21 de Dezembro, 2011 - 01:00 ( Brasília )

Defesa

Andrade Gutierrez quer Energias de Portugal -EDP- e TAP

Otávio Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez, revela, em entrevista exclusiva, que empresa quer participar ativamente das privatizações em Portugal

Matéria Publicada no Brasil Econômico 30 Novembro 2011

Há executivos que na crise enxergam o caos. Outros, vislumbram oportunidades.

Este é o caso de Otávio Azevedo, presidente executivo do grupo Andrade Gutierrez, um dos maiores conglomerados empresariais da América Latina. Para Azevedo, o momento é ideal para aproximar empresários portugueses e brasileiros. "Estamos motivando o governo português e o governo brasileiro para aproveitarem este momento e fazerem uma aproximação definitiva do ponto de vista empresarial e até legal", disse o executivo em entrevista exclusiva ao jornal Diário Econômico.

Azevedo confirma o interesse do grupo, que no ano passado somou faturamento de R$ 18,1 bilhões com lucro líquido de R$ 775 milhões, em participar do processo de privatização de diversos setores em Portugal.

"Queremos comprar a participação do governo na pela EDP (Energias de Portugal)".

Otávio Azevedo também falou da frustração do grupo brasileiro quando a Portugal Telecom fechou parceria com a Telefónica da Espanha para criação da Vivo. "Ao fazer uma associação 50/50 entre PT e Telefónica criou-se uma impossibilidade a longo prazo, porque o vento que chegava do leste queria soprar muito forte". Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

A HISTÓRIA COM A PT

"Conquistar uma aliança com a Portugal Telecom sempre foi um sonho para a Andrade Gutierrez.
 
Já em 1998 tínhamos sido sócios da PT quando compramos a Telesp Celular. Nós tínhamos 28% do consórcio. Recordo-me que negociamos duramente com a PT e com a Telefónica que, naquela altura, participou com 19%... Era preciso muito dinheiro e decidimos ficar na liderança da Telemar e saímos do consórcio onde estava a Portugal Telecom. É curioso, mas nessa altura, a PT estava numa fase final de negociação com a Telefónica para a criação da Vivo.

Não foi possível fazer essa aliança e diante daquele cenário, decidimos constituir a Oi. Todavia, quando analisamos a geração de resultados que a Vivo conseguiu - e eu sei que é minha concorrente e sempre foi, por isso a respeito, embora não goste -, temos de reconhecer que grande parte do valor criado deve-se à presença da Portugal Telecom. E numa atitude comercial que permitiu conquistar a melhor fatia do mercado...

Essa foi a grande sacada. A Vivo tinha a banda A em São Paulo, no Rio, no Centro-Oeste e na Bahia. Com essa estratégia, eles conseguiram agarrar 80% do mercado de banda A-o melhor segmento, onde se situam os clientes de nível elevado".

PRIVATIZAÇÕES

"A Andrade Gutierrez está em Portugal há 24 anos através da Zagope, que é 100% do grupo.
 
A Zagope era, quando compramos, uma empresa pequena e hoje fatura € 1 bilhão. O que quero transmitir é que sempre tivemos um convívio muito bom com as empresas, com o governo e as diferentes autoridades.

Na verdade, nós temos tentado motivar o governo português e o governo brasileiro a aproveitarem este momento para fazerem uma aproximação definitiva do ponto de vista empresarial e até legal. Portugal vai ter de privatizar algumas empresas. Temos de pensar que este é um momento de aproximação e o Brasil pode ser um player importante e isso estende-se aos portos, saneamento, correios, à Transportes Aéreos Portugueses (TAP) , à Energias de Portugal (EDP) e aeroportos. Tudo. Agora, não quer dizer que os brasileiros devem chegar aqui e comprar tudo. Não é esse o nosso projeto, não é assim que deve ser. Tem de ter uma associação com empresários portugueses.

Temos de criar mercados e oportunidades para as empresas portuguesas e para as empresas brasileiras."

NOVOS NEGÓCIOS

"Hoje o grupo foca sua atenção nos negócios de concessões públicas, telecomunicações, energia e aeroportos. Há outras áreas importantes para nós: petróleo e gás e defesa.
 
No setor de petróleo e gás pretendemos ser um player importante já nos próximos três anos, mas em serviços. Não pretendemos entrar na exploração, mas na prestação de serviços.

Em exploração, bem, se surgir uma boa oportunidade...

Se surgir uma boa oportunidade de compra, o grupo pode estudar se vai entrar. Mas este não é o nosso foco. Na verdade nós temos uma oportunidade que pode resultar em negócios, mas não existe nada fechado.

Podemos trabalhar na fabricação de plataformas de petróleo, na fabricação de módulos, construção e instalação de plataformas.Outra área que queremos desenvolver é a de construção e operação de navios de abastecimento. Nos próximos anos, no Brasil, serão necessários milhares para manter a atividade normal das plataformas. Finalmente, queremos entrar no negócio da segurança física e ambiental das plataformas. Este negócio vai crescer. Somos líderes na energia hidráulica e nuclear e estamos entrando de forma muito forte na energia eólica."

BRASIL

"Neste momento registramos inflação, mas de procura. Há mais procura, mais gente comprando e isso é uma maravilha. São problemas diferentes do que se verificava no passado. É claro que o governo tem de controlar este processo. Agora, obviamente que os empresários não gostam de taxas de juros elevadas.
 
Há outras formas de controlar a inflação. O custo do capital é muito caro. As empresas têm de se controlar muito. Quem se endividar muito, vai quebrar. O Brasil não cresce mais, como China ou a Índia, em virtude das elevadas taxas de juros. São um entrave. Mas a inflação também é uma memória horrível.

Quando eu estava na Telebrás, vivíamos com uma inflação de 80% ao mês. Geríamos as empresas em permanente ruptura contratual. As empresas nem queriam receber, preferiam receber apenas no final do ano os valores corrigidos pela inflação.

Quanto ao governo atual, a presidente Dilma (Rousseff) está governando de forma absolutamente excepcional. Dilma Rousseff está provando que é possível governar dentro de um mecanismo de gestão muito forte.
 
Se tiver de resumir a gestão dela, até aqui, em uma palavra é positivíssima."