Tenho acompanhado o
desenrolar da guerra no Iraque com bastante interesse. Embora também
pense que um confronto armado seja sempre um retrocesso para a
humanidade, a guerra não me causa tanta indignação porque entendo-a
como um fenômeno inerente à própria natureza humana. Enquanto houver
gente no planeta, haverá interesses nacionais em jogo, cuja busca
conduzirá invariavelmente as pessoas a considerar o uso da força como
alternativa justa e eticamente correta.
Nenhuma passeata,
manifestação pública ou expressão de arte em favor da paz entre os
homens demoverá os povos a deixar de defender seus interesses pelo uso
da força, quando ameaçados. Assim foi no passado e assim certamente
continuará sendo até o final dos tempos.
Mas, nesta guerra que
estamos acompanhando encontro-me desapontado com os analistas que os
meios de comunicação têm apresentado para opinar sobre ela. Esses
especialistas, do alto de sua festejada sapiência militar, na minha
avaliação, têm tão somente se restringido a repetir as
informações captadas nos
órgãos de comunicação internacionais.
São indesculpavelmente
limitadas as análises que fazem das operações militares tanto no campo
estratégico, quanto no tático. A grande maioria das observações
desses, assim chamados especialistas têm se restringido a descrever as
características técnicas dos armamentos empregados ou, então, a
criticar a forças da coalizão diante de eventuais dificuldades
encontradas por elas no curso das operações.
Ainda não ouvi ninguém
falar que esta foi uma espetacular façanha militar que tem poucos
paralelos na história. Deslocar mais de duzentos mil soldados de um
continente para o outro, adaptar os planos de guerra às contingências
políticas no decorrer da sua execução, empregar esses efetivos a
partir de uma só cabeça de praia (Kuwait) e avançar em território
inimigo com uma velocidade impressionante, buscando objetivos situados
a mais de 400 km de profundidade, são fatos que não podem deixar de
ser considerados e analisados com bastante intensidade pelos
comentaristas.
Não foram, também, alvo
das observações as extraordinárias dificuldades de uma operação
militar de conquista de um país do tamanho de Minas Gerais, um
território desértico, com uma população de 24 milhões de habitantes(
estimado).
Por outro lado, ficou
também claro que apesar da parafernália tecnológica a serviço das
forças da coalizão, a conquista de cada um dos objetivos militares
ainda dependeu da coragem individual do soldado que foi lá no combate
corpo a corpo expulsar o inimigo e tomar posse de cada ponte, cada
casa, cada cruzamento, enfim, cada palmo do terreno. A velha e boa
infantaria que aposta no valor moral e profissional do soldado,
continua dando a última palavra no campo de
batalha.
É preciso considerar que
é algo inédito na história das guerras a conquista de uma cidade com
mais de 5 milhões de habitantes. Bagdá é a maior cidade jamais
conquistada por forças militares na história das guerras. Mas não é
só. Cidades com Basrah e outras com mais de um milhão de habitantes
não são fáceis de conquistar. As operações para conquistar núcleos
urbanos são complexas e exigem grande coordenação.
Seria preciso que os
comentaristas observassem que é enganosa a vantagem que a tecnologia
oferece ao soldado A extraordinária supremacia tecnológica dos
anglo-americanos, na verdade, teria sido bastante minimizada depois
das operações terem iniciado em território iraquiano, não tivessem os
soldados daquele país surpreendentemente mostrado ter muito pouco
valor militar. Ora, mesmo com supremacia aérea, mesmo dispondo de
superioridade tecnológica incomparável, o avanço das forças invasoras
não encontrou obstáculos consideráveis na defesa oferecida pelos
iraquianos. Por que isso?
Algumas observações de
cunho pessoal.
Em primeiro lugar, independentemente da
tecnologia, as forças da coalizão puseram em prática um planejamento
militar que não tem nada de novo. Mas que somente exércitos altamente
preparados são capazes de executá-los. Somente Alexandre, Aníbal,
Napoleão e os exércitos alemães na 2ª GM já haviam feito com êxito
algo parecido, cada um no seu tempo. A complexidade de operações deste
tipo requerem, como já disse, soldados muito bem treinados e muito bem
comandados, além de um apoio logístico impecável. A operação proposta
pelos aliados foi ousada e perigosa. Não é fácil marcar objetivos
táticos tão distantes para os comandos militares em operação, para
serem alcançados numa manobra de uma só etapa.
Para que uma operação
assim tenha êxito é preciso que elas sejam altamente descentralizadas,
haja grande flexibilidade por parte dos comandos em mudar
planejamentos com grande freqüência no curso das operações,
comunicações amplas e flexíveis, apoio aéreo e de fogo com grande
eficácia na linha de frente, além de um sistema logístico eficiente. Não é fácil compor
com competência este conjunto de fatores altamente
heterogêneos.
Mas, as forças aliadas
conseguiram compor essas variáveis ao seu favor, o que é uma
extraordinária demonstração de competência
militar.
Em segundo lugar, as
forças anglo-americanas foram enormemente favorecidas pelo fraco
desempenho militar do exército iraquiano que há mais de um ano sabia
que a invasão de seu território era possibilidade iminente. A história
do século passado tem mostrado que os soldados dos países árabes são
extremamente mal preparados para a guerra. Baixa moral e deficiente
preparo profissional os têm feito presa fácil de seus adversários. Os
israelenses que o digam. Enquanto individualmente são capazes de se
imolar por Alah sem maiores problemas, como tropa são vulneráveis ao primeiro
impacto.
Mesmo que os americanos
não nos sejam simpáticos, é preciso reconhecer que foram extremamente
competentes no campo de batalha.
Mas, voltando às operações
militares no Iraque, gostaria de tocar em dois pontos que considero
relevantes. Primeiro é a escolha do objetivo político nesta guerra,
finalmente acertado. Na guerra do golfo o objetivo de libertar o
Kuwait, foi modesto e sabidamente não levaria a uma vitória
definitiva. É sabido que uma guerra só estará vencida quando o inimigo
tiver capitulado, com o moral quebrado e seus dirigentes capturados ou
mortos, portanto, sem qualquer possibilidade do país continuar
existindo com as mesmas estruturas de que dispunha até o começo do
conflito. É princípio de
guerra do objetivo. Os americanos já haviam negligenciado a
aplicação deste objetivo, tanto no Vietnam Nem, quanto no próprio
Iraque. Pagaram o preço e agora vieram dispostos a corrigir seu erro.
Outro aspecto que eu
gostaria de comentar é a disposição do soldado americano para a luta.
É um estado de espírito que impregna os militares americanos e que foi
copiado dos alemães. Eles evidentemente não admitem a adoção deste
sistema de relacionamento de comando que os alemães chamam de
“auftragtaktik”.
General Flávio Oscar Maurer,
participou de Missão de Paz no Suez e além de Comandos Militares teve
dedicada participação no CCOMSEX.