COBERTURA ESPECIAL - Cyberwar - Segurança

07 de Novembro, 2011 - 09:51 ( Brasília )

Quem precisa de justiceiros virtuais?

Grupos de hackers resolveram denunciar sequestros, tráfico e pedofilia usando a internet – mas eles não estão preparados para brincar de polícia

BRUNO FERRARI

"Nós somos o Anonymous. Somos uma legião. Não perdoamos. Não esquecemos.” A afirmação épica está no fim de uma mensagem publicada no final de outubro pelo Anonymous, o principal grupo hacker em atividade hoje no mundo. No vídeo colocado no YouTube, uma pessoa usando o uniforme típico do clã – terno, gravata e a máscara do protagonista do quadrinho V de vingança – faz ameaças gravadas com a voz eletrônica do serviço de tradução do Google. Desta vez, o alvo não eram sites de órgãos públicos, sistemas bancários ou redes sociais. Eram os membros de Los Zetas, um dos maiores e mais violentos cartéis de drogas do México. O recado era claro: se os Zetas não soltassem um membro do Anonymous sequestrado dias antes, o grupo hacker liberaria informações que, segundo ele, levariam à prisão dos chefões e de políticos ligados ao cartel.


A disputa entre hackers e traficantes começou em agosto. Membros do Anonymous que moravam na cidade de Veracruz iniciaram uma operação chamada Paperstorm. A cidade estava imersa no caos por causa da guerra entre diferentes cartéis de drogas. O objetivo dos criminosos era conquistar o Porto de Veracruz, um importante canal de envio de drogas e contrabando a outros países. Os cartéis começaram a agir como milícias e a arrancar dinheiro dos moradores para financiar seu projeto. A operação hacker tinha como objetivo denunciar o envolvimento de políticos e militares com esses cartéis e diminuir a impunidade. Eles organizaram protestos de rua com entrega de panfletos e publicavam textos nos blogs contra os cartéis.

A primeira baixa do conflito ocorreu do lado dos hackers. No dia 26 de setembro, o corpo da jornalista Marisol Macias Castaneda foi encontrado decapitado. Ela publicara denúncias na internet com o nickname “Laredo Girl”, que fazia referência a sua cidade. Junto a seu corpo, os Zetas, cartel que assumiu a autoria do assassinato, deixaram uma mensagem explicitando que sua morte ocorrera por causa de suas atividades on-line. Apesar de não haver indícios de que Marisol tivesse ligação com o Anonymous, o grupo resolveu assumir a causa e intensificou as denúncias contra os Zetas. No fim de outubro, veio a resposta: o sequestro de um integrante do Anonymous, sobre o qual não se sabe nada além de sua origem: Veracruz. Os hackers reagiram com uma nova operação, chamada Cartel. Ela começou com o vídeo divulgado em 29 de outubro. “Não podemos nos defender com armas. Mas temos informações das casas, dos carros, dos bares e dos bordéis desses corruptos. Sabemos quem são vocês e onde vocês estão”, diz a mensagem. “Vocês cometeram um grande erro em tomar um de nós.”

O prazo estipulado para a libertação vencia no sábado 5 de novembro. Até o fechamento desta edição não havia uma resposta pública dos traficantes sobre a ameaça nem informações sobre o sequestrado. Parte do Anonymous chegou a anunciar a desistência da operação, dizendo que não havia condições de garantir a segurança de seus membros. Segundo a empresa de inteligência Stratfor, que analisou o caso nos últimos meses, os Zetas mantêm um grupo de hackers que busca na rede informações que possam facilitar sua atuação criminosa. O Stratfor afirma que o cartel também usa técnicas para encontrar suas vítimas fora da rede. Os ativistas on-line comentam com amigos ou familiares sobre suas ações e são localizados por espiões a serviço dos marginais. “Mesmo com o ambiente hostil, alguns ativistas do Anonymous continuarão na campanha. E os Zetas responderão”, conclui o relatório.

