COBERTURA ESPECIAL - Doutrina Militar - Terrestre

19 de Março, 2015 - 10:50 ( Brasília )

EB - Proposta de participação da Bda Inf Pqdt na Operação Colibri


TC Washington Harryson Alcoforado
w_harryson@ig.com.br


“Loucura? Sonho? Tudo é loucura ou sonho no começo.
Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra
maneira… mas já tantos sonhos se realizaram que não temos
o direito de duvidar de nenhum.” (Monteiro Lobato)

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A Brigada de Infantaria Paraquedista (Bda Inf Pqdt), dentro da evolução da arte da guerra, objetivando sempre estar atualizada como tropa estratégica da Força Terrestre, tem buscado conhecer e adestrar seus soldados para fazer frente aos conflitos do século XXI, estando o conceito das operações no amplo espectro muito presente em seus exercícios e missões de emprego real [1].

Essa definição enfatiza que os conflitos atuais envolvem não somente o combate entre oponentes armados. As operações constituem-se na aplicação dos meios de combate, de forma simultânea ou sucessiva, combinando atitudes ofensiva, defensiva, de pacificação, de garantia da lei e da ordem, de apoio às instituições governamentais e internacionais e de assistência humanitária, em ambiente interagências [2].

O plano de visitas do Exército Brasileiro (EB) a nações amigas enviou para a cidade de Saarlouis, estado de Saarland, Alemanha, no período de 14 a 17 outubro de 2014, três militares da Bda Inf Pqdt com o intuito de realizarem intercâmbio de técnicas aeroterrestres junto à Luftlandebrigade 26 Graf Werder-Kaserne- SARRE, 26ª Brigada Aerotransportada, tropa adestrada e inserida no emprego em conflitos contextualizados nas operações no amplo espectro.

Buscando melhor aproveitamento na troca de conhecimentos e futuras oportunidades na continuidade desse intercâmbio, a delegação brasileira foi propositalmente composta por um oficial superior com curso de Estado-Maior, tenente-coronel de Infantaria Washington Harryson Alcoforado, por um capitão aperfeiçoado de Infantaria, Humberto André Prazeres Guaita, e por uma praça especializada no curso de Dobragem e Manutenção de Paraquedas e Suprimento pelo Ar (DoMPSA), o 2ª Sgt de Intendência Leandro Lourenço de Faria.

A Luftlandebrigade 26 Graf Werder-Kaserne, cujo lema é “Sempre pronto em qualquer lugar do mundo”, tem como cumprimento Glück ab(sem tradução exata), teve sua criação na data de 23 de setembro de 1958 e sua atual denominação em 20 de outubro do mesmo ano. Integra a atual Divisão de Operações Especiais juntamente com a Luftlandebrigade 31 e o Comando de Forças Especiais [3].

Atualmente seu Quartel-General (QG) está localizado na cidade de Saarloius, situada no menor estado da Alemanha, Saarland ou Sarre, posicionado a sudoeste do país e com fronteiras com as nações de Luxemburgo e França.

O nome da cidade Saarloius, sede do QG da Luftlandebrigade 26, carrega em sua história uma longa influência de fatos beligerantes franco-germânicos, assim como o estado de Saarlande (Sarre). Tais acontecimentos remontam pelo menos quatro séculos de história, nos quais, por um grande período, ocorreram disputas entre a França e o que hoje conhecemos como Alemanha, sendo uma de suas causas a existência de carvão mineral no subsolo de Saarland, matéria-prima bastante procurada a partir do século XVIII que se constituiu uma importante força motriz para a Revolução Industrial.

A Luftlandebrigade 26 tem 3.128 militares distribuídos em sete organizações militares (OM) e aquartelados em cinco localidades diferentes, incluindo Saarloius. As OM são: o Comando da Luftlandebrigade 26, que juntamente com a 260ª Companhia de Comando e a 26ª Companhia de Engenharia estão sediadas em Saarlouis.

