|
Defesanet
28 Junho 2005
ONU - BRASIL 27 Junho 2005
|
|
Brasil
registra mais mortes por armas de fogo do que conflitos armados
internacionais
Brasília,
DF - Na última década as mortes por armas de fogo
registradas no Brasil superaram o número de vítimas
de 23 conflitos armados no mundo, perdendo apenas para as Guerras
Civis de Angola e da Guatemala. Nesse período morreram
no Brasil 325.551 pessoas, em média 32.555 mortes por ano.
Os dados fazem parte do estudo Mortes Matadas por armas
de fogo no Brasil 1979 2003, que foi lançado
hoje, segunda-feira (27/06), às 11h, pelo Representante
da UNESCO no Brasil, Jorge Werthein, e pelo Presidente do Senado
Federal, Renan Calheiros, no Senado, em Brasília (DF).
O lançamento tem como objetivo sensibilizar a sociedade
brasileira para a importância do desarmamento da população
e da aprovação do referendo sobre o fim da livre
comercialização de armas e munições
no País, afirma Jorge Werthein.
O estudo, coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz,
pesquisador da UNESCO e Chefe do escritório da Organização
em Pernambuco, revela que, entre 1979 e 2003, as armas de fogo
mataram 550 mil pessoas no País, ou seja, 35 mil vítimas
por ano ou 100 pessoas por dia. A pesquisa confirma que os jovens,
entre 15 e 24 anos, são as principais vítimas das
mortes por armas de fogo: do total de vítimas, 206 mil
eram jovens nessa faixa etária. Só no ano de 2003,
41,6% dos casos registrados foram de jovens.
A pesquisa foi feita com base em dados do Sistema de Informações
de Mortalidade, no caso Brasil, o DATASUS do Ministério
da Saúde, e, no caso internacional, da Organização
Mundial de Saúde (OMS), detalhando a causa de mortes por
uso de armas de fogo em acidentes, homicídios, suicídios
e indeterminada. Os dados foram analisados ano a ano conforme
o número de mortes por armas de fogo no Brasil. O autor
compara a morte por armas de fogo com outras causas de mortalidade
como acidente de trânsito, enfermidades etc. Além
disso, as mortes por armas de fogo no País foram comparadas
com o número de vítimas de 26 conflitos bélicos
ocorridos em 25 países do mundo, em períodos distintos.
Chama a atenção o fato de o Brasil, mesmo sem ter
conflitos religiosos, de fronteiras ou luta política armada,
registrar mais vítimas das armas de fogo do que nações
atingidas por conflitos bélicos declarados.
Com o lançamento do livro, a UNESCO e o Senado Federal
pretendem fortalecer o movimento já iniciado com a Campanha
do Desarmamento, de forma a contribuir com a promoção
de uma cultura de paz no Brasil. Os números mostram que
é importante reduzir o número de armas em circulação
no País e também a venda de armamentos para se reduzir
a violência.
Alguns dos principais resultados do livro:
Entre 1979 e 2003, acima de 550 mil pessoas morreram no Brasil
vítimas de disparos de algum tipo de arma de fogo, num
ritmo crescente e constante ao longo do tempo. Nesses 24 anos,
as vítimas de armas de fogo cresceram 461,8%, enquanto
a população do país cresceu apenas 51,8%.
O crescimento foi puxado pelos homicídios com armas de
fogo, que registraram um crescimento de 542,7% no referido período.
Os suicídios com armas de fogo subiram 75% e as mortes
por acidentes com armas caíram 16,1%.
Das 550 mil mortes, 205.722, ou seja, 44,1%, foram jovens na faixa
de 15 a 24 anos. Considerando que os jovens representam 20% da
população total, conclui-se que, proporcionalmente,
morrem mais de o dobro de jovens vítimas de armas de fogo
do que nas outras faixas etárias.
Entre os jovens, o crescimento do uso letal de armas de fogo foi
ainda mais violento do que na população total, chegando
a 640,3%. Os homicídios também são os maiores
responsáveis por este crescimento, ao aumentarem 742,9%
no período, enquanto o número de suicídios
cresceu 61% e os acidentes envolvendo armas de fogo caíram
16,7%.
Também aumentou a participação da população
jovem entre as vítimas das armas de fogo. Em 1979, houve
2.208 mortes juvenis por armas de fogo, representando 31,6% do
total de vítimas pr armas de fogo. Em 2003, os 16.345 jovens
que morreram por balas de armas de fogo representaram 41,6% do
total de vítimas.
Para o conjunto da população brasileira, as principais
causas de morte são as doenças do coração,
as cerebrovasculares e, em 3º lugar, as provocadas por armas
de fogo. Entre os jovens, contudo, as armas de fogo são
a principal causa da mortalidade, numa proporção
bem maior que a segunda maior causa de mortalidade juvenil, representada
pelas mortes por acidentes de transporte.
Comparativamente, em 2003, 11.276 pessoas, entre elas, 606 jovens,
morreram vítimas da aids. Essa epidemia ocupa a 11ª
posição entre as causas de mortalidade da população
total e a sexta, entre a população de 15 a 24 anos.
Entre 1993 e 2003, morreram no Brasil 325.551 pessoas, em uma
média de 32.555 mortes ao ano. Em uma comparação
com a mortalidade em 25 conflitos armados no mundo, o Brasil apresenta
a maior média de mortos/ano.
Em números absolutos, o Brasil fica atrás apenas
da Guerra Civil de Angola, que teria causado a perda de 550.000
vidas, ao longo de 27 anos de conflito, e para a Guerra Civil
da Guatemala, que, entre 1970 e 1994, teria causado 400.000 vítimas.
O Brasil apresenta números e médias de mortes ao
ano mais elevados que conflitos armados como a Guerra do Golfo,
a Primeira e a Segunda Intifadas, a disputa entre Israel e Palestina
e os conflitos da Irlanda do Norte.
Dos 57 países analisados, o Brasil ocupa a segunda posição,
logo abaixo da Venezuela, quando se trata da população
total. Entre os jovens, o Brasil ocupa a terceira posição,
logo depois da Venezuela e de Porto Rico.
Entre a população jovem, o Brasil apresenta a 3ª
mais elevada taxa de óbitos relacionadas a homicídios
por armas de fogo, a 3ª taxa para mortes por armas de fogo
cuja causa é indeterminada. Em relação aos
acidentes com armas de fogo, ocupa a 15ª posição
entre os países estudados e a 20ª, em relação
aos suicídios.
São poucos os países no mundo nos quais, como no
Brasil, a mortalidade por armas de fogo supera as taxas de óbito
em acidentes de transporte. Entre os 57 países analisados,
só em seis casos isso acontece, e cinco deles são
países da América Latina: Argentina, Brasil, Paraguai,
Uruguai e Venezuela.
Também são minoritários os países
em que as mortes por armas de fogo superam as taxas de suicídio.
Do total analisado, são 15 os países que se encontram
nessa situação, e a maior parte deles é da
América Latina.