06 de Abril, 2012 - 12:00 ( Brasília )

Defesa

A elite na sociedade democrática


Alberto Carlos Almeida,
Sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro"
e "O Dedo na Ferida: Menos imposto. Mais consumo".


No mês passado estive em um evento que tratou sobre como combater a corrupção no Brasil. Depois de uma apresentação cujos principais dados foram extraídos do meu livro "A Cabeça do Brasileiro" foi aberta a seção de perguntas e respostas. A visão predominante da sociedade brasileira sobre temas que têm impacto sobre a corrupção acaba por favorecer a prática de ilícitos. A maioria dos brasileiros tem uma ética familista, tem uma visão de mundo hierárquica, prefere mais estado intervindo na economia e apoia o jeitinho. Todos estes fatores são um terreno fértil para a corrupção. Na medida em que a escolaridade do Brasil melhora, esta mentalidade vai sendo enfraquecida e a sociedade passa a se opor de maneira mais clara à corrupção. Isso leva tempo, é preciso ser paciente.

Concluída a apresentação inicial, uma das perguntas referia-se ao nível atual de nossos congressistas. Argumentou-se que há muitos anos atrás nossos deputados federais eram pessoas de um nível mais elevado do que são hoje. Na realidade, não é segredo para ninguém que, de fato, tínhamos deputados mais bem preparados intelectualmente. Essa mudança que levou décadas para ocorrer nada mais é do que reflexo da democratização de nossa sociedade.

Qualquer um que visite uma prefeitura no Brasil deve procurar a galeria de fotos dos prefeitos do passado. Quanto mais antigo o município, melhor será o exercício antropológico. Se tomarmos somente o século XX veremos que a galeria de fotos revelará prefeitos, entre 1920 e 1980, bem vestidos com ternos bem cortados, cabelos aparados e bigodinhos muito bem desenhados. Muitos deles eram fazendeiros, pessoas de boa criação que provavelmente sabiam não somente o bom português, mas também alguma língua estrangeira em um município onde a grande maioria sequer era alfabetizada.

Quando a sequência de fotos adentra pelos anos 1980 há uma mudança abrupta nas fotos. Em algum ano desta década o prefeito eleito deixou-se fotografar, como foto a ser colocada na referida galeria, sem terno, com a camisa aberta até o peito e eventualmente com um colar grosso, podendo ser de ouro ou de prata. Mais do que isso, não há nem cabelo aparado, nem bigodes bem desenhados. Esses prefeitos certamente não eram alguém da elite local, mas de origem humilde. Muitos deles não falavam o português corretamente, o que não dizer de conhecerem alguma língua que não fosse a nossa. Depois dos anos 1980 não há mais retorno a fotos de prefeitos da elite local. Ela foi politicamente substituída por representantes do povo.

Enquanto nossos prefeitos eram oriundos da elite a taxa de alfabetização da população era sofrível. Na medida em que o povo entrou na política, defendendo seu interesse e sendo sensível às demandas de seus pares, ele passou a investir mais na educação e na saúde da maioria dos eleitores. No passado os prefeitos eleitos tinham um primeiro nome e, como um bom membro da elite, vários sobrenomes. A partir dos anos 1980 os nomes mudaram radicalmente, nada mais comum no Brasil do que políticos populares e que atendam às demandas da população cujos nomes sejam: Nelson do Posto, Aramando da Padaria, Chiquinho do Atacadão, Marcelo do Armazém e assim por diante.

O Brasil passou por um processo irreversível de democratização no qual os pobres descobriram que podem ser eleitos e eleger. Lula é o maior símbolo dessa democratização. Ele foi eleito presidente em 2002, praticamente 20 anos depois da primeira geração de prefeitos semelhantes a ele. O mesmo ocorreu com a nossa Câmara dos Deputados e com o nosso Senado. As suas portas foram abertas a todos. Não significa que isto tenha levado a um aumento da corrupção, afinal, não é simples medir corrupção. Mais do que isso, para uma determinada elite do passado a corrupção nem se colocava porque o poder público nada mais era do que a extensão de seu patrimônio, isto é, o uso privado do setor público era feito ostensivamente e sem cerimônias por meio de decisões legais e legítimas que transferiam de forma inquestionável recursos públicos para as mãos de particulares. Essa elite obviamente nunca precisou da corrupção.

