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O
soldado brasileiro
Jarbas
Passarinho
Foi ministro de Estado, governador e senador
Hoje
se comemora o Dia do Soldado. Não apenas nos quartéis,
mas no coração do povo brasileiro. Longe de
ser uma casta, o Exército recruta seus oficias pelo
mérito. Dei-lhe 28 dos mais fascinantes anos da minha
vida. No concurso universal para ingresso na Escola Militar,
estudante pobre, iniciei a carreira das armas. Três
filhos de generais, nesse concurso, foram reprovados no exame
intelectual.
Caxias
não teve berço de ouro. Filho de oficial superior.
Osório veio das fileiras de soldado, galgou promoções
na tropa e alcançou o ápice da hierarquia militar,
como general e marechal, colhendo vitórias nos campos
de batalha. São duas vertentes bem distintas da carreira
das armas. Um, patrono do Exército; o outro, da Cavalaria.
Um, o maior general deste subcontinente, autor de manobras
táticas de estilo napoleônico. O outro, padrão
de bravura e denodo que o inimigo temia, desde sua fase de
lanceiro. Fácil, dizia o intimorato vencedor, é
comandar homens livres.
O
brazilianist Alfred Stepan, no livro The Military in Politics
(Princeton University Press, 1971), escreveu que a idéia
de que os oficiais do Exército brasileiro eram recrutados
do estrato socioeconômico superior da sociedade era
desmentida pelas tabelas que compus compulsando o arquivo
da Academia Militar de Resende. Entre 1941 e 1943 (coincidentemente
meu tempo de aluno da Escola Militar), 19,8% da ocupação
dos pais dos cadetes pertenciam ao que Stepan classificou
de classe superior (latifundiários, embaixadores, advogados,
engenheiros, dentistas, magistrados); à classe média
(comerciantes, bancários, professores, pequenos fazendeiros),
74,6%; trabalhadores qualificados (eletricistas, mecânicos)
1,5%, e mão-de-obra não- qualificada (domésticas,
camponeses) 2,3%. Já na geração de 1962/1966
a percentagem havia reduzido a classe superior de 19,8% para
6%, e aumentado de 76,4% para 78,2% na classe média.
Ademais, chamou a atenção do escritor que nos
6% da classe alta, os filhos de latifundiários, que
em 1941 eram 3,8%, haviam diminuído para só
0,5% em 1962.
A
escritora Fay Haussman fez um estudo comparativo da formação
do soldado de três países: Estados Unidos, Argentina
e Chile. No seu livro coloca o soldado brasileiro acima de
todos. Stepan diz que em 1971 o Brasil tinha 40% de analfabetos.
A fonte não merece crédito, mas bem antes o
Exército recebia recrutas analfabetos e os alfabetizava
na escola existente em cada organização militar.
Hoje, o soldado brasileiro maneja instrumentos que requerem
tecnologia até de ponta. Em 1972, ministro da Educação,
presente à reunião da Unesco, ouvi o ministro
Faure relatar o livro Apprendre a apprendre, que serviria
de base para as discussões internas, e referir-se como
novidade à necessidade da educação continuada.
Ora,
os militares já utilizavam, de há muito, a educação
continuada. O curso da Escola Preparatória de Cadetes,
dos que aspiram a ingressar na Academia Militar, se não
prossegue já alcançou o nível de sargento.
A Academia Militar prepara o tenente. Segue-se a Escola de
Aperfeiçoamento e, se o oficial aspira a atingir o
generalato, faz concurso para a Escola de Estado Maior. Uma
década de ensino continuado, pois, para os oficiais.
E uma escola específica forma os sargentos. A metodologia
de ensino não abre mão dos meios auxiliares,
conjugando a memória auditiva à visual. O soldado
domina desde logo essa metodologia que ainda é desconhecida
em boa parte das escolas civis. Um cabo, primeiro degrau da
hierarquia, instrui recrutas servindo-se de um cavalete e
dos meios auxiliares, o que era novidade na Unesco, em 1972.
A
educação do soldado não fica apenas no
aprendizado das técnicas para derrotar o inimigo. Cultua
a moral. Ouviu dizer nas casernas o que lhe ficou para sempre:
À Pátria tudo se deve, nada se lhe pede.
André Maurois, biógrafo do general Lyautey,
confessa que ao deixar o serviço militar foi que percebeu
quanto estava errado e preconceituoso ao entrar para o Exército
francês. O mesmo tem sido a regra dos brasileiros que,
recrutas a contragosto, hoje dizem quanto aprenderam a amar
o Brasil onde se fizeram cidadãos. E a sociedade reconhece
o seu patriotismo e seu valor. Nas pesquisas de opinião
pública, o povo responde que as Forças Armadas
são a instituição nacional em que confia
mais.
Nos
cinco dramáticos anos de guerra com o Paraguai, até
mesmo gravemente ferido, em Itororó, o soldado seguiu
Caxias, quando, no auge da peleja, bradou: Sigam-me
os que forem brasileiros! Na Itália, quando a
neve se dissolveu, corpos de soldados mortos nos combates
e preservados pelo gelo, provaram a sacralidade do juramento
de defender a pátria com o sacrifício da própria
vida. Intrepidez e coragem foram postas à prova nos
embates mortais em Montese, e em todos os confrontos da FEB,
que venceu e aprisionou duas divisões do melhor exército
do mundo. Quando o soldado não vê reconhecido
o seu sacrifício na luta armada interna e premiado
o agressor que combateu, não se abate. Sua missão
é servir à pátria que se sobrepõe
a governos que passam e ele é instituição
permanente. Forja na caserna o caráter, respeita os
valores éticos, honra em qualquer circunstância
a Bandeira, que tremulou nos pântanos paraguaios e sob
o sol ou a neve da Itália, sem jamais macular sua tríade,
Pátria, Honra e Dever
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