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20 de Março, 2013 - 11:15 ( Brasília )

‘Risco é constante’, diz embaixador brasileiro no Iraque


Caio Quero

Há cerca de um ano no Iraque, o embaixador brasileiro Ánuar Nahes diz que ainda enfrenta um cotidiano de risco constante em Bagdá, dez anos após a invasão militar do país liderada pelos Estados Unidos.

Por mais de 20 anos, desde a primeira Guerra do Golfo, o Brasil ficou sem representação diplomática no Iraque. Por motivos de segurança, a embaixada brasileira em Bagdá foi fechada em 1991 e, em 2006, os assuntos diplomáticos entre os dois países passaram a ser conduzidos por um escritório na Jordânia.

A situação só mudou no início do ano passado, pouco depois de as últimas tropas americanas deixarem o Iraque após os anos de guerra que se seguiram à invasão do país, em março de 2003.

O escolhido para assumir o comando da nova missão diplomática foi o embaixador Ánuar Nahes, de 60 anos, que já serviu como embaixador em Doha e em 1995 chefiou a Divisão do Oriente Próximo do Ministério das Relações Exteriores.

Paulista de Santa Adélia, Nahes assumiu a Embaixada em janeiro de 2012, mas só se mudou para o Iraque em março do mesmo ano.

Em Bagdá, entre gestões para reaproximar os dois países que foram grandes parceiros comerciais nas décadas de 1970 e 1980, Nahes vive e trabalha em um prédio fortificado, com vigias armados e proteção especial contra explosões. Assim como os outros diplomatas, ele também é obrigado a restringir suas saídas para eventos sociais por motivos de segurança.

"Há risco constante", disse Nahes em entrevista concedida por telefone à BBC Brasil durante uma passagem do diplomata por São Paulo, no último sábado. Confira abaixo os principais trechos da conversa com o embaixador.

BBC Brasil - O senhor tem uma grande experiência com Oriente Médio, foi chefe da Divisão do Oriente Próximo do Itamaraty e serviu no Líbano, Tunísia e Doha. Como o senhor avalia a situação do Iraque agora, dez anos depois da invasão americana?

Ánuar Nahes – O Iraque ficou ocupado até o final de 2011. A invasão do Iraque teve por objetivo derrubar a ditadura de Saddam Hussein. Isto é, o objetivo explícito (era esse), os que estavam por trás da ideia são discutidos até hoje. Mas o objetivo explícito era derrubar Saddam e restaurar a democracia no Iraque.

Nesses primeiros anos houve uma espécie de democracia imposta e somente agora, a partir da retirada dos americanos, é que o Iraque está exercendo esta democracia sozinho, sem tutela.

Então você pode imaginar, (como) em qualquer processo político, há agora a ocupação dos espaços vazios deixados pelos americanos e, sobretudo, em um momento em que as eleições provinciais, marcadas para 20 de abril, estão chegando.

Há sim uma briga política ferrenha no Iraque e, por causa da história recente do país, de violência, muitas pessoas recorrem à violência para tentar desarticular e descarrilar o processo democrático, muita gente não quer o processo democrático.

O Iraque tem hoje então esse problema de violência interna, por fatores internos e motivado também por fatores regionais. Mas está indo, democracia é uma coisa difícil de consolidar, é preciso paciência, de concessões. Nós no Brasil sabemos muito bem como é que é isso.

O Iraque na verdade está caminhando com suas próprias pernas faz um ano apenas. Os americanos saíram de lá em dezembro de 2011. Um ano e três meses, foi há pouco tempo.

BBC Brasil - Pelo que o senhor pode sentir, qual é a avaliação da população em geral sobre a guerra e a invasão, dez anos depois?

Nahes – É uma mistura de amor e ódio. Por um lado, a maioria da população é grata pelo final da ditadura de Saddam. Mas, por outro lado, acredito que essa não fosse a intenção, (mas) direta ou indiretamente, os Estados Unidos acabaram fazendo muito mal ao Iraque.

Primeiro na guerra para tirar o regime de Saddam do Kuwait, (antes) na Guerra Irã-Iraque – quando os ocidentais armaram ambos os lados –, e (depois) na invasão de 2003, quando os americanos em um primeiro momento foram bem recebidos, mas quando se tornaram os administradores do Iraque, tomaram certas medidas das quais os iraquianos se ressentem hoje.

Eles se ressentem da desestruturação do Estado iraquiano feita durante o tempo do Paul Bremer (ex-diplomata americano que chefiou a Autoridade Central da Coalizão no Iraque entre 2003 e 2004), ele acabou com as instituições.

Agora, passados tantos anos, a gente pode dizer que no calor do momento, quem sabe qual seria a melhor atitude a se tomar?

Há essa ambivalência por parte dos iraquianos. Se por um lado os americanos os livraram de Saddam, por outro, o país que eles deixaram ao se retirar é um país dividido, é um país violento. Então há um misto de amor e ódio.

BBC Brasil – Este mês fez um ano que o senhor se mudou para Bagdá. Como é a vida no Iraque? Vocês têm um esquema de segurança especial?

Nahes – Fez um ano dia 1º de março. Nós temos duas casas, é um compound no qual há a residência de representação, há o escritório – que é a chancelaria –, e há a residência do resto do pessoal.

Como toda residência de certa importância no Iraque, é toda cercada por uma camada dupla de blocos de concreto para amenizar o impacto de uma explosão. Não que a explosão venha a ser feita contra a embaixada do Brasil, não há razão. Mas, de repente, ali perto.
 

Nós temos uma empresa britânica que cuida da guarda, são quatro profissionais supervisores e todos os demais são iraquianos. Temos também três carros blindados. Então há uma segurança, de proteção, segurança armada.

