11 de Julho, 2011 - 09:55 ( Brasília )

Defesa

MCT, MDIC e Fazenda finalizam nova política industrial.

Dilma exige pacote já. Ministérios correm. Texto foca a Indústria Automotiva mas têm implicações na defesa

Publicado Automotive Business
08 Julho 2011

 

Paulo Ricardo Braga, Automotive Business


Dilma Roussef tem pressa em arrematar o pacote que traduzirá a nova política industrial do governo e incluirá o setor automotivo como área estratégica e prioritária, merecedor de estímulos. Se dependesse dela, o anúncio do elenco de medidas estaria sendo feito já, e com atraso. No entanto, a costura passa por detalhes, interesses e pressões que estão atrasando o fechamento da matéria.

A presidente da República faz marcação cerrada sobre o andamento do trabalho e já avisou: vai levar a público a proposta até fim de julho. Os fabricantes de veículos contribuíram para o atraso, já que tardaram em levar os levantamentos a Brasília, enquanto os estudos do Sindipeças já eram conhecidos do MDIC desde o início do ano.

A nova política, que chegará com o nome de Programa de Desenvolvimento da Competitividade (PDC) ou algo similar, está sendo arquitetada pelos ministérios da Fazenda, Desenvolvimento e Ciência e Tecnologia, depois de receber diagnósticos e recomendações de diferentes procedências. Não haverá grandes surpresas. Segmentos industriais como o automotivo, diretamente interessados na divisão do bolo de incentivos associados ao pacote, especulam, no momento, o tamanho possível das parcelas de bondades.

A renúncia tributária que o governo está disposto a fazer, para aliviar a carga sobre a produção e estimular a competitividade, ainda é uma incógnita e deve decepcionar quem espera por um tiro de canhão dos grandes. Como demonstraram delegações das entidades setoriais nas incursões aos ministérios, são inúmeras e até gigantescas as carências de toda sorte que comprometem o desempenho das empresas - já bem conhecidas e muitas delas na cesta do custo Brasil.

Governo, entidades e empresas sabem que não há recursos suficientes para alavancar tudo e todos. Haverá prioridades a eleger. O alarde sobre a fragilização da cadeia de suprimento e produção automotiva leva a crer que haverá uma atenção especial sobre o setor, multiplicador de empreendimentos e empregos. Algumas das tacadas para resolver os problemas específicos da área automotiva virão de avanços a serem obtidos em campos como química fina, eletroeletrônica, nanotecnologia, energia, educação, transporte e logística, redução no preço de insumos e folhas de pagamento (desoneradas).

O Sindipeças, entidade dos fabricantes de autopeças, mostrou que a base da cadeia de suprimentos, fragilizada diante do avanço estrangeiro e importações crescentes, exige socorro imediato. A Anfavea, representando os fabricantes de veículos, preferiu mostrar que o carro brasileiro é caro, em comparação com o produzido em outros países, por uma série de ineficiências tecnológicas, dificuldades logísticas, custo de insumos e remuneração do trabalho.

A própria Dilma Roussef já deixou claro que a inovação será o pilar básico para suportar novos patamares de competitividade, indispensáveis para enfrentar o poder de fogo dos asiáticos que tomam de assalto diversas fronteiras da indústria. No caso da indústria automobilística, os recursos necessários para pesquisa e desenvolvimento, compra e criação de novas tecnologias e qualificação de pessoal serão expressivos. Muitos não acreditam que eles cheguem, via pacote, no volume necessário. É certo, por outro lado, que o governo exigirá contrapartidas.

O MDIC, a Fazenda e o MCT estão abastecidos de informações para compreender as carências da cadeia automotiva e dos seus atores. Custos de insumos, remuneração de pessoal, margens de lucro e impostos são bem conhecidos, como os preços das transações registrados na entrada e saída das alfândegas. Tentativas de subfaturamento podem ser detectadas com razoável empenho, de maneira a flagrar tentativas de burlar o fisco e as boas práticas de mercado.

O papel de cada um

Espera-se que os ministérios, por meio do PDC, estimulem o desenvolvimento setorial e incentivem as empresas, ao mesmo tempo que contemplam os benefícios que o consumidor requer. De um lado ele busca carros, peças e acessórios de alto nível e a preços justos. De outro, estará de olho nos empregos que a indústria automobilística deve gerar no País, em troca de recursos do BNDES para os investimentos e de um mercado altamente atrativo.

As montadoras terão que fazer a sua parte em contrapartida às bondades e dinheiro do Tesouro, espremendo margens de lucro e elevando o grau de inovação no País. A base do segmento de autopeças deverá ser recuperado e muitas empresas pequenas retiradas da lista de devedores permanentes do fisco. O setor de distribuição precisa de transparência, especialmente no financiamentos de veículos. Sabe-se que a maior parte dos ganhos das concessionárias não vem hoje das margens comerciais, mas do pedágio cobrado dos bancos nos financiamentos, seguros e abertura de crédito.

Margens de lucro exageradas na comercialização e no crédito engrossam a bola de neve que se revela, no fim da linha, em preço estratosférico dos veículos. Para os importadores, os lucros nas operações são extraordinárias, sejam os carros oriundos do México, da Argentina ou da Ásia. O preço FOB desses veículos está registrado no link www.receita.fazenda.gov.br/Aduana/ProdutosNCM/2011/ImportProdutsensiveis.htm

Paulo Cardamone, managing director da IHS Automotive e responsável pelos estudos de competitividade encomendados pelo governo, informa que três quartos do custos dos nossos veículos correspondem a materiais, como o aço, que chega a ser até 30% mais caro que o asiático. A mão de obra supera em 50% o valor registrado no México. A infraestrutura deficiente traz prejuízos e toda sorte de dificuldades no supply chain e distribuição. O preço da energia agrava as operações. Ao longo de toda a cadeia de produção e distribuição a carga de impostos corresponde a 32% do preço final do veículo.

Com todos esses malefícios, margens e custo de crédito, um carro como o Honda Fit custa aqui US$ 35 mil. Nos Estados Unidos vale US$ 17 mil e na Europa US$ 19 mil. Mas nem tudo isso somado tem sido suficiente para afugentar novos investidores.

Luis Curi, presidente da Chery Brasil, assegura que os custos locais para produção automotiva não são tão assustadores quanto se pinta. Durante o simpósio de manufatura promovido pela SAE Brasil, em 27 de junho, ele disse que não teme perder competitividade no mercado com a produção local. “O Brasil é perfeitamente viável”, garantiu, lembrando que os automóveis fabricados aqui não recolhem a alíquota de 35% pagos na importação da China, que incide em cascata sobre todos os demais impostos.

E você, o que pensa de tudo isso? Por onde começar a resolver os problemas do setor automotivo? Envie comentário para paulobraga@automotivebusiness.com.br