O embate entre traficantes e hackers parece uma daquelas histórias de quadrinhos em que heróis com um pé no submundo – como Batman – combatem os marginais se apropriando de seus métodos violentos. Na vida real, quem faz justiça com as próprias mãos tem nome: são os vigilantes. Eles trafegam entre o heroísmo e a marginalidade. O Anonymous, que assumiu a guerra contra o cartel de drogas, nem sempre esteve do lado da lei.

Às vezes eles parecem defender uma causa, como no fim do ano passado, quando atuaram como paladinos do WikiLeaks, site do hacker Julian Assange, que ganhou fama ao divulgar informações secretas de vários países, sobretudo do governo americano. Os hackers do Anonymous atacaram as redes de cartões Visa e Mastercard depois que ambas as empresas bloquearam a doação de recursos ao WikiLeaks. No primeiro semestre de 2011, uma dissidência do grupo, chamada LulzSec, mostrou a face niilista do ativismo virtual.

O grupo iniciou uma série de ataques a sistemas de empresas, órgãos governamentais e ONGs. Começaram derrubando a rede on-line de jogos da Sony, a PlayStation Network. O sistema permaneceu fora do ar por semanas e causou prejuízos de milhões de dólares à fabricante japonesa. Depois, vieram sites do governo dos Estados Unidos, do Senado americano e da CIA, o serviço de inteligência dos Estados Unidos.

O LulzSec ganhou até uma filial no Brasil, que derrubou os sites da Presidência da República e do Ministério do Esporte, com vagas alegações de combate à corrupção. Parecia mais um ato de vândalos e uma exibição narcisista de poder. Mas a existência dessa minoria dissidente sugere, numa leitura mais cuidadosa, que a maior parte do Anonymous se desinteressou da mera anarquia e dos pequenos crimes virtuais.

No mês passado, membros do Anonymous deflagraram a Operação Darknet, que desbancou uma rede mundial de pedofilia pela internet. Depois de meses de tentativas, o grupo penetrou numa rede subterrânea em que pedófilos trocavam documentos, imagens e vídeos de menores. Os criminosos se sentiam tão à vontade no ambiente seguro que compartilhavam verdadeiras atrocidades, como um guia para atrair e molestar crianças. A operação culminou com a divulgação de 190 nomes, três deles brasileiros. A partir dessas informações, a polícia está investigando e pode confirmar as denúncias.

Quem conhece a tecnologia da internet diz que a polícia não conseguiria penetrar sozinha na rede dos pedófilos. Os hackers só tiveram sucesso porque eles mesmos constroem redes semelhantes (chamadas Tor), que usam para trocar informações em sigilo. “Grupos de hackers estão tomando medidas para evitar que tecnologias como a das redes Tor sejam usadas por criminosos”, diz o advogado Thiago Nunes Oliveira, professor na PUC da Bahia e presidente da Safernet, uma ONG de proteção ao usuário de internet. “Eles não querem que as autoridades considerem a Tor uma rede ilegal.”

Por mais nobre que as ações recentes do Anonymous pareçam, o serviço que eles prestam à sociedade ao combater crimes deve ser avaliado com cautela. Esses grupos têm uma longa tradição anarquista que se confunde com a criminalidade. Na origem do movimento hacker, os grupos eram formados por jovens com bom conhecimento em tecnologia e filosofia libertária. Alguns rapidamente enveredaram pela contravenção. Criou-se então a expressão “black hat” (chapéu preto), para definir os programadores que usavam seu conhecimento de computação para praticar crimes.

A primeira condenação na Justiça veio no início dos anos 1980. Desde então, alguns se tornaram famosos por seu comportamento marginal (leia no quadro ao lado alguns hackers condenados nos últimos 30 anos). “É cedo para tirar uma conclusão definitiva sobre as intenções do Anonymous”, diz Oliveira. Como se trata de um grupo disperso, diversificado e anônimo, é difícil identificar quem são os bandidos e quem são os mocinhos. “Não há como saber quem são os hackers do bem, movidos por ideologia, e quem são os criminosos, que se escondem por detrás das máscaras do V e dos nicknames.”

