COBERTURA ESPECIAL - Ecos - Guerras, Conflitos, Ações

17 de Agosto, 2007 - 12:00 ( Brasília )

Joel Silveira, o maior repórter do Brasil, 88


DefesaNet - O jornalista Joel Silveira integrava o pequeno grupo que acompanhou a história, com os olhos brasileiros. Essas pessoas não estão sendo substituídas por novos elementos e ficamos presos a coberturas internacionais pelos olhos de outros. Nosso adeus a Joel, que cumpriu fielmente a ordem de seu chefe Assis Chateaubriand: "Você vai cobrir a guerra e não tem permissão de morrer."

Joel Silveira, aos 26 anos, trabalhava para os "Diários Associados", e era um dos muitos repórteres que, naquele tempo, gostaria de ser escalado para cobrir a presença da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra, entre 1944-45. Um dos que disputavam o posto de correspondente de guerra era Carlos Lacerda, que também trabalhava nos "Diários". Mas Assis Chateaubriand acabou escolhendo o jovem repórter que, com a viagem de 11 meses acompanhando os soldados por lugares inóspitos na Itália, viveria o ponto alto de sua brilhante carreira. Silveira, muitas vezes apresentado como "o maior repórter brasileiro", contava ter voltado da guerra "com 80 anos":

- O que a guerra nos tira, quando não tira a vida, não devolve nunca mais - iria afirmar o jornalista inúmeras vezes depois.

"Seu Silveira", disse-lhe Chateaubriand quando o convocou, "vá para a guerra mas não morra. Repórter não é para morrer, é para mandar notícias". Na Itália, Silveira teve como colegas Rubem Braga, enviado do "Diário Carioca", Raul Brandão, do "Correio da Manhã", Egydio Squeff, do GLOBO, e o fotógrafo Thassilo Mitke. Testemunhou o fuzilamento do sargento Wolf por uma patrulha alemã e acompanhou, atocaiado na casa de um camponês italiano, a histórica tomada do Monte Castelo.

Os relatos da guerra, muitos dos quais censurados na época, foram reunidos no livro "Histórias de pracinha", de 1945. Há dois anos, textos daquele livro, esgotado há três décadas, foram reeditados em "O inverno da guerra", da editora Objetiva.

O jornalista, que nasceu em setembro de 1918 no Sergipe, chegou ao Rio em 1937. Seu primeiro emprego foi no jornal literário "Dom Casmurro", de Álvaro Moreyra. Nos anos 40, o estilo de Silveira começou a chamar atenção. Do seu texto, Manuel Bandeira observou que tinha "uma maneira muito pessoal, pachorrenta, meio songamonga, voluntariamente sem brilho literário. É o anti-João do Rio - e, apesar disso, ou antes por isso mesmo, maciçamente perfurante como uma punhalada que só dói quando a ferida esfria".

Antes dos "Diários Associados", trabalhou na revista "Diretrizes", de Samuel Wainer, onde assinou textos que marcaram época. Num deles, em 1943, travestiu-se de sergipano rústico em dândi e, pelas mãos de Di Cavalcanti e a mulher do pintor, Noêmia, penetrou nas festas dos milionários paulistanos, que, durante a guerra, apresentavam uma prosperidade nunca vista no país. Com o título "Grã-finos em São Paulo", o texto publicado na revista causou ira na sociedade paulistana, que organizou-se numa expedição ao hotel onde Silveira estava hospedado para linchá-lo. Ele se salvou com a ajuda de um grupo de estudantes, que, liderados por Jânio Quadros, conseguiram escondê-lo. Devido à reportagem, em que ironizava a burguesia, Silveira ganhou o apelido "víbora", dado por Chateaubriand.

Jornalista publicou cerca de 40 livros

Alguns anos depois, o jornalista voltaria a São Paulo, a pedido de Carlos Lacerda, então diretor da revista "Sete Dias", para fazer reportagem semelhante, sobre a milionária festa de casamento da filha do Conde Matarazzo. Publicada com o título "A milésima segunda noite da Avenida Paulista", o texto teve grande repercussão e, há quatro anos, foi relançado pela Companhia das Letras num livro de título homônimo, uma coletânea de textos dos anos 40 do repórter.

Joel Silveira foi responsável por assinar a derradeira entrevista de "Diretrizes", em 1944. Dessa vez, não era um grã-fino, mas uma conversa com Monteiro Lobato que causaria polêmica. O escritor, então com 62 anos, não escondeu seu entusiasmo com a revolução soviética e, com o título "Um governo deve sair do povo como a fumaça de uma fogueira", a reportagem desagradou às autoridades. Lobato passou uma semana preso e Silveira refugiou-se num sítio.

Ao longo da vida, publicou cerca de 40 livros, muitos com memórias e coletâneas de suas reportagens. Um dos mais recentes é "A feijoada que derrubou o governo", título da coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras. No livro, reúne histórias políticas, de seus encontros com autoridades como JK, João Goulart, Jânio Quadros, Getúlio Vargas - que o recebeu pensando que Silveira queria lhe pedir um emprego, em vez de uma simples entrevista.

Com o jornalista e amigo Geneton Moraes Neto, escreveu dois livros: "Nitroglicerina pura" e "Hitler/Stalin - O pacto maldito e suas repercussões no Brasil", sobre intelectuais brasileiros de esquerda que colaboraram numa publicação nazista. Silveira também era autor de alguns livros de ficção, como "Dias de luto". Trabalhou, ainda, em "Última hora", "Estado de S. Paulo", "Diário de Notícias", "Correio da Manhã" e muitos anos na revista "Manchete". Sempre foi repórter - só teve uma experiência como editor, que não lhe agradou.

Em 1998, recebeu da Academia Brasileira de Letras (ABL) o prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Entre outros prêmios, recebeu o Jabuti e o Líbero Badaró. Em maio, foi homenageado em congresso internacional organizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. O jornalista, que tinha 88 anos, morreu na madrugada de ontem, enquanto dormia no seu apartamento, em Copacabana, de "causas naturais", segunda a família. Há muitos anos, o maior repórter brasileiro não saía mais de casa. Será cremado hoje, às 15h, no Cemitério do Caju. Era casado com Iracema, com quem teve dois filhos.