COBERTURA ESPECIAL - Crise - Geopolítica

26 de Fevereiro, 2018 - 10:45 ( Brasília )

Irã e Turquia dizem que combates na Síria vão continuar

Apesar de resolução da ONU pedindo cessar-fogo, potências afirmam que ataques a terroristas continuarão em território sírio. Combates em Ghouta Oriental prosseguem no dia seguinte à decisão do Conselho de Segurança.

O Irã afirmou neste domingo (25/02) que forças a favor do regime sírio continuarão atacando grupos terroristas no enclave insurgente de Ghouta Oriental, nas proximidades de Damasco, apesar de uma resolução do Conselho de Segurança pedindo um cessar-fogo na Síria.

O general Mohammad Bagheri garantiu que tanto Síria como Irã vão respeitar o cessar-fogo, mas ressalvou que "as regiões na periferia de Damasco que estão nas mãos de terroristas não estão cobertas pelo cessar-fogo, e as ofensivas e operações de limpeza pelo Exército sírio vão continuar".

Também a Turquia afirmou que vai prosseguir com suas operações contra grupos que considera terroristas na Síria, como a milícia curda YPG. Após saudar a resolução, o governo em Ancara acrescentou que continua decidido a "combater as organizações terroristas que ameaçam a integridade territorial e política da Síria".

"Está fora de questão que essa decisão tenha algum efeito na operação que a Turquia está executando", disse o vice-premiê Bekir Bozdag. Sem se referir à resolução, o presidente Recep Tayyip Erdogan afirmou que a operação em Afrin "continuará até que o último terrorista seja eliminado".

A resolução deixou de fora do cessar-fogo as áreas em que estão sendo travados combates contra grupos jihadistas, como o "Estado Islâmico", a Al Qaeda e a antiga Frente al-Nusra.

Ghouta Oriental tem sido alvo de intensos bombardeios por parte das forças governamentais sírias desde domingo passado. Mais de 500 civis, incluindo uma centena de crianças, morreram durante os sete dias de ataques consecutivos.

Merkel e Macron pressionam Putin

França e Alemanha pediram neste domingo à Rússia para que exerça "pressão máxima" sobre a Síria com vista à aplicação "imediata" da resolução que prevê um cessar-fogo humanitário no território sírio. Numa conversa telefônica com o presidente russo, Vladimir Putin, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e o chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, sublinharam que será "crucial que a resolução seja aplicada rápida e integralmente", indicou uma fonte oficial alemã.

Putin se limitou a informar seus interlocutores sobre as "medidas práticas tomadas pelo lado russo para retirar civis, para transportar cargas humanitárias e para prestar assistência médica à população síria afetada", de acordo com um comunicado do Kremlin. "Foi dada especial atenção ao fato de que a trégua não se aplicar às operações contra os grupos terroristas", destacou Moscou.

Violência em Ghouta Oriental

Os combates continuaram em Ghouta Oriental neste domingo. Rebeldes que lutam para derrubar o presidente Bashar al-Assad disseram que entraram em confronto com forças pró-governo nas proximidades de Damasco, e voluntários e moradores disseram que aeronaves atacaram cidades em Ghouta Oriental.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos, uma ONG baseada em Londres, afirmou que ataques aéreos e de artilharia mataram ao menos 19 combatentes de ambos os lados e nove civis, além de ferir 31 pessoas nos subúrbios de Damasco neste domingo. Segundo a ONG, os bombardeios foram menos intensos do que nos dias anteriores.

A guerra pervertida e sem rumo na Síria¹

Acompanhar a lógica das potências interventoras na Síria significa adentrar uma matemática perversa. Quem faz pacto com quem, por quê? Nenhuma conta mais fecha, as equações só se sustentam por uns momentos – diga-se, dias –, para então desmoronarem.

Aí a análise recomeça do zero. Novo caos, nova tentativa de compreender a lógica das alianças; à noite, então, vem a constatação de que também as novas teses só valerão por pouco tempo. Ou seja: as motivações dos protagonistas perderam toda a racionalidade, pelo menos uma que valha por mais do que alguns dias ou semanas.
 

Tome-se, por exemplo, a invasão de Afrin pela Turquia. Segundo diversos analistas, Moscou teria dado a Ancara sinal verde para tal. A Rússia, a potência protetora do ditador Bashar al-Assad? Mas por quê? De Moscou, nem uma palavra a respeito. Uma das suposições é que, com a ofensiva na Síria, Ancara provoca por tabela os Estados Unidos, aliado dos curdos sírios.

Trata-se, portanto, de um desvirtuamento, de uma confrontação talvez até entre dois parceiros da Otan. Do ponto de vista russo, deduz-se, essa tensão é extremamente bem-vinda, contribuindo para corroer a coesão interna da organização, tanto mais considerando-se as tensões relativas à Ucrânia.

Talvez, supõem outros, o plano dos russos seja outro: dar sinal verde para a campanha da Turquia na Síria, para que esta se aferre a uma guerra de desgaste da qual sairia enfraquecida, tendo que, por fim, apelar para a Rússia. Isso significaria que o placar está Rússia 1, Turquia 0.

A coisa toda não tem mais muito a ver com a Síria, são jogos de poder travados com uma falta de escrúpulos sem igual. A Turquia – bem ou mal, país-membro da Otan – marcha descaradamente sobre um outro país. O Irã se estabelece na Síria, compra terrenos, funda empresas. E os mulás de Teerã ficam felizes de, com a ajuda de Deus, poder agora ameaçar o odiado Israel de forma muito mais efetiva, diretamente a partir das Colinas de Golan.

Além disso soa como puro escárnio serem justamente esses mulás, os campeões da repressão, a acusarem Ancara de violar os direitos humanos. O que não significa que o governo turco – operador de uma brutal máquina de opressão em seu próprio país – não o esteja fazendo.

A Síria é palco de uma guerra total, que perdeu o rumo. E que também não encontrará sua direção por o presidente da França, Emmanuel Macron, anunciar agora que mobilizará suas Forças Armadas se o regime Assad voltar a empregar gás tóxico num ataque.

Para Macron, isso seria lucro, permitindo-lhe se glorificar na pose humanitária que tanto gosta de adotar – uma humanidade que há muito não tem dado mostras de poder contribuir em nada para o fim da guerra. Será que Macron realmente pretende enviar os aviões franceses contra os russos?

A União Europeia não tem superioridade militar na Síria. E a França – depois da intervenção na Líbia, incitada pelo filósofo oficial Bernard-Henri Lévy, e suas fatais consequências – tem todo motivo para refletir três vezes antes de agir. Senão o país se arrisca a descambar para o joguinho tático que os protagonistas da guerra há tanto tempo praticam na Síria. E cujas vítimas são os que tiveram o azar de nascer lá – atualmente em Afrin e, mais ainda, em Ghouta Oriental.

Em retrospectiva, é preciso dizer: foi tudo, menos sensato, que a aliança internacional, sem legitimação dos demais países, tenha iniciado o combate à quadrilha assassina do "Estado Islâmico" no segundo semestre de 2014. Ela cometeu o pecado original do qual resultaram todos os pecados posteriores. A partir daquele momento, a aliança perdeu toda a credibilidade: intervencionistas que condenam intervencionistas têm pouca chance de serem levados a sério.

No melhor dos casos, também a guerra tem suas – tenebrosas – leis. Se as perde, como há muito é o caso na Síria, aí ela se transforma em carnificina arbitrária, praticada por campeões do cinismo, que não conhecem mais nenhum objetivo – pelo menos nenhum que seja honroso.

¹por Kersten Knipp - especialista em Oriente Médio da DW

 



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