COBERTURA ESPECIAL - Ecos - Guerras, Conflitos, Ações - Geopolítica

10 de Novembro, 2013 - 16:34 ( Brasília )

'Mulheres de aço' da 2ª Guerra ainda esperam reconhecimento no Reino Unido


LEANDRO COLON
ENVIADO ESPECIAL A SHEFFIELD
 
Às 19h de 12 de dezembro de 1940, um ano e três meses depois de estourar a Segunda Guerra, a sirene de alerta tocou em Sheffield. Não adiantou muito. A cidade britânica foi destruída pelos alemães.
 
"Foi terrível. Eu estava trabalhando, ouvia as bombas e, ao mesmo tempo, a máquina da fábrica onde trabalhava. Tentei ir para casa, mas tive de voltar, não tinha como andar, tudo devastado", conta Kathleen Roberts, então com 18 anos, hoje com 91.
 
A fábrica onde ela trabalhava produzia nada menos do que componentes de armas, aviões, munições e embarcações para as tropas britânicas. Kathleen operava um dos pesados cilindros de produção dos equipamentos.
 
A história dela na Segunda Guerra começou no fim de 1939, quando a maioria dos homens que operavam as máquinas de aço viajou para a batalha, inclusive seu próprio marido, de quem ela ficou distante por quatro anos.
 
Ao mesmo tempo, a tradicional indústria do aço de Sheffield, a 230 km de Londres, deixara de lado sua produção de mercado para virar fábrica da guerra. Não à toa, 30 mil bombas foram lançadas pelos alemães contra a cidade entre 12 e 15 de dezembro de 1940, no ataque conhecido como "Sheffield Blitz".
 
Com os homens no "front", milhares de moças como Kathleen, entre 18 e 20 anos, sem filhos, foram recrutadas entre janeiro e fevereiro de 1940 para trabalhar 13 horas por dia, sete dias por semana, por até cinco anos seguidos.
 
"Chegou para mim a carta: você tem que ir, não há escolha", lembra Dorothy Slingsby, hoje com 92.
 
"Se você tivesse filhos, era permitido ficar em casa", explica Kathleen, que se recorda bem do dia 3 de setembro de 1939, quando os ingleses declaram guerra à Alemanha.
 
"Era um dia lindo. Fui para a igreja de manhã. Os serviços foram suspensos e todo mundo foi para casa ouvir pelo rádio a declaração de guerra pelo ministro."
 
As duas, que já são bisavós, receberam a Folha na última quarta-feira na fria e calada Sheffield, uma cidade que nunca superou emocionalmente a guerra.
 
"Cheguei a transportar um guindaste de 20 toneladas, subia escadas como os homens. Um deles uma vez disse: você tem a força de um macaco, minha nossa", conta, gargalhando, Dorothy, com sua voz rouca, cansada, mas não desanimada. "Fiz equipamentos para aviões militares que saíam de navios."
 
Detalhe: ela se casou durante a guerra e engravidou no último ano de "serviço" no aço, mas foi liberada de tarefas pesadas apenas depois do quinto mês de gestação.
esquecimento
 
Uma mágoa atormentou essas mulheres durante décadas: o esquecimento pelos serviços prestado ao país.
 
"Quando os homens voltaram da guerra, fomos dispensadas", conta Kathleen. E o pior: "Descobrimos só depois que recebíamos um salário menor do que era pago a eles na mesma fábrica antes".
 
Há menos de cinco anos, autoridades locais, com apoio do governo britânico, começaram a se movimentar para resgatar e reconhecer a importância delas. Localizaram quatro sobreviventes, apelidadas de "Women of Steel", ou "Mulheres de Aço".
 
Começou então uma campanha para arrecadar 150 mil libras (R$ 550 mil) para produzir uma estátua de bronze em que duas mulheres representam todas as recrutadas.
 
Um concerto de artistas da região ocorreria neste fim de semana para levantar recursos --até uma música foi composta em homenagem a elas.
 
"Eu queria receber esse reconhecimento ainda em vida", diz Dorothy. "Pelo menos agora vou ao banco e algumas pessoas me reconhecem e agradecem pelo que fizemos."
 
Elas lembram que não tinham tempo para descansar nem para gastar o dinheiro que ganhavam. "Passava a maior parte do dinheiro para meus pais e tentava economizar o resto para depois da guerra", conta Kathleen.
 
O marido dela voltou ferido do famoso Dia D (o desembarque dos aliados na Normandia), em 6 de junho de 1944, que iniciou a derrocada alemã e o fim da batalha.
 
"Tive que ficar em casa cuidando dele por vários anos. Ele morreu há cinco, nunca superou o Dia D. Eu ainda fiz algumas coisas, como imprimir propagandas em 1962", conta ela, que teve dois filhos, três netos e, recentemente, um bisneto. "A guerra me fez uma pessoa muito forte, porque tivemos dias difíceis depois dela", continua.
 
Dorothy Slingsby perdeu o marido há 14 anos. Após a guerra, sem emprego fixo, passou a limpar casas em Sheffield. Teve três filhos, quatro netos e dois bisnetos.
 
Apesar do recrutamento, do trabalho pesado e das consequências, ela diz que nunca sentiu medo.
 
No final, a reportagem pergunta às duas: concordam com aquela guerra?
 
Mais falante das duas, Kathleen pede a palavra: "Nós nunca reclamamos, e também não podia. Nós não concordávamos com a guerra, mas alguém tinha que parar os alemães, porque eles queriam dominar o mundo, com um regime duro. Então tínhamos que apoiar, alguém tinha que assumir isso".