15 de Setembro, 2012 - 12:32 ( Brasília )

Defesa

O Brasil de olho na Copa 2014 e nas Olimpíadas 2016

Entrevista com o Major-Brigadeiro-do-Ar Roberto Carvalho, Sub-Chefe de Assuntos Internacionais do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas do Brasil

Marcos Ommati

 

O Major-Brigadeiro-do-Ar Roberto Carvalho, Sub-Chefe de Assuntos Internacionais do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas do Brasil, em uma entrevista exclusiva a Diálogo, durante a Conferência Sul-Americana de Defesa (SOUTHDEC 2012), realizada em Bogotá, na Colômbia, entre os dias 24 e 26 de julho, enfatizou a importância da coordenação na área de segurança feita pelas Forças Armadas em vista aos próximos chamados mega-eventos que o Brasil irá sediar: a Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas 2016.

Diálogo: Com relação à sua apresentação e aos próximos mega-eventos que o Brasil vai sediar. Os Jogos Mundiais Militares foram um sucesso em termos de segurança, de acordo com as autoridades brasileiras. Essa base estratégica de inteligência, de troca com outros países, vai ser usada também na Copa do Mundo e nas Olimpíadas?

Major-Brigadeiro-do-Ar Roberto Carvalho: Sim, nós contamos com o apoio dos Estados Unidos, já recebemos várias visitas, já obtivemos informações. Observamos atentamente a Inglaterra, durante a Olimpíada em Londres, e já estamos nos preparando há algum tempo para aquela série de eventos, que nós chamamos de grandes eventos. Os Jogos Mundiais Militares e também a Rio+20 já foram dois laboratórios, duas experiências, ambas as atividades tiveram sucesso na área de segurança. Foram coordenadas pelas Forças Armadas e com o apoio muito forte da gente. Claro que todo o seguimento de segurança do país é envolvido: Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícias Militares etc. Mas a coordenação desses eventos basicamente foi feita pelo Exército brasileiro. Os próximos eventos terão, talvez, uma conotação diferente, porque a presidente Dilma Rousseff determinou a criação de um órgão, uma secretaria de grandes eventos dentro da Casa Civil, visando a tudo isto até culminar em 2016. Então, já estamos trabalhando desde a criação desta organização e preparando-nos, vendo as necessidades e buscando recursos, dimensionando os recursos necessários, para que, quando chegar o momento da execução, estejamos preparados.

Diálogo: Em termos de segurança nacional, qual é a maior ameaça atual para o Brasil?

Maj Brig Carvalho: O Brasil, felizmente, não tem contenciosos, como os seus vizinhos. Todas as nossas disputas territoriais, de fronteira, que porventura existiram no passado, estão resolvidas hoje. Então, nós consideramos que não temos ameaças externas ao nosso país, mas temos as ameaças que nascem conosco, como também as que vêm de outras partes, os crimes transnacionais. Então, a nossa maior preocupação hoje são exatamente estes crimes que tanto tratamos aqui na conferência: tráfico de drogas, tráfico de pessoas; os crimes transnacionais são as novas ameaças que conhecemos.

Diálogo: O fato de o Brasil ter passado a ser um país de maior consumo de drogas constitui uma espécie de ameaça?

Maj Brig Carvalho: É, isto mostra como a sociedade evolui para o bem ou para o mal, então nós temos que realmente tentar coibir este processo. Todos nós sabemos que é muito difícil, é um trabalho incessante, e esperamos que surta efeito este trabalho. Queria ressaltar que, no Brasil, na verdade, o combate ao tráfico de drogas não é atribuição das Forças Armadas, é basicamente do ministério da Justiça, e o ministério da Defesa contribui com todas as suas possibilidades, as suas capacidades, ao trabalho do ministério da Justiça. Isto é o que eu queria registrar, que embora tenhamos toda a preocupação, soframos com este problema, realmente a primeira linha de ação é do ministério da Justiça.

Diálogo: Com relação a acordos bilaterais, o Brasil tem interesse em aumentar esse tipo de acordos? E com relação aos transnacionais?

Maj Brig Carvalho: Bom, nós temos vários acordos com muitos países. A palavra de ordem do ministério da Defesa é que a nossa atuação externa é relativa à cooperação. A linha de orientação do nosso atual ministro, Celso Amorim, é, para a América do Sul, a cooperação e auxílio a outros países que tenham menos possibilidades, de forma que este subcontinente, como um todo, possa exercer uma ação dissuasória. Havia no passado uma ideia de dissuasão do país, então o Brasil tinha que ser forte para dissuadir. Hoje, na visão que nós temos, a América do Sul tem que ser forte como um todo, para poder dissuadir eventuais ameaças que, felizmente, não existem.

Diálogo: Há um tema recorrente nessas reuniões, que é o da possível criação de um organismo regional para combate ao narcotráfico e coordenação de outros eventos, como desastres naturais, ajuda humanitária etc. O Brasil normalmente é citado como um possível líder regional natural, por seu trabalho. O que o senhor tem a dizer sobre isto?

Maj Brig Carvalho: O combate ao narcotráfico, como já mencionei, é uma atribuição maior do ministério da Justiça, e os desastres naturais são tratados por um órgão de Defesa Civil do Brasil, mas o ministério da Defesa está sempre envolvido em todos esses temas. Nós costumamos tratar desses assuntos no âmbito do Conselho de Defesa Sul-Americano, preservadas essas atribuições dos outros ministérios aqui citadas. Não tenho conhecimento da criação de um organismo regional. Os nossos países estão se reunindo com muita frequência no Conselho de Defesa Sul-Americano e tratando ali dos temas de defesa.

Diálogo: Com relação à Força Aérea especificamente, quando se fala das missões de paz do Brasil no Haiti, no Líbano etc. por que não há uma divulgação maior?

Maj Brig Carvalho: Eu acho que isto é um pouco da vocação das forças: o Exército é uma força terrestre, ela ocupa o terreno, a Marinha tem uma característica também de presença maior, e a Aeronáutica é mais o apoio. A nossa missão é a de defender o ar, é controlar o ar, então não é tanto a nossa vocação, mas temos a Infantaria da Aeronáutica e o nosso interesse é desenvolvê-la. Por isso é que nós fizemos gestões para que enviássemos um pelotão ao Haiti, para aprender com o Exército e com a Marinha e desenvolver o nosso pessoal, dando-lhes motivação, adestramento, treinamento e conhecimento. Então, nós estamos mandando para lá os melhores que nós conseguimos selecionar em determinadas regiões do país, para que o nosso pessoal da Infantaria da Aeronáutica possa também se aprimorar profissionalmente.

Diálogo: E, internamente, existem ações cívico-militares dentro do Brasil?

Maj Brig Carvalho: Isso é a nossa rotina. Nós apoiamos tudo o que é necessário, todo o governo, as forças, estamos sempre presentes; tudo o que é necessário apoiar, a Força Aérea brasileira apoia. Ela é muito visualizada quando acontece uma catástrofe, um deslizamento, uma enchente, um desastre de avião, então aparecemos muito, mas, na parte que não é visível, eu garanto a você que nós trabalhamos muito. Todas as forças e a Aeronáutica apoiando, devido até às dimensões do nosso país. É preciso ter um avião, porque senão demoramos muito ou nem chegamos.