COBERTURA ESPECIAL - Doutrina Militar - Terrestre

03 de Setembro, 2013 - 10:19 ( Brasília )

O Explorador Moderno - Missões de reconhecimento


Cap Cav Odilson de Mello BENZI


1. HISTÓRICO
 
Segundo o dicionário Michaelis o termo explorador designa aquele que explora, pessoa que viaja ou é enviada à procura de informações geográficas ou científicas ou espreitador do campo, dos movimentos do inimigo.

Os exércitos vem empregando o termo para designar os militares que são especializados e destinados a realizar missões de reconhecimento podendo ainda serem empregados no cumprimento de outras atividades operacionais, estes compõem um grupo de exploradores(G Exp) e os Grupos compõe os Pelotões de Exploradores(Pel Exp).

O emprego da Cavalaria Hipomóvel, com a utilização de exploradores à cavalo nas missões de reconhecimento, entrou em declínio durante a Primeira Guerra Mundial. O emprego da metralhadora, bem como o acréscimo da potência de fogo e da precisão da Artilharia tornou praticamente impeditivo o emprego da Cavalaria na zona de ação principal, com impacto na sua atuação como força de cobertura, deixando assim de realizar a missão tática de reconhecimento.

A substituição do cavalo no campo de batalha não ocorreu de forma homogênea, sendo implementada de forma imediata logo após o conflito em alguns países como a Inglaterra ou de forma gradual como nos EUA que chegou até a Segunda Guerra Mundial com a existência de Regimentos híbridos (esquadrões mecanizados com esquadrões à cavalo). De qualquer forma, havia chegado o momento da Cavalaria ser dotada de um novo meio de combate mais adequado para cumprir suas missões de reconhecimento e segurança, o que veio na forma de engenhos motorizados e mecanizados.

Inicialmente a Cavalaria passou a utilizar viaturas leves, não especializadas, como por exemplo, os JEEP WILLYS KAISER, fabricados de 1941 a 1945, utilizados pelo Exército dos Estados Unidos da América na Segunda Grande Guerra (Figura 1). Os Grupos de Exploradores dos Pelotões de Armas Combinadas (fração similar aos Pelotões de Cavalaria Mecanizados brasileiros) sofriam baixas consideráveis quando em contato com o inimigo, por não possuírem blindagens e também pela baixa capacidade de detecção de seus binóculos, que eram os mesmos de antes da mecanização de sua Cavalaria.

Com essa lição aprendida, após o término da SegundaGuerra Mundial, os EUA passaram a desenvolver equipamentos óticos com capacidade maior de observação (Figura 3).

Em paralelo ao desenvolvimento de novos meios óticos de reconhecimento, o Exército Americano passou também a estudar novas viaturas para os Grupos de Exploradores dos Pelotões de Armas Combinadas. O WILLYS M38A1foi adotado pela Cavalaria em 1952 (Figura 2). Em 1955, durante a Guerra do Vietnã, a Cavalaria substituiu o M38A1 pela sua primeira viatura especializada de reconhecimento, o M151 MUTT(Figura 4).

Em 1985 o M151 foi substituído pelo High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle (Veículo Multipropósito de Alta Mobilidade Sobre Rodas), mais conhecido por HMMWV ou HUMMER (Figura 5).

Cabe ressaltar que até a Primeira Guerra do Golfo as viaturas de reconhecimento não possuíam blindagem. O explorador deveria buscar o contato com o inimigo utilizando a capacidade de observação de seus binóculos ou o fogo de seu armamento. Mas para fazer frente à letalidade do combate moderno que causava baixas consideráveis nos seus exploradores, a tropa de reconhecimento americana passou a improvisar blindagens em seus HMMWV, utilizando chapas de madeira, aço, sacos de areia (Figura 6) e finalmente blindagens modulares fabricadas por firmas especializadas (Figura 7).

Na Segunda Guerra do Golfo, os exploradores americanos perceberam que o HMMWV deixou de ser uma viatura de reconhecimento de alta mobilidade, pois o acréscimo de blindagem o tornou pesado e causava constantes quebras de suspensão (Figura 7). Além disso, observaram também que mesmo com a blindagem prosseguiam as baixas ocasionadas por explosivos improvisados (IED). Assim o americano passou a se defrontar com o “Paradoxo do Reconhecimento” (Figura 8): o que é mais interessante? Reconhecer empregando viaturas rápidas mas desprovidas de blindagem, ou empregando viaturas blindadas com sua velocidade prejudicada pelo peso e ainda expostas à destruição por IED.

A resposta para esse impasse surgiu com a evolução dos meios óticos de reconhecimento para meios optrônicos digitais de reconhecimento. A tropa de reconhecimento começa a perceber que a melhor solução é o “Stand Off” de visão, ou seja, ver o inimigo antes que ele veja o explorador.

