11 de Janeiro, 2007 - 12:00 ( Brasília )

Defesa

CIVILIZED WARRIORS: Entrevista com o GENERAL DAVID PETRAEUS (US Army)

"Temos de ajustar nossas miras além do alcance do M-16"

Nota DefesaNet original in english

Em uma entrevista com o SPIEGEL, o General David Petraeus, ex-comandante no Iraque que agora é responsável pelo treinamento das tropas do United States Army, discute as lições de Bagdá, as razões pelas quais a guerra na pode ser vencida pelas armas somente e qual a razão dos futuros combatentes americanos necessitam de um curso de pós-graduação.(Nota DefesaNet no dia 05 Janeiro 2006 o General Petraeus foi promovido a quatro estrelas e nomeado para ser o Comandante da " Multi-National Forces - Iraq". Como comandante da 101 Airborne Division, na área de Mosul, terceira cidade do Iraque - o General Petraeus conduziu uma série de programas que em poucos meses estabilizaram o governo local reativaram a economia local, e organizou as forças de segurança locais. Outra missão foi a de treinar e equipar o exército e força policial do Iraque.)

SPIEGEL: General Petraeus, o Senhor estava no comando de operações no Iraque, supervisionava a reconstrução do exército e das forcas de segurança do Iraque, agora trabalha o treinamento e educação dos oficiais do Exército Americano aqui em Fort Leavenworth. O Senhor concordaria que os Estados Unidos está tentando impor uma revolução cultural no United States Army?
Petraeus:
Realmente há uma grande mudança cultural acontecendo. Nós dizemos que se você pode fazer o "big stuff": grandes operações combinadas, operações de grande intensidade e ter uma força disciplinada e motivada, então você pode fazer o chamado "little stuff". Isso mostrou-se incorreto.

Quando eu cheguei a Fort Leavenworth (U.S. Army Combined Arms Center), no ano passado (2005), todos sabiam desde o Chefe do Estado Maior descendo pela escala de comando, que nós necessitávamos de fazer mudanças substanciais no Exército. Meu antecessor, General William Wallace, cunhou o logo "motor de mudanças" para toda a organização que nos comandamos, e que testamos para depois ser aplicado ao Exército como um todo. Nós estamos lidando com novas doutrinas, novos conceitos em todos os níveis, que moldarão a educação de oficias, praças e líderes não-comissionados do Exército, e portanto influenciarão o treinamento de nossas unidades nos grandes centros de treinamento de combate. Todos terão de ser modificados com base nas lições que aprendemos em nossas operações militares, e daquelas que testamos.

SPIEGEL: Quais são estas lições?
Petraeus
: Nós trouxemos uma grande experiência do Iraque, da América Central e de alguma maneira de outras operações como: Haiti, Bósnia e Kosovo. Mas havia o sentimento da importância de reconhecer e compreender o grande impacto cultural, religioso e fatores étnicos - que chamamos do "terreno cultural", às vezes mais importante que o conhecimento do terreno físico nas operações contemporâneas. Nós tínhamos de lidar com estes desafios especialmente quando eles tornam-se importantes no planejamento e conduta de operações militares modernas.

SPIEGEL: O Senhor é co-autor de uma nova doutrina de contra-insurgência que será publicada esta semana (FM 3-24 - MCWP 3-33.5 COUNTERINSURGENCY publicado dia 15 Dezembro 2006). Quando se lê o Manual ficamos com a impressão que o Exército do futuro não será somente uma máquina de guerra , mas também uma agência tipo "nation-building".
Petraeus:
Nós revisamos o documento várias vezes para evitar incompreensões. Mas de maneira geral estamos falando de problemas muito complexos. Em áreas chaves nós tínhamos inúmeros paradoxos, grandes paradoxos. O que estamos tentando fazer é apresentar situações que necessitem intuição e por o pessoal realmente a pensar. E as operações de contra-insurgência são de Guerra ao nível de graduação, esse é o pensamento do combatente.

