COBERTURA ESPECIAL - Cyberwar - Geopolítica

19 de Junho, 2011 - 12:34 ( Brasília )

Twitter e Facebook são fundamentais para dissenso na Arábia Saudita

Quase qualquer assunto que contradiga a política oficial aparece online, incluindo mais de 30 mil comentários sobre a prisão de uma motorista mulher

Quando Manal al-Sharif publicou um vídeo de si mesma infringindo a lei ao dirigir seu próprio caro na cidade quente e plana de Al-Khobar e convocou um protesto coletivo, o governo respondeu de forma ríspida: ela foi presa por nove dias.

Mas ao contrário do que acontecia no passado, a censura do governo não encerrou o debate. Em vez disso, a internet foi tomada por pessoas que se posicionaram em defesa Al-Sharif fazendo uso principalmente das mídias sociais, que cresceram muito no país depois das revoltas na Tunísia e no Egito.

O Twitter e o Facebook transbordaram com comentários denunciando os príncipes e os clérigos da Arábia Saudita, que clamavam que ela fosse açoitada como os Neandertais completamente desvinculados da realidade da vida das mulheres no país.

Em poucos dias, mais de 30 mil comentários sobre a prisão de Al-Sharif foram publicados no Twitter, a grande maioria em seu favor, disse Abdulaziz al-Shalan, que acompanha mensagens sobre questões sauditas no site de microblog.

"Vocês estão acusando uma mulher de ser pecadora porque ela foi para a cadeia por dirigir? Que tipo de religião inventa isso?", escreveu uma mulher de Jidá, na costa do Mar Vermelho.

As mídias sociais, que ajudaram a organizar os protestos no mundo árabe, parecem feitas sob medida para a Arábia Saudita, onde as reuniões públicas são ilegais, as mulheres são estritamente proibidas de se misturar com os homens que não sejam seus parentes e as pessoas raramente se misturam com outras fora de sua família.

Virtualmente qualquer assunto que contradiga a política oficial saudita agora aparece online, incluindo o status de prisioneiros detidos sem julgamento ou uma convocação para que os eleitores boicotem as eleições municipais de setembro. Louai A. Koufiah, um entusiasta do Twitter, brincou: "Os sauditas não podem sair para fazer protestos, por isso eles retuitam!"

Essam M.al-Zamel, que ajudou a iniciar a campanha de boicote das eleições municipais, gaba-se de não poder reunir 30 pessoas em uma sala, mas de agrupar mais de 22 mil instantaneamente no Twitter. Mas onde quer que o público vá, o governo o segue.

Depois dos sauditas invadirem o Twitter, os ativistas observaram uma onda de novos usuários sem imagens que se descreveram em termos patrióticos e atacam os críticos do governo. Como a imagem padrão no Twitter é um ovo, eles ganharam o apelido de saudieggs (ou ovos sauditas, em tradução livre).

"Meu objetivo de vida é ser um cão de guarda para proteger a minha religião e o meu Estado", dizia parte das informações de um desses usuários.

AlGasim Abdulaziz, advogado e ativista na capital, Riad, está convencido de que tais usuários trabalham para o governo porque, quando o atacaram, utilizaram informações desconhecidas do público. "Oh, esse é um ovo famoso!", disse rindo enquanto acompanhava as publicações, apontando como eles tentam provocar brigas sectárias.

Antes, os críticos do governo buscavam aliados, sem saber a quem se dirigir. Mas a combinação de opiniões ousadas online e o acompanhamento de quem os "ovos" atacam ampliou o contato entre os ativistas de todo o país.

Buscando destacar a situação dos presos detidos há anos sem julgamento, os ativistas recentemente publicaram um vídeo no YouTube intitulado "Sauditas Ausentes”. Ele mostra o desespero dos parentes de alguns dos 16 homens presos em 2007 pelo que Bassem Alim, um advogado de defesa, disse serem medidas rudimentares para a criação de um partido político e que o governo qualificou como atos de terrorismo. Eles só foram acusados formalmente em agosto passado.

O vídeo resposta levou o título "Sauditas Presentes" e mostra uma entrevista com o pai de uma menina saudita morta em um ataque da Al-Qaeda, intercalada com fotos de famosos dissidentes sauditas. "Mantenha-os presos!", lê-se na legenda da tela. "Fico do lado do seu país contra eles, repasse esse vídeo."

