15 de Julho, 2012 - 13:29 ( Brasília )

Defesa

Uma história belicosa

Após anos de glória, setor de defesa do país foi à guerra para sobreviver

DefesaNet

Excelente série de 3 artigos publicados na edição de O Globo, 15JUL12:

Superbélicas verde-amarelas - Grandes empreiteiras receberão incentivo para expandir setor. Governo quer aumentar exportações Link

Uma história belicosa - Após anos de glória, setor de defesa do país foi à guerra para sobreviver Link

Gen MATTIOLI - Haverá união das grandes empresas - Para o Gen MATTIOLI a "Colaboração do setor privado ajudará indústria bélica no Brasil Link

Paulo Thiago de Mello


Estrela do setor exportador brasileiro nos anos 70 e 80, quando alcançou o auge em vendas, faturamento e prestígio, a indústria bélica do país mergulhou, a partir do fim dos anos 80, numa crise que culminou com a total reestruturação do segmento de defesa, que passou por concordatas, falências e privatizações. Empresas como Imbel, Engesa, Avibrás e Embraer tiveram que enfrentar uma guerra que incluiu calotes de clientes, crises econômicas, corrupção e concorrência com gigantes americanos. Nem todas sobreviveram.

No início dos anos 80, a carteira de exportações do setor de defesa brasileiro girava em torno de US$ 1,5 bilhão. Os tanques e veículos blindados da Engesa, como o Cascavel, o Tamoyo e o Urutu; o lança-foguetes Astro II, da Avibrás; os aviões Bandeirante, Xingu e Brasília, da Embraer; e os fuzis, pistolas e explosivos da Imbel estavam presentes nas Forças Armadas de mais de 30 países de América do Sul, Oriente Médio e Ásia. O prestígio era tanto, que executivos dessas empresas tinham praticamente status de ministros e influenciavam a diplomacia do Itamaraty, aproximando o Brasil do Iraque de Saddam Hussein e da Argélia de Muamar Kadafi.

A partir de meados dos anos 80, o calote de Saddam, que não pagou os tanques que comprara, e a perda de um contrato bilionário com a Arábia Saudita abalaram a saúde financeira da Engesa e da Avibrás. Ambas começaram a demitir, e a Engesa, que chegou a empregar 12 mil pessoas, pediu concordata em março de 1990, com US$ 150 milhões em dívidas. A Avibrás fizera pedido semelhante em janeiro do mesmo ano, com rombo avaliado em US$ 200 milhões.

A perda do contrato saudita foi particularmente cruel para a Engesa, que investiu quase todo seu capital para produzir um tanque pesado com tecnologia nacional, confiando nas negociações com o país do Oriente Médio. Para analistas da época, a Engesa subestimou o poder de convencimento e a influência dos americanos, e o contrato acabou fechado com a rival General Dynamics. O processo falimentar da Engesa que se seguiu foi ainda marcado por acusações de corrupção e processos do Ministério Público contra ex-diretores da empresa.

Fundada em 1969 e privatizada em 1994, a Embraer ocupa um importante lugar no setor aeronáutico, competindo com a canadense Bombardier pela liderança dos construtores de aviões regionais, militares e executivos, entre os quais o Super Tucano, de vigilância. Suas estratégias de crescimento incluem parcerias com outros países, como a Itália e a China. Mas a empresa também foi afetada por crises financeiras internas e externas. Em 2006, foi reestruturada.