03 de Outubro, 2014 - 17:00 ( Brasília )

Defesa

Insatisfeitos com Dilma, militares tentam diálogo com Aécio e Marina

Programas de candidatos à Presidência fazem referências genéricas à modernização da frota e à valorização dos militares como elementos essenciais para a segurança nacional.


Cátia Seabra e Lucas Ferraz

 

Insatisfeitos com o governo de Dilma Rousseff (PT), integrantes das Forças Armadas, da ativa e da reserva, abriram canais de diálogo com os adversários do PT.

Militares têm conversado com o comando das campanhas de Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB) para oferecer apoio e colaboração nas áreas de segurança e defesa nacional. Até mesmo o nanico Levy Fidelix (PRTB) se reuniu com um grupo de oficiais numa churrascaria de Brasília.

Segundo militares ouvidos pela Folha, além da declarada insatisfação com a estrutura considerada ociosa, eles se preocupam em desenhar os possíveis cenários políticos a partir da eleição de outubro.

"Geralmente nos reunimos com todos, mas sou radicalmente contra o PT. É uma estratégia de planejamento das Forças Armadas", afirmou o general da reserva Rocha Paiva, que também é pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos do Exército.

A interlocução dos militares com a oposição adensou-se no início do ano. Com o PSB, as tratativas contaram com o aval do então candidato à Presidência, Eduardo Campos, morto num acidente aéreo, no litoral paulista, em agosto. A ponte com o partido foi feita pelo diplomata José Viegas, um dos ministros da Defesa do governo Lula (2003-10).

Recentemente, segundo integrantes da campanha de Marina Silva, ela foi procurada por oficiais do Exército e da Marinha, mas ela tem recomendado que a articulação fique para o segundo turno. Ainda segundo coordenadores da campanha, Marina deseja cuidar pessoalmente do assunto.

"As Forças Armadas estão preocupadas com duas coisas, o orçamento que seca e a Comissão da Verdade", afirmou José Viegas.

Além do que consideram o sucateamento das armas, os oficiais estão particularmente irritados com os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, criada pelo governo Dilma e que não tem um único representante das Forças Armadas em sua composição.

Outro ponto que causa polêmica é a possibilidade de revisão da Lei da Anistia. Pessoalmente, Dilma acha que a lei, que proíbe julgar os militares pelos crimes da época, deveria ser revogada, mas seu governo nunca tomou qualquer iniciativa nesse sentido.

Aécio Neves e Marina Silva já disseram, publicamente, ser contrários à revisão da legislação, o que foi entendido pelos militares como uma sinalização positiva.

Com o PSDB, a conversa com os militares foi intermediada pelo ex-embaixador Rubens Barbosa, responsável por coordenar o programa de Aécio para as áreas de Defesa Nacional, Política Externa e Comércio Exterior. "Tomamos a iniciativa de procurar os militares para discutir os problemas que o setor enfrenta", disse. "A conversa serviu para me ajudar a escrever o programa", ressaltou Barbosa.

Mas a conversa com o tucano, contudo, remonta a 2010. Naquele ano, antes ainda de o partido escolher José Serra como o candidato à Presidência, Aécio se reuniu com um grupo encabeçado pelo general da reserva Maynard Marques Santa Rosa. Neste ano, o senador adotou um tom cauteloso na relação com os militares. Como Marina, prefere lidar pessoalmente num eventual segundo turno. Segundo a Folha apurou, ele temia que sua candidatura fosse caracterizada à direita.

Assumidamente de direita, o candidato Levy Fidelix conta ter sido convidado pelos militares para um almoço numa churrascaria em Brasília. Segundo Levy - cujo vice é militar -, havia no encontro oficiais da ativa e da reserva.

A intenção era buscar representantes no Congresso Nacional, a exemplo dos evangélicos, e alertar para riscos como a "socialização" do país, o fortalecimento dos movimentos sociais, as distorções das atribuições militares e a entrada descontrolada de emigrantes pela fronteira. Eles também reclamam do congelamento dos salários. "Eles estão atentos a tudo e muito preocupados", disse.