02 de Agosto, 2011 - 10:54 ( Brasília )

Defesa

Planalto considera reduzidas as chances de Jobim ser demitido


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Raymundo Costa e Fernando Exman

Auxiliares da presidente Dilma Rousseff disseram ontem ser improvável a demissão do ministro da Defesa, Nelson Jobim, em razão da entrevista em que ele informa ter votado no adversário da presidente, José Serra, na disputa presidencial de 2010. A presidente, segundo essas autoridades, reprovou a fala, classificada no Palácio do Planalto como "infeliz", bem como não tem gostado de outras manifestações do ministro, mas não pensa em demissão, o que lhe traria fama de antidemocrática.

A eventual demissão do ministro envolve interesses que a presidente Dilma Rousseff ainda avalia e sob os quais está formando opinião. São interesses que vão da tentativa revanchista de transformar a Comissão da Verdade num tribunal de julgamento a negócios bilionários na área de defesa que transcendem a compra dos novos caças da Força Aérea Brasileira (FAB), prevista para 2012.

Entre interlocutores da presidente e do ministro, essa é a única explicação visível para o noticiário recorrente sobre a queda de Jobim. É fato que os dois, ambos de temperamento forte, não tiveram bom início na transição. Hoje, no entanto, têm projetos sensíveis encaminhados.

Jobim, por exemplo, tem uma reunião marcada com o PSDB: quer apoio dos tucanos para aprovar no Congresso a criação da Comissão da Verdade nos termos em que ela foi negociada com as Forças Armadas. Pelo acordo, as famílias dos desaparecidos políticos terão acesso à memória do que ocorreu com seus parentes. Os militares que testemunharem, por seu turno, não poderão ser processados criminalmente, como quer parte da esquerda.

No que se refere aos contratos e acordos militares, o contencioso Brasil-EUA voltou a crescer. No próximo ano, o governo escolherá os caças para reequipar a aeronáutica. As chances do Super Hornet americano continuam pequenas, mas outros conflitos entraram em cena.

Brasil e Colômbia pretendem assinar um acordo militar, no próximo dia 4, para o patrulhamento de 50 quilômetros de cada lado da fronteira. O objetivo é o combate ao tráfico de drogas, de armas e aos crimes ambientes. Algo como já ocorre hoje com a Bolívia, por exemplo, e que posteriormente se pensa em estender à Venezuela. Mas somente as forças dos dois países participariam das ações: além dos militares, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e afins. Ou seja: não participariam forças externas aos países fronteiriços, o que poderia significar a retirada dos EUA da região, que mantêm bases e estreitas relações com a Colômbia. Além disso, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs) seriam avisadas.

O Brasil também decidiu reativar a base de Alcântara, no Maranhão, mas os americanos não estão incluídos no projeto. Recentemente, em Itaguaí, Dilma cortou a primeira chapa de aço do submarino nuclear - parceria brasileira com a França.

Os três comandantes das Forças Armadas (Exército, Marinha e aeronáutica, além do chefe do Estado Maior Conjunto) apoiam a permanência de Jobim. Mas todos, inclusive Jobim, hoje consideram que sua declaração foi "desnecessária", como disse o secretário-geral das Presidência, Gilberto Carvalho, e que esse é um assunto da presidente.

O que é considerado estranho, na Defesa, é que uma declaração feita há uma semana por Jobim continue sendo repercutida nos jornais. Frase, aliás, que ele já havia dito em outra ocasião. "Ninguém desconhece que o Jobim gosta de mandar, que ele é amigo do Serra, foi ministro do Lula e agora é um ministro leal a Dilma, como pode observar quem lê toda sua entrevista", disse um interlocutor do ministro ao Valor.

No PT, há quem considere a eventual demissão de Jobim a verdadeira "caça às bruxas" a que se referiu nos últimos dias o ministro Gilberto Carvalho, ao afirmar que Dilma não faria demissão em massa de aliados suspeitos de corrupção. No caso, seria uma discriminação ideológica.

Semanas antes, houve outra onda de boatos sobre a saída de Jobim do governo. Tudo por conta de uma frase do escritor Nelson Rodrigues que o ministro usou em discurso na festa de 80 anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: "E nós precisamos ter presente, Fernando, que os tempos mudaram. Ele (Nelson Rodrigues) dizia que, no seu tempo, os idiotas chegavam devagar e ficavam quietos. O que se percebe hoje é que os idiotas perderam a modéstia. E nós temos de ter tolerância e compreensão também com os idiotas, que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento".

Nos últimos dias, Jobim chegou a demonstrar sua insatisfação com o governo a integrantes da Executiva Nacional do PMDB. Os peemedebistas sabem que Jobim se ressente do fato de não estar mais presente nas principais discussões do governo, assim como ocorria na gestão de Lula. Mas não estão dispostos a se indispor com Dilma por Jobim.