Com base nos dados de pesquisa podemos sim afirmar que representantes menos escolarizados tendem a tolerar mais a mentalidade que leva à corrupção do que representantes mais escolarizados. A questão é: e daí? A sociedade se democratizou e nossos representantes de hoje, bem menos elitizados do que os do passado, representam uma sociedade igualmente pouco escolarizada, ainda que venha melhorando de forma contínua neste aspecto nas últimas décadas. A democratização, não custa repetir, é irreversível. O que se pode fazer é aumentar o ritmo de escolarização da sociedade porque isso terá um impacto formidável não somente na qualidade dos políticos do futuro, que terão mais anos de estudo e com maior qualidade, mas principalmente porque essa sociedade controlará mais ativamente os políticos opondo-se de forma mais consistente à utilização privada de recursos públicos. Menos democratização não ocorrerá, o que pode ocorrer é mais escolarização.

Sabe-se por meio de pesquisas que quanto menor a escolaridade de uma pessoa, mais ela acredita que sua ação, seu voto, sua opinião não tem impacto sobre a decisão política. É uma questão de crença. Na medida em que aumenta a escolaridade essa mesma pessoa passa a acreditar que seu voto pode mudar alguma coisa. Os pobres de hoje são mais escolarizados do que os pobres de 20 anos atrás. Eis que surge o PT fazendo exatamente esse discurso. Essa ampla democratização do Brasil trouxe consigo o PT, Lula e muitos outros políticos que falam a linguagem do povo.

Na semana passada Obama foi fotografado junto a David Cameron, primeiro-ministro conservador britânico, assistindo um jogo de basquete em Ohio. Obama e Cameron comeram cachorro-quente na beira da quadra. Basquete é um jogo no qual a maioria dos astros são negros, cachorro-quente todo mundo come nos EUA, Ohio é um swing state (um estado que pode dar a vitória a um candidato democrata ou republicano), e Cameron está à direita de Obama. Ambos viajaram no avião oficial da presidência da república, o Air Force One, para ir assistir ao jogo. Obama foi nascido e criado em uma sociedade muito mais igualitária e democrática do que a nossa. É por isso que ele se comunica com todos. Nem Obama nem qualquer republicano com um mínimo de inteligência comunica-se de forma elitista.

Tancredo torcia para o América Mineiro. Brizola torcia para o Bangu. Lula é corintiano. A mudança de postura dos políticos de hoje face a seus pares do passado é notável. Não é necessário torcer para um time irrelevante para ser aceito pela maioria. Mais do que isso. Lula, quando ainda era presidente, colocou o isopor na cabeça ao sair da praia. Fernando Henrique subiu em jegue e comeu buchada de bode. Ele estava no Nordeste quando fez isso. Adicionalmente, FH disse que tinha um pé na cozinha. Eis o impacto que a democratização tem sobre a comunicação.

O que ocorre no Brasil hoje é que a comunicação adequada a nossa realidade de sociedade democratizada, com raras exceções por parte da oposição, é praticamente monopólio do PT. Parte da antiga elite dirigente do país não fez essa inflexão, nem fará, porque não foi criada e treinada para se comunicar com a massa. Tarde demais para mudar. Outra parte dessa elite não compreendeu ainda as mudanças pelas quais o Brasil passou. Eles acham que é possível ganhar uma eleição como nos velhos tempos e governar como se fosse para poucos. Isso não mais é possível.

Quando se pergunta para os brasileiros de todas as classes sociais em qual país gostariam de morar se fossem obrigados a deixar o Brasil, o primeiro colocado são os Estados Unidos e o segundo a Espanha. O mais interessante é que esse resultado agregado se deve às pessoas mais pobres e das classes mais baixas, são elas que em sua maioria esmagadora preferem nosso irmão do norte, a classe alta prefere proporcionalmente mais a Espanha. Moral do resultado: quem tem a vida ganha quer aproveitá-la indo a bons restaurantes e visitando bons museus, quem precisa melhorar e ralar quer ir para onde é possível crescer na vida.

É essa mentalidade europeia e, porque não dizer, oligárquica que é derrotada toda vez que ela precisa enfrentar em uma disputa eleitoral os brasileiros americanizados, os raladores que vem de baixo. Para estes, não há tempo feio, eles ousam, arriscam, inovam, comunicam-se de maneira clara com a maioria. Neste aspecto os norte-americanos tropicalizados são muito superiores àqueles que ainda se escandalizam com o nível baixo dos políticos brasileiros.

Serra é Kassab

O resultados das prévias do PSDB, nas quais 48% dos militantes mais aguerridos rejeitaram o nome de Serra, é um indicador importante das dificuldades que serão enfrentadas por o outrora todo-poderoso ex-governador de São Paulo. A rejeição ao nome de Serra ocorreu porque os tucanos sabem que pedir votos para Serra é o mesmo que pedir votos para fortalecer o projeto político de Kassab. Desde 2004, Serra nunca teve na capital mais do que 54% dos votos. Agora, junto aos filiados tucanos nas prévias, ele obteve seu pior resultado. Diz-se que para o bom entendedor meia palavra basta.