Na localidade de Lebache, encontra-se o 261º Batalhão Paraquedista e, na cidade de Merzig, o 262º Batalhão Logístico (inclui também as missões executadas pelo B DoMPSA, da Bda Inf Pqdt). Situados no estado vizinho da Renânia-Palatinado, encontram-se o 263º Batalhão Paraquedista e a 260ª Companhia de Reconhecimento, ambos na cidade de Zweibrücken. Na localidade de Baumholder, encontra-se o campo de instrução e parte do 261º Batalhão Paraquedista.

A Luftlandebrigade 26, como tropa estratégica da Alemanha, altamente adestrada e força expedicionária, a exemplo de quase todas as tropas aeroterrestres do mundo, possui as seguintes capacidades operacionais no amplo espectro [3]:

– Resgate e evacuação de não combatentes;
– Operações contra forças irregulares;
– Operações em profundidade (incursões aeroterrestres);
– Operações aeromóveis; e
– Operações de rápida intervenção.

Durante sua existência, principalmente a partir do ano de 1991, a Luftlandebrigade 26 participou de várias missões no exterior, tendo enviado tropas para participar de vários conflitos, por exemplo, no Iraque e Afeganistão, cujas capacidades enfatizam o combate contra grupos extremistas que praticam o terrorismo, e de missões sob a égide de organismos internacionais, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Organização das Nações Unidas (ONU), a exemplo de missões na Somália, Kosovo, Albânia e Congo. Experiências essas que permitiram a Luftlandebrigade 26 aperfeiçoar as capacidades operacionais citadas.

A partir de 2015, como parte da reestruturação das Forças Terrestres Alemãs (Heeres), a qual prevê, dentre outros aspectos, a redução de efetivos militares, a Luftlandebrigade 26 será transformada em um regimento com a mesma denominação e o seu atual comando integrará a única Brigada Aerotransportada da Alemanha, passando a ser a Luftlandebrigade 1, tendo dois regimentos paraquedistas, o 26 e o 31, além das demais OM de manobra e de apoio ao combate.

Por sua vez, a atual Divisão de Operações Especiais passará a ser denominada Divisão de Forças Especiais, sendo composta pelo já existente Comando de Forças Especiais e pela Luftlandebrigade 1. Essa divisão será a tropa do Exército Alemão (Das Deutsche Heer) que constituirá sua força de ação rápida, pronta para operar em qualquer parte do território alemão e, principalmente, no exterior, conforme as necessidades e interesses do Estado Germânico [4].

O INTERCÂMBIO

O intercâmbio de fato desenvolveu-se em três dias, com visitas às cidades das principais OM da Luftlandebrigade 26 e atividades culturais em localidades históricas, a exemplo da ida até Trier, cidade com mais de dois mil anos de existência.



A recepção e todas as medidas administrativas e operacionais voltadas para a delegação dos três militares da Bda Inf Pqdt foram executadas de forma exemplar e minuciosa pelos militares da Luftlandebrigade 26. Mesmo sendo os militares da Bda Inf Pqdt habilitados no idioma previsto para manter uma comunicação mínima e desejável, foi contratada uma intérprete pelo Ministério da Defesa da Alemanha, a brasileira e catarinense Michelle Dalmann, tradutora e intérprete juramentada para os idiomas português, alemão e espanhol.

A visita permitiu conhecer a Luftlandebrigade 26, sua estrutura organizacional, capacidades, limitações, missões desenvolvidas e visão de futuro, mostradas pelo oficial de operações, tenente-coronel Jürgen Schedler e pelo oficial de ligação e comunicação social, tenente-coronel Mossmann.

As técnicas aeroterrestres se concentraram no conhecimento do material utilizado pelos paraquedistas alemães e nos processos para o lançamento de pessoal e carga. Um fato observado foi a grande semelhança com alguns materiais aeroterrestres empregados pela Bda Inf Pqdt, inclusive no uso do mesmo paraquedas T-10 e reserva com punho de comando lateral para o salto semiautomático.

