18 de Abril, 2011 - 09:32 ( Brasília )

Defesa

Programa brasileiro de defesa atrai o interesse das múltis


Virgínia Silveira

O desenvolvimento de um sistema integrado nacional para comando e controle do território brasileiro, direcionado à vigilância e proteção de áreas estratégicas, está movimentando a indústria brasileira de defesa e atraindo um grande número de empresas estrangeiras. Elas vêm ao país em busca de parceiros locais para disputar os contratos decorrentes da Estratégia Nacional de Defesa (END) que, segundo o mercado, devem gerar negócios superiores a US$ 35 bilhões.

O potencial do mercado brasileiro de defesa pode ser comprovada na Laad Defence & Security 2011, mais importante evento do setor de defesa e segurança da América Latina, que nesta edição praticamente dobrou o número de expositores, sendo 75% deles empresas estrangeiras. A área interna da feira também dobrou de tamanho para abrigar as empresas, delegações nacionais e internacionais, além de associações e institutos de pesquisa e tecnologia de vários países.

Para fortalecer suas capacidades em áreas de interesse desses programas, as grandes do setor, como Embraer, Odebrecht e Synergy, estão se associando às nacionais com expertise em tecnologias de radares, veículos aéreos não tripulados, mísseis e de sistemas integrados de comando, controle, inteligência e comunicações, chamado de C4i.
Durante o evento, a Orbsat, adquirida pela Embraer, assinou carta de intenção com a Força Aérea Brasileira (FAB) para a venda de quatro radares Saber M-60, que integra as funções de busca e vigilância em baixa altura. O radar é o mesmo que fez o mapeamento de uma área de 1,142 milhão de Km2 na Amazônia para o projeto Cartografia da Amazônia, contratado pelo Exército.

Além de programas como o do cargueiro KC-390, desenvolvido pela Embraer e que substituirá o C-130 em missões de transporte tático e logístico, o governo também está investindo na compra de 50 helicópteros EC-725 e no programa de submarinos e de navios. Embora suspenso, continua em andamento o processo de aquisição de 36 aeronaves de combate, estimado entre US$ 10 bilhões.

No Exército a prioridade é o desenvolvimento do veículo blindado anfíbio VBTP Guarani, em parceria com a Iveco, do grupo Fiat. O projeto prevê investimentos da ordem de R$ 120 milhões, além dos R$ 35 milhões que serão empregados pela FPT Powertrain, também do grupo italiano, para a produção do motor diesel de 9 litros.

Outra prioridade Exército é o Sistema de Vigilância de Fronteiras (Sisfron), que cobrirá uma área de 16 mil Km2, em especial na região Centro-Oeste, rota principal para o narcotráfico e o contrabando de armas. A Atech, com larga experiência na integração de sistemas para o Programa de Vigilância da Amazônia (Sivam), está desenvolvendo o projeto de concepção operacional e configuração.

Segundo o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, ao final do projeto de conceituação macro será possível definir a arquitetura do sistema, que será composto de radares, sensores eletrônicos, veículos aéreos não tripulados (vants) e de sistemas C4i, que integrarão dados e informações do Sisfron, do Sivam e do SISGAAZ (Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul). Para esse trabalho inicial a Atech, segundo seu presidente, Tarcísio Takashi Muta, receberá cerca de R$ 20 milhões.

Na disputa pelo fornecimento dos sistemas C4I, a Embraer está com a Atech, da qual recentemente adquiriu uma participação de 50%. A Atech desenvolve soluções de comando, controle e inteligência, assim como possui o domínio da tecnologia de controle de tráfego aéreo. Ela participou da implantação do sistema brasileiro em parceria com a francesa Thales.

Foi também com outra empresa europeia, a Cassidian, braço de defesa da gigante aeroespacial EADS, que a Atech assimilou parte do conhecimento que adquiriu na área de C4I, ao participar do desenvolvimento e integração de sistemas de missão da aeronave P-3 de patrulha marítima da Força Aérea Brasileira (FAB). A frota de nove aviões P-3 da FAB está sendo modernizada pela EADS/Cassidian na Espanha, um contrato de US$ 300 milhões.

O presidente da recém-criada Cassidian do Brasil, Christian Grass, executivo com larga experiência no grupo EADS no Brasil, está envolvido agora com a criação de um centro de competências da empresa em engenharia de sistemas, que já conta com um núcleo de 15 engenheiros brasileiros. "Num prazo de cinco anos teremos mais de 100 engenheiros trabalhando no atendimento das necessidades do mercado de defesa brasileiro e também para a exportação em outros países da América Latina, África e Angola", disse.

O grupo Cassidian já fornece equipamentos de segurança para forças policiais no Brasil, e iniciou um processo de fortalecimento de sua atuação na área de defesa, com foco em sistemas para controle de fronteiras, costas, modernização e digitalização das forças armadas. Em 2010 a companhia formou uma joint-venture com a Odebrecht com o objetivo de fornecer soluções integradas em sistemas para a segurança civil e para as Forças Armadas.