanha deve reforçar a sua contribuição militar para a coalizão liderada pelos Estados Unidos no combate ao grupo "Estado Islâmico"?

Vou deixar que a chanceler Angela Merkel, por quem tenho grande respeito, e seus assessores resolvam essa questão interna da Alemanha. Eu nunca fui muito de distribuir conselhos não solicitados, e menos ainda aos 90 anos.

Em seu discurso de 1989, o senhor enfatizou que os americanos e alemães compartilham dos mesmos valores. Desde as revelações da NSA (Agência de Segurança Nacional americana), pesquisas mostram que os alemães discordam das espionagens, e desconfiam dos Estados Unidos. O que precisa ser feito para restabelecer a confiança e fortalecer os laços entre a Alemanha e os Estados Unidos?

Espero que o aniversário que estamos ressaltando atualize em nossas mentes coletivas o compromisso sério que o povo americano e seu governo têm feito para a Alemanha e a prosperidade do país, lembrando não só a partir de 1989, mas também desde 1945. Espero que quaisquer irritações recentes e reais que possam ter surgido não façam obscurecer essa imagem muito maior e mais duradoura.