Com a utilização dos optrônicos digitais de reconhecimento, a quase totalidade dos fundamentos do reconhecimento passaram a ser cumpridos com menor risco para os exploradores, ou seja, o esclarecimento da situação ficou mais preciso, os informes passaram a ser obtidos com mais agilidade e precisão, o engajamento decisivo passou a ser mais facilmente evitado e o contato passou a ser mantido com maior proteção dos exploradores.  .
 
2. OPTRÔNICOS MODERNOS DE RECONHECIMENTO
 
2.1 LONG RANGE ADVANCED SCOUT SURVEILLANCE SENSOR (LRAS3)
 
O LRAS3 é um optrônico de reconhecimento de 2ª geração, utilizado pelos Pelotões de Exploradores, tropa de Cavalaria de Reconhecimento do Exército Americano (Figura 9).  Esse equipamento é instalado no reparo de metralhadora dos HMMWV ou Stryker. Ele proporciona que o explorador enxergue veículos à 20 Km de sua posição e que identifique esse veículo à 12 Km de sua posição.

O LRAS3 pode ser operado embarcado ou desembarcado. Quando desembarcado, ele é instalado em um tripé e tem uma autonomia de seis horas proporcionada por três conjuntos de baterias recarregáveis, sendo que a troca das baterias é executada sem desligamento. O peso de seu sensor é de 51 Kg, o tripé e o adaptador pesam 13,6 Kg, o conjunto de baterias pesa 17,7 Kg e o cabo de ligação para as baterias da viatura pesa 2,3 Kg, pesando assim um total de 84,5 Kg.

Esse equipamento possui visão Forward Looking Infrared (FLIR) com um campo de Visão Largo (campo de caçar) de 4X e um campo de visão Estreito (campo de matar) de 12X. Seu zoom Digital é de 2X ou de 4X. Seu zoom ótico é de 4X, 8X, 24X e 48X. Possui telêmetro laser, GPS com determinação de altitude e interface com FBCB2 (Gerenciador de Campo de Batalha – GCB americano) (Figura 10).

2.2 OPTRÔNICOS TERMAIS
 
Os sistemas de observação noturna exploram as “janelas espectrais” de 3–5 μm e 8–12 μm, as quais são, respectivamente, denominadas de MWIR (medium-wave infrared) e LWIR (long-wave infrared). Isto ocorre devido à melhor transmissibilidade pela atmosfera de radiação eletromagnética para certos tipos de materiais utilizados no detector. Assim, a atmosfera influi no desempenho da visão termal. Sensores MWIR (3–5 μm) operam melhor em ambientes quentes e úmidos e são mais adequados para longo alcance devido à menor influência da atmosfera neste sistema.

Por outro lado, os sensores LWIR possuem melhor desempenho em fumaça e poeira e reagem melhor ao contraste de temperatura. O sistema optrônico ideal de reconhecimento deve possuir dois campos, um em LWIR, isto é, na faixa de 8 a 12 μm e outro em MWIR, pois é mais adequado às operações de observação de longo alcance e por cobrir (somado ao sistema do LWIR) maior faixa do espectro eletromagnético.

Cabe ressaltar que as lições aprendidas com o emprego da VBC CC LEOPARD 1 A 5 Br, nos mostram que o Dispositivo de Imageamento Termal (DIT) é uma excelente ferramenta de busca do inimigo, tendo em vista que ele capta qualquer variação termal, se tornando fácil detectar viaturas camufladas, dentro e fora de vegetação, assim como, tropa a pé.

3. CONCLUSÃO
 
Em face do exposto, é interessante que nossas tropas de Reconhecimento Tático (Pel C Mec e Pel Expl dos RCC, RCB, BIB e dos futuros B I Mec) evoluam para o emprego de optrônicos de reconhecimento.

De acordo com a doutrina de emprego das tropas de reconhecimento, as frações integrantes das Unidades de Cavalaria Mecanizada, na execução das ações táticas decorrentes das missões de reconhecimento e segurança devem ser dotadas de meios modernos que ampliem sua capacidade operacional. Conforme explicitado no “Paradoxo do Reconhecimento”, torna-se interessante considerar a experiência de outros exércitos que comprovaram em combate que a ampliação da capacidade de enxergar mais longe se tornou mais eficaz que o aumento da blindagem dos meios de reconhecimento.

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O autor:  Cap Cav Odilson de Mello BENZI
Instrutor do Centro de Instrução de Blindados General Walter Pires (CIBld)

 
Fontes:
Scouts out! : the development of reconnaissance units in modern armies - McGrath, John J., 2008
 
To Fight or Not to Fight? Organizational and Doctrinal Trends in Mounted Maneuver Reconnaissance from the interwar years to Operation Iraqui Freedom – Robert S. Cameron, Ph.D. , 2004