19 de Abril, 2011 - 09:40 ( Brasília )

Defesa

Energia como fator de segurança nacional


Antonio M. Buainain e José Maria da Silveira

Na apresentação do livro Biomassa - a eterna energia do futuro, escrito pelo professor Gilberto Vasconcellos em 2002, o fim do petróleo e do carvão mineral é anunciado. Desde o final dos anos 70 o professor associava a questão energética aos temas de desenvolvimento econômico e de segurança nacional num sentido francamente "anti-imperialista". Todavia, o cenário internacional e mesmo o cenário interno vêm-se transformando de forma vertiginosa. Passamos rapidamente de uma situação em que as vantagens comparativas do etanol de cana-de-açúcar e suas benesses ambientais eram irrefutáveis para colocá-los no meio de um debate acirrado e complexo.

Fale mal, mas fale de mim. Todo pesquisador brasileiro da área sente a responsabilidade de contestar afirmações peremptórias de que há um elo de ligação entre a expansão da área cultivada para fins energéticos e a destruição da Floresta Amazônica. O professor Bruce Babcock, da Universidade de Iowa, em seminário sobre bioenergia na Universidade de Berkeley, mostrou suas "fotos tiradas do avião" para comprovar como a agricultura devastava a floresta, justamente no município modelo de Lucas do Rio Verde, na fronteira entre a Floresta Amazônia e o Cerradão. Suas fotos não mostravam qual o tipo de vegetação foi retirada, mas a crítica estava feita. E correu o mundo!

O debate não se restringe ao corte da floresta. O custo de conversão de terra agrícola em terra para energia vem sendo associado ao fato estatístico de que os preços de energia e de alimentos agora caminham juntos, o que não ocorria antes da segunda metade da presente década. Isso abre espaço para que as declarações do presidente do Banco Mundial sobre o impacto da alta de preços dos alimentos sejam entendidas como um alerta às alternativas energéticas que envolvam cultivos em regiões agrícolas do continente americano, em vez de serem interpretadas como um apelo para maior atenção com a pesquisa agrícola mundial.

Um mais um é igual a mil, é a regra da mídia atual. Dois argumentos contrários são suficientes para se contrapor o fato de que a bioenergia tem menos impactos ambientais não só no presente, mas também a partir da projeção de suas possibilidades futuras?Acreditamos que não, mas agora temos pela frente de defender o etanol de cana das alternativas que se desdobram das pesquisas voltadas para as chamadas 2.ª e 3.ª gerações, do etanol de celulose até o uso de algas marinhas, áreas em que acompanhamos as pesquisas internacionais, mas não lideramos.

O Energy Biosciences Institute (EBI), uma ação conjunta da Universidade da Califórnia em Berkeley, Universidade de Illinois, Lawrence Berkeley National Laboratory e a British Petroleum iniciada em 2007, tem um orçamento de US$ 500 milhões em dez anos com foco em 2.ª geração, utilizando fontes alternativas ao milho e visando também ao aproveitamento de resíduos dos cultivos agrícolas. Segundo Madhu Khanna, da Universidade de Illinois, o crescimento do uso de bioenergia de 2.ª geração atenuaria em muito os efeitos que seriam atribuídos ao etanol de 1.ª geração, caso este tivesse de substituir progressivamente as fontes de energia fóssil.

Infelizmente, o cenário "todos unidos" para um Brasil potência energética passa a depender de encararmos, como os EUA, a questão energética como de segurança nacional, e que passemos a definir prioridades não só a partir das facilidades resultantes dos acertos do passado, mas do binômio competição e cooperação, típico das economias de redes atuais. Isso implica encontrar soluções para a cana-de-açúcar não só no campo da produção de etanol de 1.ª geração (cujos ganhos de produtividade em dez anos foram elevados), mas de sua articulação com o uso energético de resíduos e o uso do etanol (e da biomassa em geral) como matéria-prima da indústria petroquímica, entre outros usos.

O desastre atômico no Japão serve como um chamado: potência energética ou produtores de cana-de-açúcar? Temos de decidir isso rapidamente.

Professores do Instituto de Economia da Unicamp