COBERTURA ESPECIAL - Ecos - Guerras, Conflitos, Ações - Geopolítica

27 de Junho, 2014 - 12:41 ( Brasília )

Fronteiras arbitrárias são origem histórica de conflitos no Oriente Médio

Antes mesmo do fim do Império Otomano, Reino Unido e França traçaram fronteiras na região, segundo seus interesses econômicos e alheias ao destino das populações locais. As consequências se fazem sentir hoje.

Um coronel britânico e um cônsul-geral francês são os responsáveis pela dramática situação no atual Iraque: Mark Sykes e François Georges-Picot desenvolveram em 1916 o documento secreto que leva seu nome. No Acordo Sykes-Picot, eles regulavam a partilha dos territórios do "antigo" Império Otomano, sem que a população local tivesse conhecimento.

O detalhe picante é que àquela altura o Império Otomano ainda existia. Seus últimos califas – líderes políticos e espirituais em uma só pessoa – foram os sultões Mehmet 5° (1909-1918) e Mehmet 6° (1918-1922). Politicamente, o califado otomano terminou em novembro de 1922, com a fundação da República da Turquia por Kemal Atatürk. O califado espiritual dos otomanos perdurou até março de 1924, quando, por iniciativa de Atatürk, uma lei foi aboliu o Parlamento turco.

Fronteiras com cálculo político

As duas principais potências militares da época, Reino Unido e França, tinham grande interesse na região entre o Mar Mediterrâneo e o Golfo Pérsico. Em Londres, já no início do século 20 os responsáveis haviam reconhecido a importância que poderia ter o acesso às fontes de extração de petróleo. Além disso, a região se localizava bem no caminho da principal colônia dos britânicos, a Índia.

O governo em Paris, por sua vez, possuía uma longa história de relações comerciais com os grandes portos da costa do Mediterrâneo, como Beirute, Sídon e Tiro, as quais queria assegurar por meio do Acordo Sykes-Picot.

Para as grandes potências, o destino dos habitantes dessas regiões não importava: o britânico Sykes marcou a fronteira entre as duas áreas de protetorado à mão livre, com uma caneta: de Kirkuk, no atual Iraque, atravessando quase mil quilômetros até Haifa.

"A forma artificial como os Estados foram constituídos foi responsável por diversos conflitos nas últimas décadas", afirma Henner Fürtig, vice-presidente do Instituto de Estudos Globais e Regionais (Giga) e diretor do Instituto Giga de Estudos do Oriente Médio, em Hamburgo. "Essas questões continuam sem solução por mais de um século e vêm à tona de forma cíclica, como agora no caso do avanço do EIIL no norte do Iraque."

Compreensão histórica distorcida

Até hoje, a população de praticamente todos os Estados da região é composta por uma variedade etnias e religiões. É justamente aí que o grupo terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) impõe sua exigência de uma teocracia pan-islâmica na forma de um grande califado. Segundo Fürtig, o próprio nome do grupo já indica que os extremistas tentam desfazer a marcação de fronteiras que consideram ocidental-imperialista.

Os extremistas do EIIL situam nos últimos 400 anos do domínio otomano o auge da forma de governo que agora almejam. O que eles deixam de lado é que, para os árabes, esse foi na verdade um período de dominação estrangeira pelo califado otomano. Mesmo assim, eles veem no califado a forma natural de Estado para os muçulmanos devotos, observa Henner Fürtig. "Não estou falando de viabilidade, mas sim do que é divulgado pela propaganda, em parte, com muito sucesso."

Diante do avanço dos combatentes do EIIL no Iraque, observadores advertem repetidamente quanto a um desmantelamento da ordem política no país. Henner Fürtig considera a situação para próprio o Iraque menos dramática, comparada com a dos países vizinhos, igualmente marcados por uma mistura de etnias e religiões: "As consequências de um colapso estatal seriam devastadoras para a Turquia ou o Irã. Ninguém quer isso."

Além disso, lembra o diretor do Instituto Giga para o Oriente Médio, o Iraque, enquanto Estado, já tem experiência com grandes crises: "A guerra civil no Iraque em 2006 foi pelo menos tão grave quanto agora. Na época, registraram-se 34 mil civis mortos em um ano – mesmo assim, o Estado se manteve coeso, de fato."