Um dos paradoxos, por exemplo: "A melhor arma em operações de contra-insurgência é: Não atire ( Don´t Shoot)". Bem isso é válido em Mosul onde o nível de violência é baixo, e você tem uma situação onde dizemos: "Money is the best ammunition". Mas, se você está em uma ´area de Bagdá que é muito afetado pela violência. Então a melhor arma é atirar e a melhor munição é a munição real (the best ammunition is real ammunition). Tudo depende da situação, e é vital que os nossos líderes (comandantes militares no campo) compreendam essa realidade e constantemente avaliem e re-avaliem a situação em suas áreas de operações

O que não desejamos mais é simplesmente dar à tropa um checklist do que fazer e não fazer. Nós desejamos que eles pensem, não memorizem. Você sabe que grande parte disso é para jovens oficiais. Mas, nós temos de ser claros para eles, eles têm de saber: Você deve ser um guerreiro primeiro, isso é fato, é por isso que nós existimos para em muitos casos matar ou capturar "the bad guys". Mas, de outro lado, nós temos de ensinar-lhes: Você não está indo para eliminar uma insurgência à bala. Não, você deve afastar os elementos que nunca irão se reconciliar com o novo governo, com o sistema, para então tentar vencer o resto. Isso não é feito com tanques ou fuzis.

SPIEGEL: Essa visão é compartilhada pelo US Army?
Petraeus:
Sim. Você sabe, lógico que é menos claro que lutar em Bagdá, mas não me entenda errado. Lutar em Bagdá não é fácil. É muito, muito difícil, pessoais reais morrem e explodem e muitas coisas explodem também, mas nós sempre sabíamos como fazer as coisas, nós tínhamos refinado nossas técnicas de operações combinadas que são a parte mais sofisticada em nossa atividade. De fato posso afirmar que nós praticamos o "big stuff" por um período de tempo de 25 a 30anos, enquanto esperávamos o grande avanço das tropas blindadas Soviéticas e do Pacto de Varsóvia no "Passo de Fulda", ou no norte da Alemanha (Nota DefesaNet: O avanço sobre a Alemanha o que era reconhecido como o plano básico do Pacto de Varsóvia para uma Guerra convencional, ou com emprego de armas nucleares táticas, contra a OTAN)

Mas essa outra atividade, que nós chamamos de "little stuff" - a construção de infra-estrutura civil, o combate contra violência separatista, o trato com líderes locais, é muito, muito desafiador devido a não ter um padrão ou norma a ser seguido e que nós temos de ser treinados para tal. As demandas são muito diferentes. Quando tratamos de insurgência, não há um exército do outro lado, nem batalhões, o inimigo não se expõe, fica tudo com a inteligência.

SPIEGEL: Na sua visão , qual o oficial ideal hoje?
Petraeus:
Certamente temos de ser guerreiros primeiro. Obviamente a Guerra é a nossa existência. Mas nós também desejamos líderes que possam fazer mais que lutar. Nós desejamos o que nós chamamos de um Líder penta-atleta, metaforicamente - um líder que não é somente um corredor (sprinter), mas também um corredor de longa distância e um saltador (high jumper). Nós necessitamos de pessoas que sintam-se bem e aptas em todo o espectro de um conflito e não somente em operações de combate. Elas deverão compreender um conflito em um sentido mais profundo, suas origens e a natureza dele. Operações de contra-insurgência, são de fato um mix de ações ofensivas, defensivas e de estabilização, e pode incluir a reconstrução da infra-estrutura civil, poços artesianos, dar bolas de futebol, tomar chá com lideres da comunidade ou o que você quiser mais.

SPIEGEL: Você propaga a idéia que jovens oficiais devem ir a um curso de pós-graduação. Qual a razão de um soldado necessitar de um "master degree"?
Petraeus
: Nós estamos falando de como reagir à incerteza, não são tarefas comuns , estamos falando de ambientes que são muito diferentes daqueles que usamos. Você tem de trabalhar com uma língua estrangeira, você tem de negociar com pessoas com outro perfil religioso, e que não compartilham com você os mesmos princípios básicos. Agora você indo para uma escola de pós-graduação, coloca-o fora de uma zona de conforto intelectual - e é o que um jovem oficial deve experimentar.

Você sabe, nós do Exército, temos de admitir, que vivemos em uma árdua clausura. Nós trabalhamos duro, porém tendemos a viver em um tipo de clausura a maior parte de nossa vidas. Então nós temos de ajustar, como um dos meus colegas afirmou, a mira do M-16 para além do alcance máximo efetivo. Escolas que nos coloquem fora de nossa zona de conforto intelectual nos ajudam a fazer isso.