COBERTURA ESPECIAL - Crise - Pensamento

13 de Novembro, 2016 - 12:00 ( Brasília )

AZEDO - Ocaso da ideia-força

Ao subordinar toda a construção política ao “labor”, o “socialismo real” derivou inexoravelmente para o autoritarismo



Quando, em 27 de janeiro de 1945 ,as tropas do Exército Vermelho libertaram os sobreviventes dos campos de extermínio de Auschwitz e Birkenau, revelando ao mundo os horrores do holocausto – muito mais do que a heroica vitória de Stalingrado –, o fascínio do marxismo entre os intelectuais ganhou uma nova aura humanista.

A Revolução de Outubro (que no próximo ano completará 100 anos, no dia 7 de novembro), tornara-se uma ideia-força no Ocidente, o que possibilitou o surgimento de grandes partidos comunistas, além de legitimar a ocupação soviética dos países do Leste europeu.

Nem mesmo o relatório de Nikita Kruschov, no XX Congresso do PCUS, em fevereiro de 1956, ao revelar os crimes de Josef Stálin, abalou a fé quase religiosa de que o mundo caminhava para o socialismo. A primeira rachadura política só viria com a invasão da Hungria, em outubro do mesmo ano.

Foi preciso o fim da Primavera de Praga, com a invasão da antiga Tchecoslováquia pelo Pacto de Varsóvia, em 1968, para que a ficha caísse: o “socialismo real” havia perdido sua força transformadora e se tornara um regime autoritário e burocrático.

Mesmo assim, com a Doutrina Brejnev e a “guerra fria”, a Revolução Cubana e a Guerra do Vietnã, os dogmas comunistas continuaram influentes na esquerda mundial, ainda que a maioria dos intelectuais passassem a questioná-los. A perestroika de Gorbatchev, ao final dos anos 1980, chegou a realimentar as esperanças de que os países socialistas encontrassem o caminho da democracia. Mas não foi o que aconteceu.

Com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética (1922-1991), o modelo comunista implodiu. Certas ideias do líder da Revolução de 1917, porém, continuam sendo defendidas pelo mundo afora, com base nas realizações econômicas, sociais e científicas do socialismo na URSS.

No Brasil, o declínio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que abandonou a foice e o martelo e se transformou no PPS, coincidiu com a ascensão do Partido dos Trabalhadores, inspirado no Movimento Solidariedade, do metalúrgico Lech Valesa, líder operário católico da Polônia, que liderou grandes greves nos estaleiros de Gdansk.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu fundador e líder máximo, conseguiu reunir, num partido de massas sindicalistas, militantes católicos e remanescentes de organizações de extrema-esquerda que consideravam o antigo Partidão uma força conciliadora e reformista.

Talvez por causa da presença de intelectuais marxistas na sua fundação, mesmo se proclamando um partido anti leninista, o PT acabou adotando um dos principais dogmas de Lênin, o líder comunista que comandou a revolução de Outubro: a tese de que o partido seria a vanguarda de todos os explorados e oprimidos da sociedade.

Apesar da presença de sindicalistas de origem operária na cúpula da legenda, o PT tornou-se um partido de servidores públicos, e de uma grande massa popular beneficiada pelos programas de transferência de renda durante os governos Lula e Dilma, principalmente o Bolsa Família.

Entretanto, a ideia-força de que o “ser operário”, encarnado pelo ex-presidente Lula, ao se libertar (no caso, chegar ao poder), libertaria todas as demais classes exploradas e oprimidas continuou no imaginário de intelectuais e artistas que gravitam em torno da legenda. É uma situação muito parecida com a da França no imediato pós-guerra, quando a esmagadora maioria dos intelectuais franceses era militante, simpatizante ou aliada do Partido Comunista, com exceção da corrente liderada por Raymond Aron, autor do polêmico livro O Ópio dos Intelectuais (Três Estrelas).

No Brasil, tal fenômeno só não se repetiu na mesma escala, no imediato pós-guerra, por causa do apoio do líder comunista Luís Carlos Prestes à permanência de Getúlio Vargas no poder, o chamado “Queremismo”, o que provocou rupturas importantes, como a de Caio Prado Júnior.

A tese marxista do “ser operário” como “classe geral”, ou seja, aquela que libertaria todas as demais da exploração e opressão, foi completamente ultrapassada pela terceira revolução industrial e a automação. Do ponto de vista objetivo, o “ser operário” é uma espécie em progressiva extinção. Mas permanece sendo a aura do PT (nos dois sentidos, o vulgar e o científico), o que mantém em torno de Lula todas as correntes da legenda, apesar do desgaste causado pela Operação Lava-Jato e do isolamento político revelado nas eleições municipais.

A concepção de centralidade do “trabalho” no projeto político, porém, já foi duramente critica por Hanna Arendt, em A Condição Humana(Forense Universitária/Saraiva), para quem seria uma raiz de pensamento totalitário. Ao subordinar toda a construção política ao “labor”, o “socialismo real” derivou inexoravelmente para o autoritarismo. A verdadeira condição humana, na visão da filósofa judia alemã, é o “pensar e agir politicamente”, em regime de liberdade.