O major-general Mansour al-Turki, porta-voz do Ministério do Interior, negou qualquer participação do governo em contra-ataques desse tipo. Seu principal esforço online é procurar por pessoas que divulgam a ideologia da Al-Qaeda, disse. "Essa não é a nossa maneira de desafiar os indivíduos ou as redes sociais na internet. Isso é um absurdo", disse.

Embora as mídias sociais tenham começado a ser usadas quase exclusivamente pela elite liberal, ativistas sauditas afirmam que elas se tornaram mais democráticas este ano, com uma maior variedade de vozes.

Mas os conservadores religiosos estão chegando perto. Longe estão os dias quando eles emitiram uma fatwa no jornal Al-Watan, que pedia que as mulheres evitassem escrever "LOL", ou “rindo alto”, porque a própria ideia de uma mulher rir pode excitar homens estranhos.

Dois conservadores sauditas abriram um canal no YouTube, o CH905, para destacar o trabalho dos clérigos mais importantes do movimento tradicionalista Sahwa ou Wahhabi no país. (Seu número de telefone para assistência é 905, por isso a escolha do nome.)

Um clérigo apelou para o governo saudita para que derrube a mesquita em torno da Caaba, o santuário sagrado de Meca para a qual os muçulmanos se voltam quando oram, e coloque uma nova estrutura, para que homens e mulheres circulem em andares diferentes. Outros têm atacado as propostas de educação conjunta na escola fundamental.

Sauditas que seguem de perto as mídias sociais dizem que as ações atuais, especialmente no Twitter, tiveram uma influência moderadora. Os religiosos mais extremistas e os liberais mais impulsivos adotaram atitudes mais flexíveis sobre questões – um sinal de que querem conquistar mais seguidores, e os diferentes lados já não falam apenas entre si, disseram.

A campanha online em favor das mulheres dirigirem mostra o que a organização pode fazer – e o que não pode. Al-Sharif, 32, uma especialista em tecnologia da informações da Aramco, a companhia estatal de petróleo, anunciou a sua campanha em abril, e ativistas sauditas disseram esperar que pelo menos algumas centenas de mulheres pegassem seus carros na sexta-feira 17 de junho. Mas seu desafio aberto ao governo ao publicar os vídeos alienou inúmeras partidárias que acham que ela deveria ter simplesmente esperado até a data anunciada.

Os defensores acreditam que a prisão de nove dias foi uma tentativa deliberada da monarquia de erradicar qualquer tipo de movimento inspirado naquilo que aconteceu na Tunísia e no Egito. É mais provável que tenha tido o efeito desejado de assustar muitas mulheres.

Mas isso não acalmou o intenso debate online. Alguns homens sugeriram que Al-Sharif, uma mãe solteira, estava simplesmente à procura de um marido. Seus defensores, mesmo Abdel Aziz Khoja, o ministro da informação e um ávido usuário do Twitter, também deram sua opinião, dizendo: "A mulher tem o direito de dirigir desde que ela respeite a etiqueta pública e o comportamento islâmico.”

As mulheres mais jovens são particularmente desafiadoras – um grupo de cinco mulheres de idades entre 20 e 30 anos foi preso em Riad na quinta-feira por tomar lições de direção. Uma delas continuou a publicar atualizações no Twitter mesmo depois de presa num tanque da polícia da moral: "Estamos esperando em uma sala pequena e suja.”

Uma fraqueza nos movimentos online é que seus organizadores muitas vezes permanecem anônimos para evitar a ira do governo.

Em março, ninguém sabia exatamente quem estava convocando manifestações de rua. O dia foi repentinamente batizado de Hunain, uma famosa batalha na história islâmica, que os muçulmanos xiitas reverenciam mais do que os sunitas. Vários ativistas pensam que o governo plantou o nome online para tentar transformar os protestos em um tema sectário.

Ativistas sauditas disseram reconhecer que as mídias sociais por si só não trariam mudanças, embora elas exponham as questões e unam os organizadores.

"Se você consegue atingir o público, ele exercerá pressão sobre a família real pela modernização", disse AlGasim, o advogado de Riad, que descobriu que mesmo sua mãe de 72 anos tinha assinado uma petição online pela democracia. "A mudança virá das manifestações, não de falarmos sobre elas.”

* Por Neil Macfarquhar



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