Olha, a gente só sai mesmo para uns poucos eventos sociais em embaixadas, são poucos eventos, saímos para ir a reuniões do governo, mas até o governo tem risco. Por exemplo, você viu aí (o atentado) no Ministério da Justiça (série de atentados a bombas e armas de fogo que deixaram mais de 20 mortos no último dia 14)? Se nós tivéssemos fazendo uma visita, teríamos sido colhidos pela explosão, pelo tiroteio.

Então há um sempre um risco, há risco constante.

BBC Brasil – Quantas pessoas trabalham na embaixada?

Nahes – Temos três diplomatas, contando comigo, e mais dois funcionários do quadro não diplomático e dois funcionários locais.

BBC Brasil – O senhor já se sentiu pessoalmente em risco nesse período?

Nahes – Toda vez que você sai, quando você para em um checkpoint (bloqueio), você olha para o lado e está cercado de carros, é um trânsito intenso, e um deles pode estar carregado com uma bomba e explodir.

Então, toda vez que você sai, você está com medo. Bom, não é medo, eu não tenho medo, você sai com a possibilidade ao seu lado. Por exemplo, como eu te falei, onde aconteceu o atentado, ali no Ministério da Justiça, é em frente ao Ministério das Relações Exteriores. Ora, uma vez por semana eu vou ao Ministério das Relações Exteriores.

Nós já passamos por lugares onde no dia anterior houve uma explosão. Eu até comento com os meninos que trabalham comigo, eles são diplomatas jovens e dizem "embaixador, já pensou se a gente estivesse passando aqui àquela hora?". Eu digo, "pois é meu filho, você teria visitado Deus mais cedo". Então é isso, é um risco.

BBC Brasil – Há outros brasileiros morando no Iraque?

Nahes – Olha, há 35 brasileiros no Iraque, nós conseguimos descobrir isso, a maior parte deles no Curdistão, no norte. Há alguns jogadores de futebol, há alguns pastores religiosos, porque há uma comunidade cristã no Curdistão. E há também cidadãos de dupla nacionalidade, uma brasileira casada com iraquiano...

BBC Brasil – O Iraque foi um grande parceiro do Brasil nos anos 1970 e 1980. Há espaço para o Brasil no futuro do Iraque?

Nahes – Só pelo movimento natural, de redemocratização e abertura econômica, presença de embaixadores, o comércio hoje gira em torno de US$ 1 bilhão por ano. Mas o que entrava um pouco esse comércio? É a instabilidade política e a situação securitária no Iraque por um lado.

Por outro, há empresas brasileiras já interessadas em participar dos trabalhos de reconstrução no Iraque, que ainda vão demorar 20 ou 30 anos, já que o país todo precisa ser refeito e reestruturado. Se você anda em Bagdá hoje você vê uma cidade com a infraestrutura dos anos 1970.
 

Mas hoje em dia o comércio não é mais feito por intermédio de agentes estatais, então muita coisa que o Brasil poderia exportar para o Iraque, a Turquia exporta, porque está ali. Você tem o fator China.

Por exemplo, o Brasil exportou muito (o automóvel) Passat. Quando o Brasil quis retomar a exportação de Volkswagen para lá, o tal do novo Passat, a Alemanha falou, "muito bem, só que quem vai exportar o Passat seremos nós", porque a Alemanha também precisa exportar, a matriz também precisa exportar.

Então os dois países mudaram, mas é crescente o número de empresas e empresários iraquianos indo para o Brasil. Eles gostam do Brasil, o Brasil não tem passado colonial, há um bom nome deixado pela nossa presença lá nos anos 1970 e 1980.

BBC Brasil – Quais são os caminhos para que o Brasil aumente esse comércio com o Iraque? E quais são os gargalos?

Nahes – Os gargalos principais são a violência interna no Iraque, a instabilidade política, consequentemente a instabilidade econômica e a fragilidade institucional.

No Iraque, quando chega uma carga até a agência de inspeções, nem sempre uma se coordena com a outra. Ou seja, o Iraque também tem que reconstruir suas instituições, suas agências, seus órgãos de controle.

Sobre o Brasil, neste momento o nosso mercado interno está aquecido, assim como regionalmente, ou na África Ocidental, na Europa, quer dizer, o Iraque é um parceiro novo.
 

Mas hoje em dia o comércio não é mais feito por intermédio de agentes estatais, então muita coisa que o Brasil poderia exportar para o Iraque, a Turquia exporta, porque está ali. Você tem o fator China.

Por exemplo, o Brasil exportou muito (o automóvel) Passat. Quando o Brasil quis retomar a exportação de Volkswagen para lá, o tal do novo Passat, a Alemanha falou, "muito bem, só que quem vai exportar o Passat seremos nós", porque a Alemanha também precisa exportar, a matriz também precisa exportar.

Então os dois países mudaram, mas é crescente o número de empresas e empresários iraquianos indo para o Brasil. Eles gostam do Brasil, o Brasil não tem passado colonial, há um bom nome deixado pela nossa presença lá nos anos 1970 e 1980.

BBC Brasil – Quais são os caminhos para que o Brasil aumente esse comércio com o Iraque? E quais são os gargalos?

Nahes – Os gargalos principais são a violência interna no Iraque, a instabilidade política, consequentemente a instabilidade econômica e a fragilidade institucional.

No Iraque, quando chega uma carga até a agência de inspeções, nem sempre uma se coordena com a outra. Ou seja, o Iraque também tem que reconstruir suas instituições, suas agências, seus órgãos de controle.

Sobre o Brasil, neste momento o nosso mercado interno está aquecido, assim como regionalmente, ou na África Ocidental, na Europa, quer dizer, o Iraque é um parceiro novo.