COBERTURA ESPECIAL - DQBRN

22 de Fevereiro, 2006 - 12:00 ( Brasília )

País vai controlar gado e plantações com satélite

Até abril, 220 imagens da fronteira serão captadas por R$ 1,8 milhão; a operação foi criada para o combate à aftosa, gripe aviária e pragas


Herton Escobar


Motivado pelos recentes surtos de febre aftosa em rebanhos de dentro e fora do País, o Brasil está recrutando a tecnologia espacial para mapear e supervisionar o trânsito de animais nas fronteiras com Argentina, Paraguai, Bolívia e Peru. O projeto, encomendado pela Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, utilizará imagens de satélite de alta resolução para tentar enxergar, do espaço, aquilo que os técnicos nem sempre conseguem ver da janela de seus veículos aqui na Terra.

Ao todo, serão fotografados cerca de 450 mil km2 numa faixa de 100 km de cada lado da fronteira do Acre até o Rio Grande do Sul. "Nossa fronteira hoje é como uma casa desarrumada. E o primeiro passo para arrumá-la é saber o que tem dentro dela", diz o chefe da Embrapa Monitoramento por Satélite, Evaristo Eduardo de Miranda, encarregado da execução do projeto. "Nunca no Brasil se mapeou uma área tão grande com tanto detalhe.

"O foco será nos primeiros 25 km de cada lado da fronteira. Com até 10 metros de resolução, as imagens de satélite permitirão identificar onde estão as fazendas, pastagens, pontes e estradas rurais que podem servir para o trânsito de animais entre os países. O monitoramento não funcionará em tempo real, mas servirá como ferramenta estratégica para orientar os trabalhos de controle e fiscalização - especialmente em situações de risco, como no caso da aftosa.

"Será um mecanismo de vigilância muito importante", disse o secretário de Defesa Agropecuária, Gabriel Alves Maciel. "Poderemos movimentar nosso pessoal para áreas de maior risco, quando houver necessidade.

" Segundo ele, todos os focos de aftosa registrados nos últimos anos no Brasil foram em áreas de fronteira. Originalmente, o mapeamento seria feito de Mato Grosso do Sul até o Acre, com ênfase na fronteira com o Paraguai. Com o aparecimento de um surto recente de aftosa na Argentina, entretanto, o projeto foi estendido até o Rio Grande do Sul. A doença é altamente contagiosa e exige a eliminação do rebanho e isolamento das fazendas.

Brasil e Paraguai já firmaram acordo para implementação do projeto, incluindo o cadastramento de todas as fazendas de gado ao longo da fronteira.

Fora a aftosa, o sistema servirá para o controle de todo tipo de doença animal contagiosa - inclusive da gripe aviária, caso o vírus chegue à América do Sul. E, até mesmo, para defesa vegetal, caso haja risco de contaminação entre lavouras próximas ou pelo transporte de sementes.

INTELIGÊNCIA

Com as imagens espaciais, os fiscais poderão enxergar seu campo de trabalho muito melhor. "É comum você ter propriedades com lavouras na beira da estrada e com animais mantidos mais para o fundo, onde é difícil vê-los", diz o diretor do Departamento de Saúde Animal do ministério, Jorge Caetano. "A fiscalização é complicada, depende de inteligência.

"O projeto inicial foi orçado pelo Ministério da Agricultura em R$ 1,8 milhão. Ao todo, serão compradas mais de 220 imagens do satélite francês SPOT 5.

Todos os dados serão reunidos em um site interativo da Embrapa, que permitirá visualizar as imagens em diferentes configurações, medir distâncias e calcular áreas e perímetros. "Para qualquer denúncia que chegar será possível produzir um mapa e visualizar o local rapidamente", explica Miranda.

A idéia é que todas as imagens estejam processadas até abril. Em seguida, serão elaborados portfólios personalizados de monitoramento para cada Estado e município da faixa de fronteira.