O próprio Oliveira pode ser considerado um hacker do bem. Nos últimos anos, a Safernet, presidida por ele, teve participação fundamental na resolução de diversos crimes cometidos na internet. A função da entidade é garimpar e repassar à Polícia Federal e ao Ministério Público informações de quem pratica crimes como pedofilia ou racismo. Desde 2005, eles já participaram de dezenas de operações da PF. Na última, um pedófilo foi condenado a nove anos de prisão. A Safernet também foi autora das denúncias que culminaram na Operação Turko, antipedofilia, deflagrada em 2009. “Foram cumpridos 103 mandados de busca e apreensão em 21 Estados. A operação mobilizou 450 policiais”, diz Oliveira.

Além dos paladinos virtuais, há uma segunda vertente de heróis da internet que tenta defender as vítimas de sistemas políticos opressivos. O californiano Austin Heap, de 27 anos, ficou conhecido como o hacker que enganou o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. No auge dos protestos contra o governo repressor iraniano, em 2009, Heap desenvolveu um programa que driblava os agentes de segurança. Eles usavam a internet para identificar e perseguir opositores. Os ativistas, liderados por Heap, jogaram na rede um software que impedia os policiais do regime iraniano de rastrear as mensagens trocadas pelos opositores, que denunciavam as vítimas de perseguição política. Heap, que dirige uma ONG chamada Censorship Research Center, acredita que qualquer um com conhecimento tecnológico possa ajudar a criar um ambiente democrático na rede. Segundo ele, quase 30% dos usuários de internet no mundo estão sob alguma forma de censura. “A parte legal de ser hacker é que você pode se aliar com pessoas do mundo inteiro para combater crimes e a censura”, diz Heap. “Não acho que os hackers devam se aliar a nenhum governo. O papel deles é chamar a atenção para as questões sérias que estão acontecendo no mundo.”

O perito digital Wanderson Castilho, autor do livro Manual do detetive virtual, concorda. Ele diz que há mais riscos que benefícios nos exércitos de justiceiros tentando ajudar a resolver crimes.“A ação informal de pessoas bem-intencionadas e capazes, mas totalmente desorganizadas, pode causar resultados desastrosos”, diz Castilho. “Como o Estado pode confiar num grupo que se intitula como ‘anônimo’?” Castilho diz ter em seu currículo mais de 700 casos de crimes digitais resolvidos, entre espionagem industrial, roubo de senhas, difamação e pedofilia.

Há razões para que o exercício da lei esteja a cargo de gente treinada e capaz para isso. Assim se impedem injustiças e se evita que pessoas desprotegidas sofram represálias. O caso do sequestro no México mostra como é difícil para um grupo de jovens idealistas enfrentar uma facção criminosa organizada e violenta. O desejo ingênuo de combater o crime pode terminar com a perda de uma vida. Outro episódio ilustra o risco de os vigilantes cometerem injustiças. Mike Perry, um dos criadores da rede Tor, foi acusado pelos hackers do Anonymous de estar a serviço da quadrilha internacional de pedófilos.

A desconfiança surgiu porque ele vinha recebendo doações superiores às que outros técnicos com responsabilidade semelhante recebem. “Você não tem ideia do que está fazendo”, disse Perry numa rede de troca de mensagens usadas pelos hackers, o IRC. Ele deu explicações técnicas para os depósitos que aparecem ligados a seu nome que soaram convincentes a boa parte dos que participaram do debate. Mas o dano já estava feito. Ao representante do Anonymous presente na discussão, Perry disse: “Você sujou meu nome e o nome da rede. Você é um vigilante idiota”. Faz sentido.



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Última atualização 19 AGO, 11:00

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