05 de Agosto, 2011 - 09:52 ( Brasília )

Defesa

Desafio de Amorim é conquistar cúpula militar

Ex-chanceler defendeu aproximação com Irã e tem relações estreitas com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez

Eliane Oliveira

BRASÍLIA. O ex-chanceler Celso Amorim foi escolhido para assumir o Ministério da Defesa por pelo menos duas razões: sua larga experiência em temas relacionados à segurança internacional e por pertencer a uma carreira de Estado, hierarquizada e disciplinada, semelhante à exercida pelos militares. A opinião do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que nunca poupou elogios ao seu chanceler, também deve ter pesado. Nos bastidores do governo, dizia-se ontem que o grande desafio de Amorim será conquistar a simpatia da cúpula das Forças Armadas.

José Viegas, o último diplomata que assumiu o Ministério da Defesa, não teria conseguido atingir esse objetivo. Nelson Jobim foi o civil que se entendeu com os militares, depois do vice José Alencar.

Amorim pretendia voltar a dar aulas
Aposentado desde 2007 do Itamaraty, Amorim estava concluindo um livro sobre sua experiência nos últimos anos e se preparava para voltar a dar aulas. Decidiu suspender esses projetos e atender ao chamado da presidente Dilma.
Amorim está em João Pessoa, onde participa de um seminário, e só voltará a Brasília segunda-feira, quando se encontrará com a presidente. Ele foi convidado ontem à tarde pela própria Dilma e aceitou.
No governo Lula, Amorim tomou atitudes polêmicas, como a aproximação com o Irã e a defesa veemente de que o país possa ter uma política nuclear. Também tem laços de amizade com os chamados líderes bolivarianos da América do Sul, como o presidente Hugo Chávez, da Venezuela.
Segundo pessoas próximas à presidente, o retorno de Amorim ao governo poderá ser bastante útil em um momento em que o Brasil reforça sua candidatura a uma vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Em conversas reservadas com assessores e, algumas vezes, em palestras dirigidas a pessoas ligadas à área de defesa, Jobim costumava dizer que a candidatura brasileira na ONU corria o risco de cair no vazio, porque o Brasil, ao contrário de outros postulantes, como Índia, Japão e Alemanha, não tem poderio militar.
Jobim também demonstrava preocupação com a fragilidade das fronteiras. No entanto, nunca defendeu publicamente a reforma da ONU e a possibilidade de os brasileiros ganharem mais espaço nas grandes decisões mundiais.

Para Jobim, Itamaraty tinha “inclinação antiamericana”
Além disso, em um dos documentos vazados pelo site Wikileaks, o então ministro Jobim teria dito que havia uma “inclinação antiamericana” do Itamaraty, que, na época, era comandado por Amorim. Em conversa com diplomatas americanos, Jobim também teria dito que o vice de Amorim, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, “odeia os EUA e trabalha para criar problemas na relação”.
Logo que assumiu o Itamaraty, a convite de Lula, em 2003, no auge das fortes medidas de segurança adotadas pelos Estados Unidos, por causa do recrudescimento do terrorismo, Amorim avisou que preferia ser preso a ter de tirar os sapatos em aeroportos, tal como teve de fazer seu antecessor, Celso Lafer, para entrar em território norte-americano.