Na atividade de intercâmbio, também foi feita a apresentação das aeronaves utilizadas para o salto de tropa com destaques para o C-160 Transall, que lança até sessenta militares armados e equipados pela rampa e portas laterais, e o helicóptero CH-53, que permite o lançamento de vinte militares somente pela rampa nas mesmas condições. Ambas as aeronaves são de fabricação alemã.

Além disso, a delegação participou do treinamento com armas coletivas juntamente com uma fração do 261º Batalhão de Paraquedista. Na ocasião, foram realizados tiros com as metralhadoras MG3 calibre 7,62mm, em uso no Exército Alemão desde 1942, e com a metralhadora HK MG4 calibre 5,56 mm com mira laser.

A visita ao campo de instrução em Baumholder permitiu conhecer as instalações militares existentes desde 1930, voltadas para alojar os militares da Luftalandebrigade 26 que realizam treinamentos no campo, principalmente com emprego de armas coletivas, incluindo canhões. Na ocasião, a delegação da Bda Inf Pqdt pôde observar as armas utilizadas pela companhia pesada, do 261º Batalhão Paraquedista. Entre elas foi apresentado o morteiro pesado 120mm, similar ao utilizado pelo 8º Grupo de Artilharia Paraquedista (8º GAC Pqdt) e outras OM do EB, e o veículo blindado Wiesel, aerotransportado e utilizado como arma anticarro.

APRESENTAÇÃO DA OPERAÇÃO COLIBRI

Durante o período de intercâmbio, foram apresentados os exercícios tradicionais dos quais a Luftlandebrigade 26 tem participado, muitos dos quais juntos com tropas aeroterrestres de países da Europa integrantes da OTAN.

De todos os elencados na apresentação, foi destacada a Operação Colibri, exercício exclusivamente voltado para as tropas aeroterrestres, realizado desde o início da década de 1960 e criado para buscar fortalecer os laços de amizade, no campo militar, entre a França e a Alemanha, devido ao passado histórico de guerras entre as duas nações.

A Operação Colibri é realizada de forma alternada em território francês e alemão, com a possibilidade da participação de outras nações, mediante convite dos organizadores. Além das operações aeroterrestres com realização de saltos e lançamentos de cargas, o contexto do exercício se desenvolve dentro das capacidades operacionais das tropas aeroterrestres franco-germânicas.

Nos últimos anos, a Operação Colibri tem buscado explorar situações no contexto das operações no amplo espectro. Como exemplo, no ano de 2014, a edição da Colibri ocorreu na França e a missão executada foi o resgate e evacuação de não combatentes de um país fictício que se encontrava em estado de fragmentação e guerra civil [3].

A apresentação da Operação Colibri permitiu à delegação da Bda Inf Pqdt identificar oportunidades para aumentar ainda mais os laços no campo militar entre o Brasil e a Alemanha, além de envolver também outra nação amiga, a França.

Sendo assim, a Luftlandebrigade 26 demonstrou seu interesse na participação do Brasil, no futuro, no exercício combinado denominado Operação Colibri, bem como em participar do exercício de adestramento final da Bda Inf Pqdt, a tradicional Operação Saci, que nos últimos três anos tem desenvolvido capacidades operacionais similares à tropa aeroterrrestre alemã, tais como evacuação de não combatentes, operações aeromóveis, combate contra forças irregulares, tudo explorando as operações no amplo espectro [1].

Além disso, a Operação Saci tem dado enfoque às incursões aeroterrestres com saltos em pistas de pouso e zonas de lançamento aquáticas, permitindo, respectivamente, a conquista de aeródromos e o emprego das tropas paraquedistas na região amazônica [1].

A participação dos dois países em exercícios combinados fora dos seus respectivos territórios implicará o envolvimento de suas Forças Aéreas, fato identificado pela Luftlandebrigade 26 e entendido pela delegação da Bda Inf Pqdt.

