08 de Agosto, 2011 - 09:50 ( Brasília )

Defesa

Militares reivindicam verbas

Comandantes querem que o novo ministro da pasta viabilize projetos urgentes de reaparelhamento e recupere os salários

Tiago Pariz
Leonardo Santos

O novo ministro da Defesa, Celso Amorim, que toma posse hoje à tarde, conseguiu reverter a insatisfação inicial de militares com sua indicação para substituir Nelson Jobim. Agora, tem de lidar com pressões das Forças Armadas, que cobram atuação firme para evitar a reversão no fortalecimento político da pasta. O diplomata e ex-chanceler tem como missão inicial mostrar aos militares que terá capacidade e influência perante a presidente Dilma Rousseff para tirar projetos do papel e aumentar os recursos para Exército, Marinha e Aeronáutica.

A insatisfação de parte dos militares foi revertida graças a uma operação minuciosa, que contou com assessores do Ministério da Defesa nas primeiras horas em que Amorim foi indicado na sexta-feira. Também contribuiu a atuação decisiva de Dilma, que se reuniu pessoalmente com os comandantes das Forças e o chefe do Estado-Maior. Ela abriu caminho para a conversa que o novo ministro teve com os quatro na tarde de sábado. "Os comandantes receberam bem, as insatisfações foram distensionadas. O Celso Amorim vai assumir o posto e vai jogar o jogo. A bola está nos seus pés e o sucesso depende dele", comentou um oficial com cargo no Ministério da Defesa que pediu para não ser identificado.

Um dos primeiros projetos que mostrará se Amorim está bem posicionado para levar adiante o reaparelhamento das Forças Armadas é a recuperação da Avibrás, que projeta sistemas de lançamento de foguetes. Os ministérios do Planejamento e da Fazenda deram sinal verde para incluir a empresa, que enfrenta processo de recuperação judicial, no programa Refis-4, que trata de dívidas com tributos federais acumuladas ao longo dos anos. O Ministério da Defesa também recebeu aval das outras duas pastas para a compra do Astros 2020, sistema mais avançado de tecnologia nacional de foguetes, elaborado pela Avibrás. O Exército queria investir R$ 960 milhões nessa aquisição. Falta apenas a assinatura da presidente Dilma.

Otimismo
O general Leônidas Gonçalves, que foi ministro do Exército do governo José Sarney (1985-1990), disse estar otimista com relação à atuação de Amorim. "É um homem de experiência em altos cargos, conhece a questão internacional e tem todas as condições para se sair bem." Gonçalves espera que Amorim saiba reunir bem todas essas qualidades e use a proximidade com a presidente Dilma para conseguir recursos para o Ministério da Defesa. Gonçalves acredita que todos os cinco ministros antecessores de Jobim não conseguiram consolidar o papel institucional do Ministério da Defesa. "Os ministros anteriores foram muito fracos e sem condições técnicas de realizar o que se devia."

Hoje, essa questão está ultrapassada, na visão do capitão-de-mar-e-guerra reformado da Marinha Adalberto de Souza Filho, professor de estratégia e planejamento da Escola Superior de Guerra (ESG). "Não se questiona mais a importância de o Ministério da Defesa estar nas mãos de um civil", avaliou. "Essa etapa está ultrapassada. O que se discute é o revigoramento político do Ministério da Defesa", afirmou Souza Filho. Segundo ele, conta a favor de Amorim o fato de haver uma convergência entre as políticas de Defesa e Externa. "Não existe país que busque um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU sem estrutura de defesa respeitável", disse o professor da ESG.

Na avaliação do general Leônidas Gonçalves, o Brasil é um país pacífico, mas o crescimento da economia e o papel de destaque brasileiro no cenário internacional podem ocasionar choques de interesses daqui a 30 ou 40 anos. Por isso, um Ministério da Defesa forte é necessário para se preparar para o futuro. Ele lamentou que a pasta tenha sofrido diversos reveses orçamentários este ano. "As prioridades do governo para as Forças Armadas estão equivocadas. Tem novos patrimônios que precisam ser defendidos", afirmou.

As mulheres e os parentes dos militares realizaram protesto ontem pedindo reajuste salarial. Durante a tradicional troca da Bandeira Nacional, na Praça dos Três Poderes, eles cobraram o reajuste de 135% no soldo, para atingir o poder de compra de 10 anos atrás. Segundo manifestantes, a conta foi feita com base na perda salarial e na diferença entre as polícias e o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal. Durante a cerimônia, a manifestação foi silenciosa. Mas assim que acabou o evento, o grupo promoveu um panelaço e usaram um megafone para chamar a atenção de oficiais do Exército.