No caso do Brasil e Alemanha, por ocasião de suas participações em exercícios no território estrangeiro, o efetivo máximo sugerido estaria condicionado a uma subunidade mais o comando e o estado-maior de um batalhão de infantaria paraquedista, composta por até cento e cinquenta militares com todo seu equipamento, armamento e material aeroterrestre, fato que no Brasil exigiria a necessidade do envolvimento e da participação da Força Aérea Brasileira com até duas aeronaves C-130 e, quem sabe no futuro bem próximo, dos novos KC-390, aeronaves em fabricação pela Empresa Brasileira de Aeronáutica (EMBRAER), cujo conhecimento de sua existência despertou muito interesse e curiosidade dos pilotos da Luftwaffe, a Força Aérea da Alemanha.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O intercâmbio de técnicas aeroterrestres desenvolvido junto a Luftlandebrigade 26, na Alemanha, em 2014, foi, para ambas as nações amigas, mais do que uma simples visita para se conhecerem e trocarem experiências, foi acima de tudo uma porta de intenções para que o Brasil e a Alemanha aumentem ainda mais seus laços no campo militar, envolvendo suas tropas estratégicas e de pronto emprego.

O maior ganho da visita foi o grande interesse entre as duas tropas aeroterrestres em desenvolverem exercícios combinados, com ênfase nas operações no amplo espectro, aproveitando para isso duas atividades já existentes e tradicionais em cada país.

No Brasil, a Operação Saci é realizada anualmente como adestramento de toda a Bda Inf Pqdt. Na Alemanha, a Operação Colibri é um exercício combinado executado sempre com a França, alternando com sua realização essa nação amiga, mas também possibilitando a participação de outros países convidados.

A Bda Inf Pqdt representa para a Força Terrestre do Brasil uma tropa altamente operacional e em condições de ser empregada a qualquer momento em qualquer parte do território nacional e fora do país. A aproximação com a Alemanha é, sem dúvida, uma necessidade, principalmente nesse momento em que as duas forças terrestres realizam suas transformações alinhadas com as mudanças e ameaças do século XXI. Além disso, a Alemanha, país considerado potência militar e com fortes relações com o Estado Brasileiro, possui um exército experiente em conflitos com ênfase nas operações no amplo espectro.

Portanto, para a tropa aeroterrestre brasileira e principalmente para o Exército, a intensificação do intercâmbio com o Exército Alemão permitirá estreitar os laços de confiança entre as duas forças amigas. Nesse contexto, pode-se visualizar, para os anos de 2015 e 2016, o envio de observadores por parte da Alemanha e do Brasil, com a finalidade de iniciarem o que poderá ser o planejamento para a participação de tropas de ambas as nações nos exercícios denominados Operação Colibri e Operação Saci.

NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] ESCOTO, Roberto. A Bda Inf Pqdt e os Conflitos do Século XXI: Assalto ou Incursão Aeroterrestre? Doutrina Militar Terrestre em Revista – outubro a dezembro/2013.

[2] ARAÚJO, Mário Lúcio Alves de. Operações no Amplo Espectro: Novo Paradigma do Espaço de Batalha. Doutrina Militar Terrestre em Revista – janeiro a março/2013.

[3] REVISTA da Luftlandebrigade 26 – SAARLAND – 1958-2013, 55 anos de existência. Jul 2013.

[4] REVISTA do Exército Alemão. A Transformação da Força Terrestre. Jul 2013


Currículo do Autor

O Tenente-Coronel de Infantaria Harryson é Oficial de Operações da Brigada de Infantaria Paraquedista. Foi declarado aspirante-a-oficial em 1994, tendo concluído o curso de Comando e Estado-Maior em 2012. Possui ainda os cursos Básico Paraquedista, de Mestre de Salto, de Salto Livre, de Operações na Selva e Intermediário de Inteligência.

Com a carreira voltada para o emprego de tropa e atividades operacionais foi, também, instrutor da Academia Militar das Agulhas Negras e do Centro de Instrução Paraquedista General Penha Brasil. Foi nomeado instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (w_harryson@ig.com.br).